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Qualquer um que passasse por aquela mesa no restaurante português teria a certeza que se tratava de um encontro de quatro velhos amigos. Os dois casais falavam e riam muito também. A intimidade entre eles se revelava nos olhares, na largueza dos gestos e até na maneira descontraída de se tocarem. As mulheres pediram cerveja. Os homens tinham que dirigir após a refeição e se limitaram a beber água. Não se encontravam há quase um ano. Pelas mudanças impostas pelas vidas já não se viam tanto. Quando se conheceram, se viam em todas as férias escolares. Isso foi no tempo em que uma família, a dos dois meninos, morava no Rio de Janeiro e a outra, a das duas meninas, morava em SP, mas tinha os avós em Copacabana. O mês de julho no Rio de Janeiro é um paraíso para os paulistas. Eram trinta dias de praia com as crianças, que faziam buracos e castelos, corriam e entravam na água gelada destemidos e felizes da vida. As mulheres conseguiam conversar, enquanto os maridos vigiavam os pequenos. As crianças se divertiam muito e reclamavam a plenos pulmões quando eram avisadas que fossem para água tirar a areia, pois logo iriam para casa. A farra das meninas na praia tinha um horário rígido para terminar. Era até meio dia, nunca um minuto a mais. Era como se algum encanto, parecido com o da carruagem da Bela Adormecida, fosse se desfizer. Provavelmente, o motivo da rigidez fosse que as netas de um general tinham que aprender a respeitar regras desde cedo. Pediram bolinhos de bacalhau e escolheram os pratos principais. Tinham então todo o tempo para saberem uns dos outros. Falaram da saúde. O tema não ocupou muito do tempo deles. Não chegou nem a ser como um aperitivo. Logo passaram a falar dos filhos e netos com a sabedoria de se conterem nos exageros próprios da gente da idade deles. Pareceu um rápido trocar de bolas numa mesa de pingue pongue. Os filhos e suas famílias estão bem. As filhas e suas famílias também. Todos os netos são lindos e inteligentes. Os bolinhos chegaram e foram degustados com sonoras exclamações de contentamento. Os amigos então trouxeram para a mesa um pouco da política, mas bem pouco, salpicaram de forma quase fugaz a roubalheira e a corrupção, a administração pública pouco eficaz, a falta de saneamento básico, a insegurança e o medo. Como sempre acontece em reuniões de grupo, após as manchetes, um dos assuntos pinça a atenção, ou melhor, cutuca a emoção de alguém. E, em geral, o grupo embarca nesse caminho. O medo foi a escolha daquele grupo para aquele encontro. Somos cidadãos reféns dos bandidos. Não dá para sair à noite sem preocupação. Um falava e os demais concordavam. O pai das meninas, visivelmente perturbado, começou uma fala que vinha de um lugar bem de dentro dele. Minha cota de horror eu já paguei faz tempo... Sua esposa confirmou enfaticamente. A mãe dos meninos parecia querer pegar alguma coisa no ar, sem conseguir. Foi mesmo... Faz quanto tempo? Foi quando nossa filha mais velha era bebê, então foi há mais de quarenta anos. A comida chegou. O aroma da delícia que estavam por degustar os calou. Tudo muito gostoso, no ponto de cozimento e nos temperos. A apresentação dos pratos era um convite a mais para o prazer que estavam desfrutando. Como quem sabe que vai incomodar, a mãe dos meninos iniciou uma fala hesitante. Eu não consigo lembrar... Do que você está falando? Não consigo lembrar o fato que aconteceu com você, que deve ter sido tão terrível e, certamente, você já nos contou. Estou pensando e fazendo força para lembrar, mas não tenho a menor ideia de como acessar essa experiência que você viveu. O marido dela fitou-a com preocupação. Ela lhe perguntou se ele lembrava. Claro... O protagonista tomou as rédeas e após esvaziar a boca de uma garfada bem cheia começou o relato. Morávamos em SP, perto do aeroporto, eu estava chegando do trabalho, portanto estava de terno e gravata. Parei o carro na frente de casa, mas nem estacionei. Lucia já estava na rua para ir comigo buscar rápido um remédio na farmácia. Fomos e voltamos muito rápido de fato. Quando chegamos, Lucia saiu do carro, enquanto fui procurar um lugar para estacionar. Não tínhamos garagem na nossa casa. Assim que saí do carro, fui abordado por dois homens. Um era negro e o outro branco. Estavam armados. Entendi imediatamente do que se tratava. Mandaram me entrar no carro. Expliquei que eles podiam levar o carro, que podiam levar tudo... mas eles não estavam para conversa. Rudemente me enfiaram no banco traseiro. O motorista deu a partida e o carro saiu desabalado. Os dois estavam transtornados, gritavam comigo e um com o outro, enquanto o motorista seguia veloz e sem parar em nenhum cruzamento.  Embora eu estivesse com medo, dirigi minha palavra à dupla para lhes dizer que dirigindo assim, logo teríamos um acidente e iríamos morrer os três. O homem que estava no assento do passageiro me fuzilou com o olhar e me mandou calar a boca. Eu não podia fazer outra coisa. Num dado momento eles pararam o carro e me mandaram sair. Foram me empurrando para a traseira do carro. Abriram o porta-malas e me disseram para entrar lá. Eu não queria acreditar que aquilo estava acontecendo. Queria pensar em alguma coisa inteligente que me ajudasse a sair daquele pesadelo. Fui atingido por uma pancada na cabeça. Entra logo! Quer morrer? Não sei como me dobrei e me acomodei naquele espaço. Quando bateram a porta e o escuro se tornou meu acompanhante senti que o pavor percorreu meu corpo e se instalou lá. Não dá para imaginar como é passar por uma situação dessas! Que horror! É, mas me deixem continuar. O carro saiu cantando pneus e logo alcançou uma velocidade tremenda, ou pelo menos assim parecia de onde eu estava. Imaginei que estávamos nos afastando cada vez mais dos lugares da cidade que eu conhecia. Depois de um tempo que não me foi possível definir, pois naquela situação cada minuto era como uma hora, eles pararam e fiquei abandonado sem saber onde estava, nem o que estava acontecendo. Quando voltaram, pelo barulho e algumas falas, entendi que haviam assaltado algum lugar. Talvez esse fosse o motivo de terem pego meu carro. Quando o carro voltou a se mexer passei a pensar na aflição da minha esposa, que não devia estar entendendo o que poderia estar acontecendo comigo, que não entrava em casa. Quase ao mesmo tempo, pensei em como eu estava feliz com ela e a nossa bebezinha. Será que tudo ia acabar assim? Que morte mais estúpida! Cheguei a pensar que para acabar assim, seria melhor não ter casado, nem ter tido uma filha. Eu sentia alguma coisa bem maior que um pavor, mas sabia que precisava me controlar. Eu mais chacoalhava que balançava dentro do porta-malas, afinal tenho quase dois metros. Naquele espaço ínfimo, meu corpo dobrado e comprimido começava a me incomodar. Ainda bem que não me amarraram. Minhas mãos estavam livres e através delas foquei meu raciocínio. Tateando consegui achar e pegar uma chave de roda. Mantive-a na minha mão. Isso me deu uma impressão de possibilidade de defesa. Isso me ajudou a voltar ao meu equilíbrio, ou algo mais perto disso. O carro não parava e seguia por ruas bem esburacadas, ou talvez, pensava eu,  fosse alguma estrada sem asfalto de algum bairro de periferia. Todos já estavam quase no fim dos seus pratos. Nunca escutei essa história... Já escutou sim, tenho certeza que contei para vocês. Nada, nem uma fagulha pequena que me faça recordar esse seu trágico incidente... Quer saber como terminou? Quero sim! Bem, eles acabaram parando o carro num lugar ermo e me soltaram. Entregaram-me as chaves do carro e um deles, pasme, até me disse para ter cuidado, pois a polícia estava atrás do carro e poderiam atirar em mim. Puxa! O bandido ficou bonzinho? Pode ser, mas não tive essa impressão na hora... Não sabia onde eu estava. Estava exausto, em choque. Peguei o carro, mas não fui longe. Estava fugindo dos bandidos e também da polícia. Larguei o carro e segui andando sem saber para onde ir. Os ladrões não levaram meu dinheiro, nem meus documentos. Eles só quiseram usar o carro para aquele assalto ou alguma coisa deu errada e eles abortaram os planos no meio da operação. Na hora nada fazia muito sentido. Segui andando por uma estrada de terra totalmente vazia. Não chovia, não lembro de sentir frio. Eu era alguma coisa como um zumbi caminhando sem saber para onde. Por sorte, ao descer uma ladeira, avistei uma casa com luz. Bati palmas, bati na porta, soquei a porta e gritei que precisava socorro. Custaram a abrir. Levaram uma eternidade para aparecer. Um homem, uma mulher, dois rapazes... toda a família veio ver o que estava acontecendo. Notei que tiveram medo de mim quando me viram. Tentei falar devagar, baixo e de forma mais coerente possível, mas sei que nos primeiros instantes não devo ter me saído assim tão bem. Devo ter repetido muitas vezes palavras e gestos na tentativa de provar que eu era uma pessoa de bem. Não sei como, mas afinal entenderam que eu havia sofrido um assalto e estava lá para pedir ajuda. Ligaram para polícia. Liguei para meu cunhado. Pedi para ele avisar minha mulher. Dali para frente tudo já parecia muito distante de mim, como se fosse um filme. Eu devia estar bem próximo da exaustão. Quando cheguei em casa era uma pessoa bem diferente daquela que estava chegando algumas horas antes. Mas, só posso agradecer, foi um final feliz. Nunca mais esse episódio saiu da minha mente. Ele está lá num cantinho e volta de vez em quando, como aconteceu hoje. Foi um dos piores momentos da minha vida. Você teve sorte. Muita sorte! Verdade... Vamos dividir o que sobrou? Vamos! Está muito gostoso! Eu não consigo me conformar... Como posso ter esquecido? Não encana! Sério... Não parece estranho esquecer uma história dessas? Não dê tanta importância... Vamos pedir sobremesa? Pastéis de Belém? Café? Café para os quatro, dois pastéis de Belém e a conta. Quem há de saber dos mistérios da nossa mente? Que sensação um esquecimento como esse me provoca! É como estar vasculhando armários à procura de um documento sem êxito. E, para piorar, escutando vozes me dizendo que o documento está lá. Quantas outras passagens da minha vida já podem ter ido para esse lugar inalcançável para mim? Quantas mais irão? Deixa isso pra lá menina! E tome seu café antes que esfrie...
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