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Conversar é uma delícia!

Terça, 06 Novembro 2012 07:47 Escrito por 
A cirurgia correu bem. A noite foi sem nenhum problema. Seu papel de acompanhante lhe exigia estar arrumada para a eventualidade de um médico entrar no quarto a qualquer momento. Tomou banho bem cedo. Desmontou a cama e se livrou dos lençóis e travesseiro. Ainda não eram sete da manhã. Tomar um café era a melhor pedida para aquele momento. Deu um beijinho no marido e disse que voltaria logo. Não tem pressa, foi a resposta automática e displicente de quem já estava plugado no lap top. Ela preferiu pedir sua média com um pão na chapa sentada no balcão. A mocinha lhe explicou que o pão Frances ainda não havia chegado. Um pouco a contra gosto, optou pelo pão integral. Ficou em companhia de suas ideias até que um homem grisalho chegou e ocupou um lugar perto dela. Não sentou ao lado, deixou um lugar vago. Pareceu a ela um gesto premeditado. Fingiu nem notar. Ele também escolheu uma média com pão Frances na chapa. Ao ouvir a mesma explicação que ela, o homem teve uma saída que lhe chamou sua atenção: Pode trazer um pão de ontem, na chapa fica tudo igual mesmo. Ela não resistiu e lhe confessou que havia sido boba ao optar pelo outro pão. Ora, integral também é uma boa pedida... E foi assim que o papo começou. Ele era falante. Ela escutante. Ela procurou nele um celular, um lap top ou algo do gênero. Não achou. Seria um extraterrestre? A família dele chegou ao Brasil antes do século XX. O bisavô dele já era comerciante e rico. Ele sabia contar casos com caras, bocas, com os olhos azuis e gestos largos. E ela estava escutando tudo muito admirada, pois pensou que essa era uma espécie extinta depois da morte de seu pai. No meio das peripécias que ele relatava tão bem, contou que a esposa estava internada fazendo uma quimio. Não era a primeira vez. Quase ela se atreveu a lhe interromper e contar o que estava fazendo no hospital. Desistiu. Conhecia o tipo. Ficou como escutante até que seu celular tocou. Era um dos filhos querendo saber como o pai havia passado a noite. Ela se sentiu pega num flagrante. Divertiu-se com a sensação. O homem lhe perguntou se aceitava outra média e dessa vez um pão frances. Ela agradeceu, mas recusou. Ele, num ímpeto de audácia, lhe sugeriu que poderiam rachar o pão. Ela enrubesceu e quase aceitou, mas o celular voltou a tocar. Como ela demorou a perceber o que estava acontecendo, ele avisou: É o seu... Não vai atender? Puxa! Ela parecia estar longe, mas alcançou atender a chamada. O marido queria lhe avisar que estava de alta. O médico já havia passado. Vamos embora? Claro... Ela experimentou uma sensação estranha. Ela queria ouvir mais histórias, enquanto sua razão lhe dizia que seu marido lhe chamava. Tenho que ir. Meu marido está de alta. Puseram-se de pé como se tivessem levado um choque inesperado. Minha mulher também vai ficar uma fera se ela receber alta e eu não estiver lá. Acharam graça de estarem em situações tão parecidas. Cada um pagou sua conta. A despedida começou na espera do elevador para subirem para os quartos. Disseram-se os nomes e apertaram-se as mãos. Quando o elevador parou no andar dela, sorriram um para o outro. Apressada, ela entrou no quarto e escreveu o nome do estranho grisalho num papel. Ainda com a caneta na mão, provavelmente cedendo a um gesto orquestrado pelo seu bom senso, amassou o papel e jogou-o no cesto de lixo. O marido percebeu a movimentação estranha, levantou a cabeça do seu computador e quis saber o que ela estava fazendo. Ela não sentiu vontade de contar toda a história daquele encontro. Limitou-se a dizer que depois falaria sobre isso. Em outra hora. Então, ela se aprumou e tomou todas as providencias para irem embora. Enquanto isso, ele, calado, se ocupava de responder e-mails e outras solicitações do mundo virtual. Quando ela avisou que estava tudo pronto, recebeu a indagação solene: Olhou bem se não deixou nada? Pode ser que deixei... Mas se deixei é por que não quis levar. Com carinho, ela lhe ajudou a se levantar e lhe convidou: Vamos querido? Temos uma linda estrada pela frente...
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6 Comentários

  • Link do comentário Denise Bermam Quinta, 08 Novembro 2012 08:54 postado por Denise Bermam

    A psicanálise nos ensina a identidade entre encontro e felicidade. " bonheur" , uma boa hora em frances, " happiness" que nos acontece em ingles, sem que esperassemos.
    Vc contou desta possibilidade na vida com graça e leveza.
    Para as irrupçoes do encontro é preciso ouvidos escutantes e isto vc tem de sobra. E sobra para seus escritos

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  • Link do comentário Rosali Quarta, 07 Novembro 2012 17:11 postado por Rosali

    Agradeço a todos os elogios. Tenho vontade de dizer ao Fabio que senti uma aproximação de sincero apoio e gostei. Abraços

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  • Link do comentário josiane giacomini Terça, 06 Novembro 2012 21:01 postado por josiane giacomini

    delicioso, como sempre... e ótimo para refletir. beijo

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  • Link do comentário Rosa Terça, 06 Novembro 2012 20:31 postado por Rosa

    Bem voce minha querida. conversar realmente e uma delicia... Escutar mais ainda. Que bom q Roni esta melhor. Bjs

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  • Link do comentário mateus Terça, 06 Novembro 2012 08:51 postado por mateus

    adorei!

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  • Link do comentário Fabio Betti Terça, 06 Novembro 2012 08:10 postado por Fabio Betti

    Gostei muito do estilo. Frases curtas, bem encadeadas, economia de adjetivos... Se permite a ousadia, diria que está indo muito bem! Abraços

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