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ACONTECEU COM MINHA AMIGA

Sexta, 07 Outubro 2016 18:46 Escrito por 
Nem era tão tarde, mas eu já estava de pijama e pronta para me recolher. Gosto muito dessa hora. Deixo-me inundar de silencio e sento na beira da cama, perto da minha cabeceira, para realizar uma rotina que já faço quase sem pensar. Primeiro pego o copo de água para tomar meus remédios. São dois: um cuida da minha pressão arterial e o outro do meu colesterol. Depois, acerto o despertador para o horário que preciso acordar no dia seguinte. Já não me lembro da última vez que acordei com o som desse velho despertador. Faz tempo que descobri um prazer muito grande de competir com essa máquina e desliga-la todos os dias sem ouvir o som que deveria me tirar do meu sono. Por fim, pego o livro e os óculos, me enfio nas cobertas e ajeito o travesseiro para ter a posição mais adequada para leitura. Todas as noites, deixo meu celular, sem som, carregando numa tomada que fica no corredor, perto da entrada do meu quarto. Quando nessa noite passei por ele, notei que havia sinais de mensagens. Ler ou não ler... Sabia que se tentasse ignorar essas chamadas, eu poderia ficar remoendo fantasias na cama. Era preferível saber o que se tratava. Das quatro mensagens que eu tinha, uma me fisgou. Uma grande e querida amiga, (preciso confessar que mudei seu nome e algumas partes da trama), Adélia, usando o áudio me contou que havia sido furtada. O ocorrido tinha sido no domingo à noite, entre 19:00 e 22:00 horas, quatro dias atrás. Senti um monte de emoções. Não hesitei, liguei imediatamente para Adélia. Puxa! Como você está querida? Estou bem, mas foi uma loucura. É muito estranho lembrar a cena que vivi ao entrar em casa e me deparar com tudo de pernas para o ar. Minha amiga descreveu aos borbotões e com detalhes os armários e gavetas que foram revirados e esvaziados. Eu escutava e fui percebendo uma crescente indignação dentro de mim. Adélia seguia falando. Eu moro em Ipanema, num edifício, meu apartamento é pequeno, são dois quartos... Lembra? Sim, lembro. Parece que quem esteve aqui sabia bem o que queria levar. Estava procurando joias e os dólares. Tenho montes de bijuterias. Não levaram nenhuma. Eram competentes. Profissionais. Eu tenho uma tranca especial na porta de casa. Você tem? Tenho querida, tenho sim, mas confesso que não a uso. Pois é, eu também tinha e não a usava. Agora, por favor, passe a usá-la. Isso pode lhe salvar de um dissabor como esse que eu tive. Concordei e segui na escuta. Adélia contou que no domingo pela manhã tinha saído com a irmã para passear. Foram andar de VLT no centro do Rio de janeiro. Almoçaram junto com a mãe e depois acharam bom descansar um pouco, já que à noite teriam um jantar em família. Adélia foi para o seu apartamento. Teve tempo de colocar música, ficar bem à vontade, se espalhar no sofá e ler uma revista. Deu uma boa cochilada. Quando despertou, olhou pela janela e notou que a luz do dia já estava sumindo. Precisava tomar um banho rápido, se arrumar e sair. Como sempre, ao sair, bateu a porta e verificou se estava bem fechada. Adélia lembra que quando pegou o elevador, verificou a hora. Eram 18:55. O jantar foi na casa do primo Renato. Era o jantar de Rosh Hashaná, Ano Novo Judaico. Muita comida gostosa, bolo de mel, peixe, frango, massa, compota, frutas, nozes e muito mais. Muita gente alegre e muitas risadas. Foi uma noite muito gostosa. Adélia lembrou que no ano anterior seu marido ainda era vivo, mas não lhe acompanhou nesse jantar. Ele passou por alguns meses de doença antes do desfecho triste e esperado. Adélia emocionada me disse que exatamente naquele domingo fazia um ano que ela havia ficado viúva. Tentei esticar meu braço e alcança-la para um abraço. Tentei encontrar as palavras mais próprias. Só saiu de mim um murmúrio. Pigarreei para reencontrar minha voz. Eu sei. Foi só o que consegui dizer. Adélia, então, voltou a falar de como ela se despediu da família no jantar e foi para sua casa. Logo ao entrar, notou na sala alguns objetos em cima da mesa. Achou estranho. Adélia é organizada e não costuma sair de casa deixando nada fora do lugar. Olhou para dentro de seu quarto e custou a entender o que estava vendo. As suas roupas estavam emboladas pelo chão. As gavetas esvaziadas. Sapatos, bolsas, papéis, fotos, remédios, etc. Tudo espalhado pelo quarto. O fundo falso do armário, onde guardava as joias, que o marido havia lhe dado, e os dólares que sobraram da última viagem, estava escancarado. Nem sombra do que antes estava lá dentro! Que desgraçados! Quebraram ou sujaram alguma coisa? Não, não fizeram nada disso. Apenas pegaram o que se propuseram a pegar. Que violência! Como você está querida? Não vou me deixar abater por isso. Foram-se os anéis e ficaram os dedos! Adélia, você tem direito a estar bem chateada... Não adianta! De que me adianta ficar com raiva? Você deu queixa na polícia? Dei. Você sentiu que eles vão procurar descobrir quem foi o ladrão? De jeito nenhum! Eles me aconselharam a passar a sempre usar a tranca, mas foram taxativos em afirmar que esse furto foi feito por pessoa que me conhece, que conhece meu apartamento e onde guardo meus valores. Começaram a levantar suspeitas. Segundo eles, nesse tipo de ação, o meliante pode ser a faxineira, ou alguém que tivesse feito algum serviço para mim ou até um de meus amigos e parentes. Como cereja do bolo, o delegado, sabendo do meu estado civil, me perguntou se eu trazia muitos homens para casa...Nunca se sabe quem se conhece num bar ou numa balada, não é mesmo mocinha? Canalha! O que você respondeu para ele, querida? Nada. Olhei para ele com indiferença, perguntei se faltava fazer alguma coisa, me levantei e fui embora. Você é mesmo incrível! Conseguiu trabalhar no dia seguinte? Calma! O dia seguinte ainda estava longe. Quando voltei da Delegacia, percebi que havia batido a porta e deixado a chave dentro do apartamento. Era mais de meia noite e eu estava sem ter para onde ir. Não poderia ir para casa de minha mãe, pois era muito tarde e ela poderia se assustar. Depois de ter sido roubada, não tinha a mínima vontade de ir para um hotel. Sentei nas escadas e comecei a rir. Afinal, o que eu estava vivendo parecia tão absurdo que se fosse um filme, ninguém iria engolir essa história. Deitar no corredor foi minha primeira opção, mas em seguida, num lampejo de coragem, veio o pensamento de tocar a campainha do vizinho e pedir acolhida. Você o conhece? Um pouco. É um moço de uns quarenta e muitos anos ou cinquenta e poucos. Depois que meu marido morreu, ele ocupou o cargo de síndico. Isso me fez considera-lo alguém de confiança. Você teve mesmo coragem? Tive sim. Toquei e ele apareceu de pijama e cara de quem estava dormindo. Custou para ele entender o que estava acontecendo. O cara é meio lerdo... Mas ele, por fim, me disse para entrar e dormir no sofá da sala. Puxa! Que sorte! Calma... Ainda falta alguma coisa? Quando eu deitei no sofá, logo sabia que não iria conseguir dormir. Fiquei sem jeito de perguntar se ele teria, por acaso, um rivotril... Cara! Não... Isso você não fez! Não fiz mesmo, mas tentei entender o que estava me incomodando, o que eu precisava fazer para melhorar um pouco a minha situação. Eu estava de calça jeans justa e uma camisa. Eu não consigo dormir assim. Ia ser uma noite dos infernos se eu não tomasse a atitude que tomei. Chega de suspense Adélia, fale! Eu encostei o ouvido na porta do quarto do vizinho. Escutei o ronco dele. Quase voltei para o sofá e abafei o caso, mas senti que eu não merecia sofrer nem um minutinho a mais naquela noite e bati na porta do quarto do meu protetor. Ele só abriu a porta na terceira batida. Dessa vez, a expressão dele quase me assustou. Ele questionou o que eu queria. Fui bem objetiva: Você pode me emprestar uma camiseta sua para eu dormir? Ele não esperava por mais esse pedido e talvez, por ter sido pego de surpresa, não teve outra reação que ir ao seu armário e providenciar o que eu precisava. Agradeci e voltamos a nos separar. Deitei no sofá e minha mente se pôs a rever as cenas do dia. Fui afastando uma a uma para poder tentar descansar. Quando o cansaço estava quase me vencendo, um diabinho me trouxe um pensamento torturante: você faz cocô, pela manhã, todos os dias quando acorda. Com essa maré de azar que você está vivendo, há grandes chances de você usar o banheiro do vizinho e não conseguir dar a descarga. Já pensou? Adélia, você jura que ficou pensando nisso? Fiquei. A noite toda? Uma boa parte.  Como termina esse horror? Eu usei o banheiro do vizinho. E? Deu tudo certo. Quando fui embora do apartamento do vizinho, agradeci a gentileza dele. Ele me respondeu que não foi nada e que estava reparando que para quem havia passado tamanha tensão, até que eu estava bem, parecia que eu tinha até um sorriso no rosto. Eu lhe respondi que me considerava uma pessoa de sorte, pois eu tinha certeza que as coisas poderiam ser bem piores... Pronto! Contei tudo que eu tinha para lhe contar! Só falta lhe mostrar as fotos que tirei do estado que encontrei meu apartamento. Vou lhe enviar. Certo, mas só as verei amanhã. Boa noite! Já está tarde. Vamos dormir. Como admiro você minha amiga querida! Você é inspiradora. Vai escrever essa história? Se eu escrever, muita gente vai achar que você não existe. Posso? Claro...
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