Você está aqui:Home»Blog»INESQUECÍVEL
Era uma tarde quente de sábado, disso lembro muito bem. O ar condicionado estava ligado. A bandeja do almoço já tinha sido retirada, mas o cheiro do bife ainda estava passeando pelo quarto. A claridade entrava pelas janelas enormes do quarto de hospital que papai ocupava há uns três ou quatro dias. A vista do sexto andar parecia um quadro vivo: casas, árvores, céu azul, nuvens e até carros e pessoas em movimento. Eu olhava pela janela e me distraía, enquanto escutava o ronco forte do papai que cochilava. Papai estava cansado. Havia feito naquela manhã um exame invasivo no pulmão para saber se estava com metástase. Papai escutou um leve barulho de batidas na porta e despertou. Meus amigos entraram. Mauro e Eva. Vieram visitar papai. Mauro se aproximou do papai e ficou parado ao lado de sua cabeceira. Eva parou perto dos pés de papai. Vamos sentando gente, disse meu pai. E então, quais são as novas? Nenhuma novidade. Tudo igual. Foram essas as frases do meu amigo. Então manda uma piada... Ah! Sou péssimo para contar piadas e Evinha também. E as notícias de hoje? Eva se adiantou e respondeu que não haviam lido jornal, nem escutaram noticiário. Bem gente, então como vocês querem fazer uma visita a alguém que está num hospital? Quem está aqui preso gosta de escutar novidades, rir de alguma anedota ou acompanhar uma história ou caso como se estivesse vendo um filme. Aliás, vocês viram algum filme bom ultimamente? Muito sem graça, Mauro balançou negativamente a cabeça. Eva só fez concordar com o marido. Puxa! Assim está mesmo difícil, disse meu pai e continuou: Vou dar um jeito nisso. Eu fui assistir a um filme que gostei demais. Chama-se “Melhor Impossível” com o Jack Nicholson. Eu estava de espectadora no quarto, mas nesse momento me juntei a papai para reforçar como o filme era bom. Provavelmente, disse papai, tem algum shopping com cinema aqui por perto. Tem sim, disse a Eva. Provavelmente, continuou ele, esse filme deve estar passando. Os dois se olharam e concordaram com a hipótese do meu pai. Minha filha, que horas são? Quase três. Vai dar certo! Podem ir! Mauro e Eva não estavam entendendo. Vocês podem ir agora e voltem aqui amanhã para conversarmos sobre o filme. Assim vocês terão assunto. Um silêncio incômodo foi cortado pelo riso sem graça da Eva. Eu estou falando sério, disse meu pai com uma voz calma e baixa. Muito sério. De verdade. Vocês vão notar a diferença amanhã quando voltarem e estivermos animadamente conversando. Então... É mesmo pra gente ir? Eva ainda questionou. Papai soltou uma exclamação para não deixar nenhuma dúvida: Claro! Vamos Evinha, o pai da Rosali tem razão. Amanhã voltaremos. Após a saída de meus amigos, papai não voltou a cochilar, havia perdido o sono, mas estava bem. Respirava tranquilo. Notei seus pés. Eu sempre olhava para ver se estavam inchados. Não estavam. Tive a impressão de ver sua unha do dedão um pouco arroxeada. Deveria mostrar para alguma enfermeira? Achei que era impressão. Fui desviada desses pensamentos quando um médico, que eu nunca tinha visto, entrou no quarto sem bater. Usava o jaleco impecavelmente branco, bem engomado, era baixo, um pouco gordo, usava óculos de lentes grossas e devia ter uns setenta anos, como papai. Não lembro se ele se apresentou, nunca soube o nome desse médico. Sem fazer nenhuma introdução, foi direto ao assunto: Senhor Chaim, vim lhe contar o resultado do seu exame. O senhor sente cansaço, pois tem fungos nos pulmões. É uma coisa chata, demora a tratar e curar, mas é melhor que câncer. Bem melhor! Depois que o senhor se recuperar desse exame vamos começar a atacar esses fungos. O médico perguntou de forma protocolar se havia alguma dúvida e em seguida se retirou do quarto do papai. Depois do espanto e de alguns minutos para entender o que havia sido dito, a notícia foi comemorada e espalhada pelos quatro ventos para acalmar todos os amigos e a família. Assim que a agitação cedeu, papai quis ficar só com meu marido e assistir futebol. Pode ir Rosali e leve sua mãe. Descansem. Vocês aqui só vão atrapalhar, pois não gostam de futebol. Já vi vocês aqui hoje o dia todo. Chega. Eu estava acostumada ao jeito do meu pai e achei que ele tinha razão. Vamos mãe. Não fizemos uma despedida demorada, muito menos dissemos falas especiais, afinal não tínhamos a menor ideia do que estava por acontecer. Por conta de uma embolia pulmonar papai faleceu pouco depois que saímos. Foi inesperado. Foi um horror. Foi um pesadelo. Foi uma dor sem fim. Foi um nó na garganta que custou a desatar. Foi um desespero. Foi uma perda terrível. Foi há vinte anos. No dia seguinte, domingo, o casal que estivera sem assunto voltou, conforme havia sido combinado.      
Lido 229 vezes
Avalie este item
(2 votos)

Comente e Compartilhe

Deixe um comentário

Certifique-se de preencher os campos indicados com (*).

Mais nesta categoria: « JOGOS MODERNOS

Newsletter

Receba as atualização do site por e-mail.

Os + Lidos

Facebook