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De longe dava para ver que alguma coisa estava acontecendo. Em torno da professora, uma agitação incomum me atiçou a curiosidade. Alguma coisa sumiu. Umas alunas olhavam agachadas embaixo do banco. Outras davam idéias de onde a coisa sumida poderia estar. Você olhou pelo chão da rua? Terá deixado em casa? Fez compras e se distraiu? Elas falavam ao mesmo tempo e a única resposta que se ouvia era um não repetido e desanimado. Entendi que se tratava da bolsa. Era grave. A aula estava atrasada, mas ninguém parecia se importar. A professora tinha uma aparência insana, bastante conhecida por qualquer um que já esteve nesta situação. Alguém saiu com a pergunta libertadora: Tinha coisa importante dentro dela? Como se para tentar exorcizar o demônio que a sufocava, a professora escancarou sua intimidade revelando tudo que havia no interior da bolsa: carteira com algum dinheiro, pinça, fotos 3x4 da filha, afilhado e marido, óculos escuros que ganhou no último aniversário, talão de cheque, batom, filtro solar, endereço da festinha da filha da vizinha, chaves de casa, celular, o livro que pegou emprestado e agora iria ter que comprar um para devolver, um bilhete amoroso do marido achado na cozinha naquela manhã, uma banana para comer no intervalo, o nome do remédio que tinha que comprar para a mãe, canhoto para pegar o aspirador de pó e num compartimento fechado com zíper, a carteira de motorista, o RG, o CPF, a carteirinha do convênio médico, os dois cartões de crédito e um papel dobradinho e meio roto com todas as suas senhas. As mulheres estavam em silêncio. Elas não estranharam nada naquela lista. Entendiam a lógica e a necessidade de ter tudo o que estava lá. Estavam irmanadas e totalmente sensibilizadas. A professora parecia exaurida, mas aliviada. Foi terapêutico. Melhor que qualquer remédio ou sábias palavras. Muito melhor. A aula começou. Ninguém tinha assunto, nem vontade de conversar. Notavam os pensamentos ainda martelando a cabeça da professora. Ela bem que tentou disfarçar, mas não segurou a onda e num estalo saiu correndo. Voltou com a bolsa erguida como um troféu. Estava no carro escondida, debaixo do banco. Foi uma alegria geral. Agora a professora chorava. Todas queriam lhe abraçar. Tem coisa mais linda que ser mulher?
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