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A Cozinha dos meus Sonhos

Sábado, 26 Junho 2010 17:04 Escrito por 
Tem gente que não liga a mínima. Sonha, nunca lembra, nem faz questão de lembrar. Sabe que os outros sonham, mas não se importa em saber, pelo menos, do que se tratou. Claro que respeito, mas confesso que estranho muito. As raízes desse estranhamento estão na minha infância. Na minha família, os sonhos eram considerados preciosidades, verdadeiros artigos de luxo fabricados inteiramente por nós. No nosso café da manhã, muitas vezes, tínhamos muito mais que leite e pães. Era uma hora especial, onde nada era mais importante que o hábito que tínhamos de compartilhar os nossos sonhos. Assim aconteceram meus primeiros ensaios na arte de me fazer ouvir e também na de aprender a escutar. Depois do bom dia, um de nós começava um primeiro relato. Parecia que em algumas noites fazíamos uma viagem e na volta, na cozinha, ainda de chinelos, pijamas e camisolas, desenrolávamos em grupo a magia que havia nos acontecido. Minha mãe vinha com as histórias mais fantásticas. Sempre. Os personagens de seus sonhos voavam ou usavam cocares, podiam já ter morrido e gozavam de boa saúde, falavam idiomas estrangeiros, sem nunca os terem aprendido e até conseguiam se comunicar com animais. Não havia obrigação alguma em fazer sentido ou obedecer a regras de qualquer natureza. Papai e meu irmão sabiam contar muito bem seus sonhos. Era tal a riqueza de detalhes, que muitas vezes lembro que cheguei a duvidar se o que eles estavam relatando era um sonho, um filme ou um encontro que realmente houvera acontecido. Posso garantir, isso me dei conta recentemente, que foi na cozinha de minha casa, junto com meus pais e irmão, em torno de uma mesa de fórmica amarela, que comecei a me interessar pelos enigmas do inconsciente. Consigo até hoje evocar a sensação que me inundava após cada café da manhã regado com sonhos fresquinhos. Era algo como um dançar na lua misturado com tocar trombetas no fundo do mar. Era inevitável que tudo isso deixasse marcas em mim. Minha sensibilidade ficou aguçada. Muito cedo passei a querer conhecer mais histórias além daquelas que ouvia na cozinha. Então, segui o modelo que havia em minha casa e me viciei no prazer de ler bons livros, ver bons filmes e peças de teatro. Além disso, que não era pouca coisa, aprendi também a decifrar as histórias que os quadros nas galerias ou museus silenciosamente contam para quem se dispõe a escutá-las. Não sei como, nem quando, passei a perceber histórias por toda a parte. Talvez eu viva sonhando. Talvez, como meu avô dizia, a vida seja um sonho mesmo.
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