Você está aqui:Home»Blog»Almoço de Domingo
Estava só e pensativo. A certeza de que tudo vai ser igual lhe incomoda. O telefone vai tocar. Uma voz alegre lhe fará perguntas sobre como foi a semana e se tudo andou bem. Em poucos minutos virá o convite para o almoço de domingo e fim. Muita gente lhe fala sobre sua sorte de ainda ter família. Há amigos que sentem nostalgia desse programa dominical e, em geral, lhe explicam, com lágrimas nos olhos, que já perderam seus entes queridos. Do que será que essas pessoas sentem tanta falta? Será que era mesmo tão bom? Não se considera exageradamente crítico, mas não sente vontade de escutar as opiniões políticas dos seus irmãos e cunhados, os papos sobre as dietas ou as tendências da moda. Sente horror com a balbúrdia das crianças correndo em volta da mesa. As sobremesas que sua mãe faz, invariavelmente, lhe dão azia. Fica deprimido quando nota escapar flatulências de seu pai. Será que também vai chorar um dia com saudades desse programa? Como dizer que não vai ao almoço? Pior ainda, como dizer que não quer ir? Sua vontade de participar desses almoços virou algo como um caldo azedo que se formou da mistura de muita culpa com o receio de magoar. Queria até ser capaz de dar uma de doido e faltar sem dar nenhuma explicação. Mas, como é considerado bonzinho, sabe ser incapaz de fazer uma grosseria dessas. Sonha com a possibilidade de um domingo almoçar com amigos. Queria não ter a sagrada obrigação familiar. Parece que assinou um contrato, sem nunca ter feito isso. E o pior é que sente que a multa será medonha. Queria poder sentir falta e, aí sim, até aparecer de surpresa. Como para boicotar seus pensamentos, o telefone toca. Ele atende. Tudo. Tudo bem. Foi sim, foi boa a semana. Não. Nenhuma novidade. Ah! Vai ter o frango da nona... Tenta mostrar algum entusiasmo pela notícia sobre o que será servido. Como não consegue, entende que chegou no seu limite. Tem que conseguir falar! Uma gota de suor escapa de sua testa e pinga espatifada no chão. Ele se vê na gota e dá um grito: Não! Não quer o frango, filho? Não é isso! Por favor, me escute! Seu tom de voz não é o de sempre. Não estou nervoso. Não, não gritei. É que quero falar e não consigo que me ouça. Não tenho nada. Não estou diferente. Percebe a voz de choro. Isso lhe atinge em cheio! Não consegue suportar. Embora totalmente imóvel, tem a estranha sensação de erguer as mãos para o alto. O suor já sai em bicas. Suspira. Do outro lado da linha, ele ouve entre fungadas, o questionamento sobre o que ele queria tanto falar. Sente o peito apertado. A fala travada parece que lhe fere. E assim, desiste. Murmura que esquecera, não devia ser nada muito importante... Claro que vou. Acha um lenço no bolso da calça e com um único gesto elimina os vestígios do seu transtorno. Recompõe-se. Consegue perguntar se precisa levar alguma coisa, desliga e se joga no sofá. Por que é tão difícil? Semana que vem pode tentar novamente. Mas como?
Lido 904 vezes
Avalie este item
(1 Votar)

Comente e Compartilhe

Deixe um comentário

Certifique-se de preencher os campos indicados com (*).

Mais nesta categoria: « Dorme Luna Pausa »

Newsletter

Receba as atualização do site por e-mail.

Os + Lidos

Facebook