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Hospedeira de Histórias

Sábado, 29 Setembro 2012 16:36 Escrito por 
Sou portadora de uma riqueza ou uma esquisitice enorme. Algumas pessoas mais próximas desconfiam, mas talvez, por pensarem que podem me causar constrangimentos, preferem não tocar no assunto. Hospedo histórias na minha cabeça. São inúmeras e extremamente variadas. Muitas foram contadas por meu pai. Há aquelas que aprendi através de desconhecidos, que calharam de esbarrar suas vidas na minha. Muitas outras saíram de livros que tive o prazer de ler. Ainda que me esforce, já perdi a lembrança das origens de muitas delas. Vivem dentro de mim, mas em determinadas e especiais circunstâncias, se desprendem de onde estão alojadas e fazem questão de marcar presença. Foi assim na semana passada, quando numa sala de espera, que não vem ao caso saber de quê, eu conversava com o homem sentado à minha frente. Ele queria mudar de vida. Tinha uma excelente oportunidade para deixar de ser empregado e ter seu próprio negócio. Minha escuta atenta deve ter lhe encorajado a prosseguir. Detalhou a perda que viria a sofrer, por abrir mão de seu polpudo salário e benefícios. Então, confessou para mim, que este dilema estava fazendo com que ele vivesse como um condenado. Tinha medo de adoecer. Senti uma inquietude. Conheço bem essa sensação em mim. Pedi permissão para lhe contar uma história. Obtive-a. Era uma vez um moleque de calças curtas, que chorava descontrolado, chamando a atenção dos transeuntes. O que está acontecendo? Perguntou-lhe uma senhora, dessas raras que ainda têm tempo para se interessar pelos problemas alheios. Entre soluços, o menino explicou-lhe que havia ganho uma moeda e, inadvertidamente, deixou-a cair no bueiro. Com doçura, a meiga criatura se apressou em saber o valor e, rapidamente, repôs a quantia na mão do menininho chorão. Por uma fração de segundos, o rosto do garoto se iluminou, mas logo o choro recomeçou. Dessa vez, a barulhada era ainda mais forte. Era tamanha a choradeira, que a senhora teve dificuldades em se fazer ouvir, quando lhe indagou sobre o que lhe fez ficar infeliz novamente. Fungando e espalhando as lágrimas pelo rostinho, o moleque foi dizendo que se a primeira moeda não tivesse caído, agora ele teria duas... A história termina assim e foi desse jeito que contei. Deixei um leve suspense no ar, como o de um gosto difícil de decifrar. Estava saboreando o silêncio deixado pelo retorno da história para dentro de mim, quando ouvi meu nome sendo chamado. Tinha que catar minha bolsa, guarda-chuva e colocar uma revista no lugar, além de me despedir do homem com quem havia conversado até então. Deixei a pressa esperando e achei um tempo para um abraço terno e carinhoso. E tem gente que detesta salas de espera...
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1 Comentário

  • Link do comentário Neila Rugai. Quinta, 13 Dezembro 2012 11:33 postado por Neila Rugai.

    Hoje dia 13 de Dezembro estou relendo esta cronica e gostei muito, eu também já tive a oportunidade de ouvir coisas muito interesante e salas de espera, e com certeza aprendi muita coisa nova,

    Relatar

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