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Nem quando apertou os olhos para ajudar a melhorar o foco da visão, conseguiu ter certeza. Estaria vendo um fantasma? Pensava que ela havia morrido... Será que escutou a notícia errada? De fato, fazia uma longa data que não se viam. Talvez nem fosse aquela pessoa que pensava estar vendo. Ah! Como ela queria que fosse! Com seus noventa anos, chegou a pensar que poderia facilmente estar caducando. Ao mesmo tempo, seria bom se fosse a amiga do tempo das crianças pequenas. Naquela época, tinham conversas sem fim no banco da pracinha, enquanto olhavam os filhos brincando nos balanços e correndo um atrás do outro. As crianças também se divertiam muito pegando peixinhos no lago com potinhos de sorvete e bolinhas bem miúdas de pão. Uma vez, um dos meninos caiu naquele lago, mas nada grave aconteceu, além de se molhar e ter que ir embora correndo para casa. A amiga e ela trocavam muitas receitas. Trocavam também confidências... Quando algum motivo apertava seu coração, a amiga tinha o dom de escutar sem pressa de dizer coisa alguma, como quem escuta uma música clássica pela primeira vez e ainda precisa acolhê-la em alguma parte da alma para alcançar compreensão. Ah! Se fosse aquela amiga... Agora já havia deixado seu coração começar a se entusiasmar com a possibilidade de estar prestes a viver um reencontro e ele reagiu como um louco em disparada. Que coração mais doido! E assim, em meio a uma taquicardia e pensamentos de dúvida e esperança, levantou-se e foi se aproximando daquela mulher que havia acabado de entrar no refeitório do asilo, que para agradar os ouvidos da grande maioria era chamado de lar. Como alguém que se sente perdida, a velha ainda não identificada ficou parada atrapalhando a passagem. Parecia buscar com o olhar alguma referência para entender o funcionamento daquele salão. Um homem em cadeira de rodas tentou passar por ela. Como não conseguiu, usou um tom excessivamente alto de voz para pedir que livrasse seu caminho. A idosa, além de perdida, se encolheu. Só não ficou muito tempo encolhida, pois recebeu um toque no ombro como se estivessem testando se ela era alguém de verdade. A mulher desencolheu e ergueu a cabeça. Os dois pares de olhos azuis não demoraram a se encontrar e imediatamente se reconhecer. Uma emoção indescritível tomou conta daquelas duas mulheres. Murmuravam coisas incompreensíveis. Quem sabe estavam falando em idish? Quem sabe falavam um idioma secreto que só se alcança usar em momentos de extrema emoção? Subitamente uma palavra ganhou um som bem audível. Ambas as mulheres gritaram a mesma pequena palavra: Léa! Léa... Repetiram e repetiram seus próprios nomes várias vezes. Como recitando um mantra em diversos modos, elas pareciam que estavam em transe. Grudaram-se num abraço. O tempo parou para elas e assim puderam ficar abraçadas sentindo cada pedaço dos seus corpos que estavam comprimidos e acariciados. Então, entraram na fase dos beijos. Tentavam apenas com os lábios dizer mil coisas que não se disseram, pelo menos, nas últimas seis décadas. Não foi surpresa quando começaram a chorar. Choraram como crianças, diriam aqueles que nunca presenciaram gente de idade chorando assim. Choraram de uma forma intensa e singela, como só um violino nas mãos de um mestre pode ousar chegar perto de reproduzir. A emoção das duas se espalhou pelas pessoas que estavam no refeitório, mas ninguém ousou se aproximar, provavelmente temendo quebrar o encanto daquela situação. Existem momentos que dão a impressão de durar séculos. Esse foi um deles. Quando o século acabou, a Léa, que já era residente no Lar, fez o convite: Venha sentar perto de mim para almoçarmos juntas. Claro! E as primeiras perguntas, como pingos que antecedem a chuva, começaram a pipocar de uma para outra. Você está aqui há muito tempo? Não. Cheguei aqui nesse ano. Minhas filhas acharam melhor eu vir para cá. Você sabe como é... Cada um tem a sua vida... Elas nem moram no Brasil. E você? Bem, na verdade, eu andava meio desanimada e muito sozinha. Gostava muito de ficar na cama, sem fazer nada ou, no máximo, via alguma coisa na televisão. O tempo passava. Escurecia e clareava. Nos intervalos alguém me chamava e me alimentava. Não sinto dor, nem passo nenhuma necessidade. Meus filhos acharam que numa instituição eu teria gente em volta o tempo todo e assim iria me distrair e viver melhor. Entendo... Você quer sopa? Sempre tem uma sopinha de entrada e são bem gostosas. Quero. Vamos buscar? A Léa que estava chegando se ergueu e notou que sua xará andava com dificuldade. De braços dados foram buscar a sopa. Como crianças, elas deixaram rastros pelo salão. Não se incomode, pois eles vão limpar. Estão acostumados com esse e outros tipos de gracinha que aprontamos. Sentaram de volta e concordaram que a sopa estava realmente deliciosa. Uma ajudante trouxe salada e levou os pratos usados. O almoço correu sem pressa. Com uma animação súbita e nada usual, a Léa que estava chegando considerou que seria muito bom poder lembrar as coisas que viveram juntas.  Claro que sim! Somos como aquelas pessoas que se conheceram nos navios que trouxeram os emigrantes fugitivos da Europa antes do Holocausto, os irmãos de navio. Fomos unidas pelas nossas experiências de juventude e agora ficaremos unidas nessa etapa também. Vamos ter que encontrar um nome para nossa situação... Irmãs de pracinha e asilo... Irmãs de início e fim de vida... Como uma nuvem que se coloca na frente do sol, parece que o enveredar da conversa escureceu um pouco o brilho do olhar das duas senhoras. Foi então que se deram conta da presença de um jovem. Ele não estava nem tão perto, mas como ele se movia e tinha uma máquina fotográfica nas mãos foi o suficiente para que o notassem. De onde ele saiu? Era como um paraquedista que havia acabado de pousar de um salto. A Léa novata questionou o rapaz. Ele não teve nenhum problema em se explicar. Estava no asilo fazendo um trabalho para seu curso de fotografia. Pediu autorização à direção do Lar e quando teve que justificar seu motivo, disse que idosos são bons modelos para fotos, principalmente por conta das rugas. Acrescentou que rugas são traços cheios de histórias e mistérios. O garoto já sabia dessas coisas. Foi fácil para ele obter a permissão. A maioria dos residentes o ignorou. Parece que esse fato impulsionou seu trabalho. Em nenhum momento ele pediu para olharem para a sua câmera. Em nenhum momento ele tentou juntar mais essa ou aquela pessoa para conseguir uma foto melhor. Ele foi registrando o que estava acontecendo sem interferir. Por sorte dele, ele estava no refeitório do asilo quando estava acontecendo um fato notável.  Com um olhar treinado para enxergar as sutilezas e emoções, ele percebeu tudo e tirou um monte de fotos das Léas. Capturou desde a incredulidade até o êxtase do reconhecimento e encontro das duas. A vida tem dessas coisas... Ele teve sorte. Foi uma sorte tão grande que deu uma guinada na vida dele e até das Léas. As fotos do rapaz viraram exposição e até ganharam prêmios. Quando ele recebeu um convite para expor em Nova York foi correndo contar para suas modelos. As Léas, que a cada dia estavam mais irmanadas, se animaram e resolveram que queriam ir junto com o jovem artista. Foi um fuzuê no asilo e também entre os familiares das idosas. Como? Tão longe? Quem iria se responsabilizar? Quem iria cuidar das duas? Como adolescentes teimosas, elas tinham respostas para tudo. O jovem fotógrafo achou que a presença das Léas seria o marketing que precisava para sua exposição internacional. Com tamanha excitação, dá para entender como ficou difícil dormir para uma daquelas senhoras chamadas Léas, aquela da taquicardia. Passou a sonhar acordada e elaborar planos e maneiras de alcançar o que tanto queriam.  E assim foram. A viagem de avião foi um sonho. Viram as nuvens e se divertiram com seus formatos. Com taças de vinho brindaram a proximidade que estavam do céu e desejaram, sem melancolia alguma, que quando morressem pudessem fazer uma passagem bonita assim. Ficaram num hotel confortável e tiveram um dia para descansar. O evento foi marcado para as cinco p.m. do outro dia. Os três estavam excitados e foram pontuais. Cada uma das Léas estava mais elegante e bonita que a outra. Foram maquiadas e penteadas. Souberam aproveitar o enigma daquele azul celeste no rosto de cada uma. Vestidos longos, como há muito não usavam lhes destacaram na pequena multidão presente ao evento de inauguração daquela mostra fotográfica. O artista e as duas idosas estavam se tornando celebridades, mas depois de um tempo de badalações, as duas Léas se cansaram. Deixaram os holofotes para o dono da festa, foram para um canto e se sentaram. Murmuraram coisas baixinho uma para outra. Talvez falassem em idish... Talvez naquele idioma secreto... Elas já queriam tirar os sapatos, as meias, os vestidos, os soutiens... Queriam ficar à vontade. Ninguém percebeu quando foram para o banheiro. Eram duas molecas com um indisfarçável sorriso maroto naqueles rostinhos angelicais. Gostaram de ficar descalças. Livraram-se dos vestidos, como se estivessem tirando fantasias depois do desfile de carnaval. Ficaram apenas de combinação. A Léa mais assanhada resolveu que podiam ficar assim e que as pessoas iriam achar que elas estavam com um vestidinho mais casual. Deixaram uma bagunça no banheiro e escapuliram pelo elevador. Ganharam a rua. Riam tanto e estavam tão ofegantes que em muitos momentos quase caíram. Foram andando abraçadas e com uma tremenda alegria que lhes dava combustível para seguir para qualquer lado. Por casualidade, chegaram ao famoso parque de NY. Conseguiram achar um banco livre e se instalaram.  O sol parecia estar com pena de ir embora, mas não houve jeito, logo ele se foi.  O escuro não trouxe medo, nem forma alguma de apreensão. O jovem fotógrafo dessa vez não teve a sorte de estar lá naquele momento. Ele teria percebido que os sorrisos das duas idosas estavam mais evidentes que todas as rugas. Teria feito um monte de outras fotos das Léas, que poderiam seguramente lhe render outras exposições espetaculares. Pena... Não houve tampouco registro da cena quando as Léas se abraçaram e adormeceram no banco do Central Park.
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