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COISAS DIFÍCEIS DE EXPLICAR

Sexta, 24 Outubro 2014 08:52 Escrito por 
Levantei da cama cedo. Havia tempo para uma caminhada. O sol já anunciava um dia quente. Entrei cantarolando no elevador. Percebi que meus olhos estavam com disposição de fotografar tudo o que aparecesse no meu caminho. Notei flores desabrochadas. Notei plantas, árvores, passarinhos. As cores, formas e texturas eram incríveis! Uma verdadeira explosão de beleza. Apareceram, então, cães levando seus donos para o passeio do dia. Os estímulos eram tantos e em tantas direções que eu fiquei absolutamente distraída. Não notei um pequeno buraco e quase cai. Um alarme soou em mim, afinal, já me esborrachei uma vez. Nesse instante, a drogaria foi aberta para o público. Era um sinal inequívoco de que o dia de trabalho se fazia começar. Dei de ombros. Minha pressa não estava comigo. Meus compromissos me davam o direito de estar ali aproveitando tudo. E era exatamente ali que eu queria estar. Então, um homem me capturou. Não sei se foi só ele, ou o andador no qual ele se apoiava. Ficamos bem próximos, quando cruzamos nossas direções. Trocamos sorrisos. Ele não era velho. Talvez, no máximo, uns dez anos a mais que eu. Estava de bermudas, camiseta, barbeado e, quase posso jurar, senti nele o cheiro de alfazema. Dava para notar que fazia força para respirar. Fazia força também para se locomover. Quis parar e trocar algumas palavras com ele. Não fiz isso. Percebi que estava tomada por uma emoção grande. Não me foi difícil entender que aquele homem me remeteu para quase vinte anos atrás, quando meu pai fez uma cirurgia de retirada de 1/3 do pulmão direito por causa de um câncer. Papai se propôs a voltar a caminhar logo que teve alta do hospital. Em poucos meses, papai desfilava seu otimismo e sua garra pela Avenida Atlântica, no RJ. O homem já estava longe, quando tive a impressão de ter saído de um transe. Senti um prazer muito grande de conseguir me aproximar de papai. Pode ser que a história desse estranho seja totalmente distinta. Pode ser... Ainda caminhei um pouco mais e consegui aproveitar outros olhares. Quando comecei a sentir que minha mente já estava me dirigindo para as tarefas do dia, dei por encerrada a caminhada. Estava novamente cantarolando, quando entrei no elevador do prédio onde moro. Um vizinho entrou comigo. Não se conteve e expressou sua admiração pelo meu bom humor matinal. Quis saber por onde andei e, malicioso, me questionou sobre quem havia encontrado na minha caminhada. Parei de cantar. Sorri. Um sorriso meia boca, mas sorri. Respondi com educação que o dia estava realmente muito lindo e não senti vontade de dizer mais nada. 
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