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Quando ela chegou, ele, como de costume, já estava no seu mundo paralelo. Era assim que ela chamava a vida que ele levava na frente do computador. Ela foi tomar um banho e ficou à vontade. Foi à cozinha, pegou alguma coisa para comer e assim que ficou satisfeita, chamou-o para conversar. Ele quis saber do que se tratava. Precisamos conversar... Não pode deixar para depois? Ela insistiu. Ele acabou perdendo a concentração e o game que estava jogando. Do que se trata? Pode falar... Qual a ordem do dia? Alguma nova queixa ou vai repetir as velhas ladainhas?  Precisamos falar de nós, das nossas vidas... Ele sinalizou seu desinteresse abrindo a boca disparando bocejos repetidos. Posso voltar pro meu computador? Antes que ele continuasse com seu repertório conhecido e sem graça ela declarou: Nosso casamento acabou! Ele arregalou os olhos como um bicho que foi pego numa armadilha. Ela ganhou coragem e seguiu dizendo que estava cansada de viver só e que queria voltar a ter sonhos e planos junto com alguém. Queria voltar a ser desejada e desejar. Tudo foi sendo falado sem alterar o tom de voz, apenas com o olhar bem firme nos olhos dele. Ele iniciou um gaguejar destrambelhado para questionar o que mais ela queria dele, se lhe faltava alguma coisa, se ele bebia ou batia nela, se queria um carro novo... O que era? Sem esperar resposta, ele deu um murro na mesa e num berro colocou para fora o seu pior pesadelo: você deve ter se enrabichado por outro! Sem se alterar, ela disse que já havia dito o que queria e acrescentou que ainda não tinha nenhum outro na história. Ele estava impressionado e irritado com a calma dela. Perguntou se ela estava sob o efeito de algum medicamento novo. Ou seria a nova terapia? Ah! Devia ser isso! Estavam colocando minhocas na cabeça de sua mulher. Ela que sempre esteve tão bem e sem reclamar de nada durante tantos anos, agora queria se separar... Não fazia o menor sentido para ele. Era pura armação! Fale mulher! Ela não respondeu nada. Fez-se um silêncio pesado e incômodo. Ele voltou a bocejar. Disse, então, que estava com sono, que queria ir para cama. Ela lhe desejou boa noite, esperou pelos seus roncos mais fortes e cadenciados, trocou de roupa, pegou sua mala que já estava pronta, deu uma última boa olhada pela casa, soprou um beijo na direção dele e, como se estivesse inebriada por ter acabado de receber seu alvará de soltura, abriu a porta e saiu de casa.  
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