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  Fui à ótica para dar um jeitinho nos meus óculos escuros. Era a terceira ou quarta vez que eu os levava para algum remendo. Não dava mais! Tive que aceitar a realidade. Pode jogá-los fora... Pedi apenas o estojo. Como se eu estivesse com um pássaro ferido nas mãos, delicadamente, tirei de dentro dele um bilhete e mostrei o papel já bem surrado para o homem que estava me atendendo. O olhar que recebi demonstrava mais que interesse. Era um olhar que me abraçou e me convidou a ler aquela mensagem: “À minha queridinha Rosali, Se eu pudesse lhe dar todas as felicidades possíveis e imagináveis... Se eu pudesse fazer com que você ficasse sempre saudável de corpo e alma... Se eu pudesse dar-lhe muitas alegrias e “naches”... Então eu não seria Mãe, mas uma pessoa com poderes mágicos. O meu turbante não me dá esses poderes... Mas os meus desejos são tão fortes, e pelo AMOR de filha e pessoa que você é, tenho certeza, D’us vai me escutar! Parabéns pelo aniversário! (51). Beijos, Beijos com muito carinho, Mamãe! 20/07/2004.” Eu não me contive e terminei de ler chorando. Um copo de água apareceu na minha frente. Agradeci o gesto. Bebi um gole. O homem me deu a certeza de ter disponibilidade para saber mais sobre minha história e senti vontade de lhe contar sobre como de repente, num dia como outro qualquer, o câncer de minha mãe apareceu. Foi apenas dois ou três meses antes dela escrever esse bilhete. Surgiu tão esquisito. Mamãe me ligou para dizer que sua calça nova não fechava na cintura. Não achei importante. Minha cabeça estava ocupada com outros assuntos. Corta os doces, mãe, e capricha na hidro. Isso não vai ser nada. Dias depois, ela insistiu e marquei um médico. Havia razão de sobra para sua preocupação. Ela foi internada e depois dos exames fez uma cirurgia exploratória. O médico apareceu no quarto do hospital já tarde da noite. Veio a temida notícia. Estávamos já deitadas e ouvimos a sentença caladas. Quando o médico saiu, mamãe pediu para apagar a luz e disse que era hora de dormir. Vamos conversar melhor sobre isso amanhã. Boa noite, minha filha. Não acreditei que ela conseguisse conciliar o sono! Em poucos segundos, escutei seu ressonar. Ela adormeceu em paz. Creio que naquela noite, ela resolveu que ia se agarrar no seu bom humor e na sua forma leve de encarar as situações que a vida lhe apresentava. Quis ainda compartilhar com aquele homem uma lembrança que me ocorreu. Perguntei se ele queria escutar. Por favor, conte... Então, disse a ele, que uma vez, numa fila de cinema, mamãe se fez passar por uma pessoa que adivinhava o futuro, pois seu turbante, o mesmo que ela cita no bilhete, lhe fazia incorporar essa personagem. Uma moça acreditou e queria marcar hora... Eu e o homem da ótica trocamos sorrisos. Como você voltou a falar no bilhete, me disse o homem, fiquei com uma curiosidade sobre uma palavra que sua mãe usou. O que é “naches” (lê-se narres)? É uma palavra em idish. Tenta traduzir uma mistura de orgulho com felicidade, um sentimento quase que indescritível. Aquela coisa que acontece com muita frequência no peito de um pai ou de uma mãe, quando um filho ou filha se forma, se casa, ganha um neném, recebe alguma promoção na vida ou até, simplesmente, demonstra estar de bem com a vida. Ele disse que entendeu. Achava até que já havia sentido “naches” dos seus filhos. Sorri. Ele passou a me mostrar armações. Meia hora depois, saí da loja com óculos novos e com a sensação de ter feito uma longa viagem.    
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