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Bizarro, no mínimo bizarro

Sábado, 05 Fevereiro 2011 16:32 Escrito por 
Ele queria comprar uma casa. Tinha que ser indevassável e protegida de sons indesejáveis. Se não fosse, ele nem se dava ao trabalho de ir ver. Podia ser uma pechincha, uma galinha morta. Podia ser uma obra prima. Não interessava para ele. Queria poder ficar à vontade. Não queria se preocupar com os olhares, gritos, músicas ou barulhos de qualquer natureza de vizinhos ou passantes. Sua privacidade era um dos maiores bens que possuía e nem de longe queria abrir mão dela. Perguntava sem embaraço sobre os hábitos dos prováveis vizinhos. Queria saber se usavam som alto e se rolavam noitadas animadas nos finais de semana. Na maioria das vezes, suas indagações causavam espanto. Afinal, vivemos numa terra onde é normal escutar festas, brigas ou músicas alheias em volumes máximos de altura. Como não há bom senso, educação, respeito ou mesmo polícia para colocar limites em nada, nem em bailes funques e panques ou bailes de debutantes e de formaturas, fica óbvio que querer privacidade seja uma aberração. Imaginem, quase ia me esquecendo... Além dessas exigências, o tal homem ainda por cima tinha outra. Fazia questão que o imóvel estivesse livre e desembaraçado. Explicava que não queria comprar dor de cabeça. Assim ficava complicado. Chegaram a lhe indagar se ele pensava que estivesse talvez na Europa ou mesmo na Austrália. Explicaram para ele, que aqui não é bem assim e lhe afirmaram convictos que o Brasil sempre foi e ainda é o país dos jeitinhos. Essa exigência detalhista e obsessiva de querer toda a documentação em ordem era coisa de gente sem visão, gente que impede que bons negócios aconteçam! Chegaram a tentar lhe convencer que fechar os olhos para uma coisinha ou outra não lhe faria mal. Chegaram a lhe afirmar que muita gente não paga todos os impostos devidos e não acontece nada, o tempo passa e as dívidas caducam. Chegaram a lhe dizer que terrenos construídos em lugares não autorizados, logo ficariam regulares. Explicaram que tudo tem a ver com a chamada vontade política. Ele ficou de queixo caído, embasbacado, mas não houve nada que o convencesse. Não quis confrontar opiniões. Entendeu que não iria conseguir nunca mudar o modo de ser e enxergar as coisas dessas pessoas. Nem tentou. Deixou claro que não poderia embarcar numa situação dessas, pois ficaria sem dormir. E isso ele não queria. Simples assim. Não arredou pé de suas convicções. Custou um bocado, mas um dia conseguiu. Comprou uma casa que atendia a todas as suas necessidades e exigências. Tem quem escute esse caso sorrindo de um jeito debochado e fazendo pouco do tal homem. Tem quem revele, meio sem graça, montes de trapalhadas e chateações que arrumou a partir de comprar um imóvel com problemas que não se solucionaram. Tem quem vibre e demonstre uma enorme identificação com o tal homem. Tem também pessoas que fazem silêncio. Parecem ter coisas para pensar.
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