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Cá estou eu na sala de espera. Trouxe meus joelhos para uma ressonância magnética. Não os acho bonitos. Nunca foram meu ponto forte. Já corri, joguei tênis e até esquiei. Um leve excesso de peso sobrecarregou constantemente os coitados. Faz um bom tempo que me exercito na água. O impacto é menor e os joelhos agradecem. Quando tenho oportunidade, adoro andar pela praia me molhando e sentindo o mar entre os dedos dos meus pés. Gosto de caminhar. Com boas companhias sempre fui longe e feliz. Recentemente, através de sinais dolorosos, os joelhos começaram a me avisar para pegar mais leve, mais devagar. Levei-os num ortopedista que me pediu para trazê-los aqui. Terei, daqui a pouco, 30 minutos numa máquina que vai inspecionar meus meniscos, patelas e cada pedacinho desta alavanca fundamental para minha locomoção. Já respondi num questionário que não vou dar problemas, não tenho fobia, nem asma. Estou sozinha e acho que posso ficar bem assim. Estarei com medo? Não vem com firmeza, mas a resposta é não. Os joelhos me perguntam se vou operar se houver indicação. Eu lhes digo que é cedo para falar disso. Eles insistem procurando me olhar nos olhos. Acho graça. São petulantes esses joelhos, mas me fazem rir. Como não vou escapar de dar uma resposta, declaro com solenidade que vou tomar remédios, fazer fisioterapia e até cirurgia. Vocês serão cuidados com atenção e carinho! Quero-os bem comigo até o fim da minha vida. Percebo que estou saboreando esse diálogo tão incomum. Resolvo contar para eles que tenho muitos planos de voar e sugiro com ironia que talvez, por isso, passem a ter cada vez menos trabalho. Eles se mostram surpresos. Parece que não se deram conta que já vôo há muito tempo. Não me incomodo de lhes explicar que voar é um prazer da minha alma. Na verdade, ninguém precisa dos joelhos para isso. Vôo para perto de quem me ama, quando estou longe de fontes de amor. Vôo para lugares lindos, quando os cenários são sombrios. É a esse voar que me refiro. Constato a cara de espanto de cada um deles. Sei que não temos muita sintonia e acho que eles nunca lograrão me entender. Se fosse meu coração... Ah! Seria outra estória. Como que me sacudindo para acordar, ouço uma mocinha repetindo meu nome alto e de uma forma meio impaciente. Levanto e respondo: já vamos. A mocinha me olha, constata que não há ninguém comigo e faz cara de pensar que não regulo bem. Meus joelhos acham graça. Gostam da piadinha. Chego rindo na sala de exame. Vai dar tudo certo.
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