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DA MENINA GISELA ATÉ O BELGA QUE SÓ FALAVA PIU

Terça, 30 Junho 2015 15:27 Escrito por 
Gisela nasceu na Alemanha em 1928. Tinha uma vida bem parecida com a de outras tantas crianças alemãs, até que o nazismo se instalou no poder. Gisela era judia. Seus sonhos e sua vida viraram de cabeça para baixo. Foi esse pesadelo que levou Gisela e outros 45 mil judeus alemães a emigrar para a Argentina. Não havia mais lugar para vestidos bordados e engomados, nem meias brancas  e sapatinhos de verniz. O cenário de sua vida passou a ser o campo. Suas roupas passaram a ser rústicas, tinham que ser apropriadas para alguém que cultivava a terra e cuidava de bichos. Não demorou a conhecer Ernesto. Com feridas e cicatrizes bem semelhantes às dela, ele lhe pareceu perfeito. Encontraram o essencial e o belo que havia em um e em outro. Souberam reconhecer que tinham tudo para serem amigos e companheiros para vida toda. Decidiram apostar no amor que sentiam e se casaram. Juntos se sentiram fortes e capazes de ousar planejar o futuro. Deu certo! Tiveram três filhos. Ernesto arrumou um sócio e junto com ele fez uma fábrica de frios, salsichas e embutidos em geral. Gisela ajudava na fábrica, cuidava da casa, da comida e dos filhos. Os dias, na casa de Ernesto e Gisela, começavam muito cedo, quase sempre no escuro. Contas a pagar, clientes para satisfazer, filhos para educar, marido para agradar e a vida passando ligeiro. Algumas noites, Gisela ficava acordada tentando dar um ritmo mais lento àquele tempo apressado. Ela queria saborear mais devagar alguns momentos que se misturaram no turbilhão de dias, meses e anos que voaram rápido demais. No escuro e no silêncio, Gisela revia uma mistura de luta, de sonhos se realizando e de crianças virando adultos prestes a voar para longe. Gisela estava certa. Duas filhas se casaram, emigraram e em outros países tiveram seus filhos. Gisela e Ernesto eram loucos por seus cinco netos e viajar passou a ser sinônimo de alegria e prazer do reencontro familiar. Talvez as viagens fossem o combustível necessário para que Gisela pudesse suportar o que estava para acontecer. Sorrateiras e sem pedir permissão, doenças e situações temidas invadiram a sua vida. Duas perdas enormes acometeram Gisela num espaço de tempo muito curto. Seu filho morreu e poucos meses depois ficou viúva. Nessa época, já beirando os oitenta anos e bastante fragilizada, Gisela achou sensato deixar-se cuidar. Passou a morar no Brasil, perto da família, mas, dona de seu nariz, num apartamento seu. Sabia da importância de manter sua independência. A mulher corajosa, forte e incansável havia se transformado numa idosa baixinha, com olhos atentos e pele muito branca que tinha um cheiro de sabonete gostoso. Tinha uma aparência meiga, algumas rugas e um sorriso nem sempre disponível nos primeiros tempos. Acreditava que o tempo ia lhe ajudar a voltar a se sentir em paz e sem a dolorosa sensação que habitava seu peito. Queria sair da depressão em que se encontrava e para tanto, aceitava qualquer boa ideia ou ajuda para amenizar sua dor. Foi aí que surgiu o Belga. Gisela ganhou um acompanhante para se sentir menos sozinha e fazê-la alegre. Gisela recebeu o Belga com os braços abertos. Bem, na verdade, não chegaram a se abraçar, pois o Belga estava numa gaiola... É... O Belga era um lindo canário que passou a atender pelo nome de Hansi. Foi amor à primeira vista! Depois de um ano que Hansi tinha chegado à vida de Gisela, ela programou uma viagem de um mês. Tinha que arrumar alguém para cuidar de seu pequeno amigo. Não foi difícil, pois Rosa, uma boa vizinha, logo que soube do problema, escreveu um bilhete e colocou-o embaixo da sua porta: “Querida Gisela, Posso cuidar do seu querido canário. Não será difícil e acho que vou gostar. Pode ficar despreocupada que vou contar para ele suas notícias todos os dias, assim ele não vai se esquecer de você. Lembro de ter visto seu passarinho comendo maçã. Vou providenciar para que ele tenha essa fruta todos os dias. Você acha bom? Tenho algumas perguntas para lhe fazer. Acho que suas respostas vão me ajudar. Ele vê TV? Bebe sucos? Coca Cola? Sai para passear? Dorme com luz acesa? Como ele gosta de ser chamado? Ele recebe beijinhos antes de dormir? Precisarei que me traga suas roupas, chinelinhos e escovas de cabelo e de dente. Aguardo suas recomendações. Beijos, Rosa” Assim que Gisela leu o bilhete de Rosa, escreveu uma resposta e, sem perder tempo, colocou-a embaixo da porta de Rosa: “Querida Rosa, Eu lhe agradeço por querer cuidar do meu amiguinho. Ele não precisa de muito. Você terá que limpar a gaiola dele todos os dias, dar-lhe comida e água fresca. Ele não bebe sucos, nem refrigerantes. Bebidas alcoólicas de jeito algum. Só água. Sim, ele gosta muito de maçã e vai adorar se você cortar pequenas fatias para ele, pois ele não sabe usar a faca. A cada dez dias ele ganha um pedacinho de ovo duro com a casca. Penso que deve ser bom para ele um pouco de cálcio para os ossos das perninhas e das asas, mas não exagere! Lembre-se que seu estômago é bem menor que o nosso.Ele se chama Hansi e parece que fica feliz quando escuta seu nome. Quando ele quer falar, ele faz piu. Você vai acabar entendendo que apesar de ser um idioma de uma única palavra, piu pode significar muitas coisas. Quando ele fica mudo pode ser que também esteja sentindo ou querendo dizer alguma coisa. Acredito que ele vai precisar alguns dias para se acostumar com você e para poder conversar abertamente e sem timidez. Tenha paciência e você, assim como eu, vai chegar a ter conversas bem interessantes com o pequeno Hansi. Hansi já irá para sua casa vestido com a sua roupa e quando ele tomar banho, ele a lavará ao mesmo tempo em que estiver lavando seu corpinho. Nunca consegui achar chinelos para ele, portanto o deixo sempre descalço. Ele parece gostar de ficar assim, você não precisa mudar esse hábito. Hansi não sai para passear, porém adora ficar na sacada do apartamento olhando o movimento da rua. Como você não tem sacada, leve a gaiola para perto da janela ou experimente ligar a TV e veja se ele gosta. Tome cuidado para que Hansi não fique exposto a uma corrente de ar e quando o levar para seu banho de sol diário, não o deixe muito tempo ao sol, para que ele não torre de calor. Neste momento, ele está numa fase que não canta e ainda por cima está perdendo penas... Deve estar pressentindo minha viagem, não sei... Se a coisa piorar, leve-o num veterinário que entenda de psiquiatria de canários. Deixe-o conversar a sós com o profissional para que ele abra seu coraçãozinho e se sinta melhor. Não deixo uma luz acesa para Hansi durante a noite. Fiz isso desde o primeiro dia que ele chegou e parece que assim está bem. Em geral, quando vou dormir à noite, ele já está dormindo e, por isso, não posso lhe dar um beijinho. Ainda assim, antes de ir me deitar sempre lhe digo boa noite. Ele parece que sente e noto que suspira como se gostasse de ouvir minha voz e meu desejo. Por favor, siga fazendo isso para que ele continue dormindo bem todas as noites. Se alguma noite ele não dormir, não se preocupe, ele pode estar pensando e lembrando  coisas importantes da vida dele. Não o perturbe nessa hora. Ele precisa do escuro e do silêncio. São alimentos para a alminha dele. Creio que isso é tudo. Hansi está contente de ir de férias para sua casa. Beijos, Gisela” Gisela viajou e Rosa tomou conta de Hansi com muito amor e carinho. Levou-o num veterinário e soube que é normal uma queda anual das penas. Ficou aliviada. Rosa percebeu que Hansi não dormiu algumas noites, mas deixou-o em paz. Deu tudo certo. Um mês passou até bem rápido. Hansi disse piu na hora em que Gisela veio buscá-lo para voltar para a casa dela. Rosa entendeu que Hansi estava reconhecendo Gisela. Entendeu também que era seu discurso de despedida. Era o fim de uma linda temporada com ele. Rosa se voltou para a amiga e só então percebeu como ela estava mais bonita, mais leve e até sorridente. Havia voltado bem melhor. Que alegria! Foi inútil Rosa disfarçar sua emoção. Tem gente que tem lágrimas que teimam em cair, ainda que a pessoa tente de tudo para impedi-las. Era o caso da Rosa. Gisela abraçou forte e demoradamente a amiga. Elas não precisaram dizer nada. Hansi sentiu vontade de voltar à cena e disse outro piu...
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