Você está aqui:Home»Blog»A PEQUENA E SEU HERÓI

A PEQUENA E SEU HERÓI

Sexta, 15 Março 2019 09:13 Escrito por 
Eu não dormia sozinha quando era criança. Meu irmão e eu dividíamos o mesmo quarto. Duas camas, uma caixa de brinquedos e um armário para nossas roupas. A janela não tinha grades nem redes e nunca nos atrevemos a fazer nenhuma estripulia. Julio tinha medo do escuro e enxergava o Lobo Mau nas sombras sinistras que apareciam nas nossas paredes todas as noites. Ele era mais velho e para mim era o modelo perfeito. Talvez nessa época tivéssemos cinco e seis anos. Nossa diferença de idade era exatamente um ano e vinte dias e sempre motivava espanto em quem ficasse ciente dessa realidade.  Ouvi mais de um adulto falar que meus pais não perderam tempo e isso me fazia variar de confusa a orgulhosa. Meu irmão era mais forte e mais alto que eu. Ele corria, pulava, nadava e fazia tudo melhor que eu. Quando jogávamos jogos de tabuleiro, invariavelmente eu perdia e choramingava me queixando para mamãe que ele ria de mim e não sabia ganhar. Essa minha atitude nunca me rendeu nenhum conforto, pelo contrário. Tinha que escutar as risadas mais altas do meu irmão e a voz da minha mãe me dizendo para deixar de ser boba. Ele teve facilidade para aprender a ler e lembro bem dele se deleitando quieto durante horas a fio com seus livros. Julio foi capaz de ler sem parar “Os doze Trabalhos de Hércules”, de Monteiro Lobato. Eram dois tomos. Fiquei imensamente admirada dessa sua proeza. Mais que admirada, fiquei chocada. Era um atestado da sua superioridade. Nunca cheguei perto desses livros. Resolvi que não eram para mim. Foi assim que eu iniciei uma construção de minha imagem com tijolos débeis. O material bom e forte estava no Julio. Por pouco eu poderia ter ficado irremediavelmente complexada, oprimida e abafada.  Não me lembro dele me ensinar a ler ou ler comigo algum livrinho. Na escola, fui aprendendo e fazendo progressos e ler se tornou algo que, como Julio, também me enchia de prazer. Eu gostava de me mostrar, gostava de aplausos e beijinhos. Era uma irmã caçula buscando farelos de aprovação em cada cantinho da vida. Todas as noites, tínhamos que ir dormir na hora que a TV avisava o início do Repórter Esso. Era um toque odioso. Uma trombeta insistente. Quando esse momento chegava, mamãe se tornava uma bruxa surda e louca que apontava para o banheiro para escovarmos os dentes e depois nos arremetia nas nossas camas. Nada do que argumentávamos adiantava para rompermos a regra do toque de recolher na hora do Repórter Esso. Mamãe nos cobria e nos dava um beijinho. Por fim, já quase fechando a nossa porta, nos dizia todas as noites a mesma frase em idish “Gai Schlufn mit Guesint ”. Mais do que o significado, “vá dormir com saúde”, eu entendia que eram palavras que vinham de muito longe e tinham um estranho poder. Com esse ritual, era para dormirmos imediatamente. Mas, quando o escuro tomava conta de nosso quarto, meu irmão se transformava ou era invadido por alguma alma muito medrosa. Não posso afirmar se eu tinha sono e adormecia. Nem sei quantas noites de fato presenciei seu pavor ao se deparar com o bicho assustador e mau. Eu poderia pegar na sua mão e conversar um pouco com meu irmão. Não acho que fiz isso. Poderia ter ido para caminha dele. Poderia tê-lo abraçado e sussurrado uma melodia doce para espantar seu medo. Não fiz nada disso. Se Julio via o Lobo, era por que o lobo estava realmente no nosso quarto. Se eu não o enxergava, era por eu ser ainda pequena e não tinha a habilidade que ele tinha. Lembro vagamente que mamãe e até papai entravam no quarto para acalmar meu irmão. Lembro-me, também muito esfumaçado, que o Lobo sumiu e passei a escutar que eram ladrões que estavam em casa. Nessa fase, após o toque de recolher e antes de deitar, meus pais faziam um giro com Julio pelo nosso pequeno apartamento, verificando com ele todas as portas e janelas. Não adiantava. Claro que não, afinal, monstros e pavores não obedecem a trancas. Eu poderia ter feito carinho nas suas costas e na sua cabeça até que ele adormecesse em paz. Não fiz. Creio que eu rezava em silencio para que o dia fizesse meu irmão retornar ao que era. Eu tenho quase certeza que rezava e dizia que não iria me importar se ele risse de mim quando ganhasse nos jogos. Como era grande o medo dele! Não sei como, nem quando exatamente, mas tudo isso passou. Minha mãe nunca deixou de nos beijar, de nos cobrir e de nos dizer a frase em idish. Hoje, sou adulta. Não consigo dormir sem me cobrir. Antes de fechar os olhos, sempre procuro a foto da mamãe, do papai e a do meu irmão. Ainda escuto aquela voz doce me bem dizendo em idish. Em muitas noites enxergo minhas mãos entrelaçadas com as de meu irmão. Quando no escuro das altas horas me reviro e não acho o rumo da serenidade, lá de uma foto, ou talvez de bem mais longe, me chegam sussurros em forma de acalento e mantra: Gai schlufn mit guesint, Gai schlufn mit guesint, Gai schlufn mit guesint...
Lido 218 vezes
Avalie este item
(9 votos)

Comente e Compartilhe

Deixe um comentário

Certifique-se de preencher os campos indicados com (*).

Newsletter

Receba as atualização do site por e-mail.

Os + Lidos

Facebook