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O FORMULARIO

Quinta, 13 Dezembro 2018 16:54 Escrito por
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Junto com a correspondência, veio um formulário para ser completado. Ao perceber em mim um ar de “pra que isso”, meu marido se apressou a explicar que era uma medida aprovada na reunião de condomínio e era para a segurança do prédio. O novo síndico quer que todos os moradores atualizem seus dados. Isso significa, em primeiro lugar, os nomes, telefones e e-mails. No mesmo formulário tem a parte que corresponde à garagem e os carros que a utilizam. Até aí fácil e rápido. Por fim, três nomes de pessoas a quem devam procurar em caso de urgência. Aí pegou! Essa parte ficou reverberando estranhamente dentro de mim. Como tenho dois filhos, pensei que nada é mais correto que lhes incumbir desta tarefa, quando ocorrer essa triste necessidade um dia. Preenchi as duas linhas sem querer entrar nas discussões que pipocavam na minha cabeça. E o terceiro nome? Caramba! Havia uma pessoa que sempre esteve presente e sempre me ajudou. Hoje ele é um executivo ocupado, viaja muito e não tem tempo para nada. Não posso colocar o nome dele. Certamente ele não estará disponível. Então quem? No prédio, apesar de mais de duas décadas morando no mesmo lugar, não sinto a intimidade necessária para convocar um vizinho para me socorrer. Não tenho o costume de entrar no apartamento deles. Imaginei ter que me expor, caída, mal arrumada, ou nua e suja... Não! Parece que estou de antemão me desculpando por algum trabalho que venha a causar, mas melhor não... Veio a minha mente algumas pessoas que já estão cuidando de outras. Achei que seria uma enorme falta de sensibilidade de minha parte aumentar a carga de uma pessoa assim sem mais nem menos! Não tenho irmãos e meus primos e tios moram longe de mim. Muitos dos meus amigos estão vivendo seus próprios e complicados problemas. Definitivamente, não cabem os meus nas suas costas. O espaço em branco foi aumentando. Quem? Uns dois porteiros do clube e todos os do meu prédio sempre me cumprimentam alegremente e sabem meu nome... Não. Não sinto que deva colocar o nome de um deles. Essa tarefa exige mais intimidade. Então minha cabelereira ou a manicure? Até podem ser, mas quero seguir pensando. Quem estaria por perto, disponível, forte e capaz de tomar decisões e encaminhar uma ajuda? Estranhamente, mas como costuma me acontecer, essa busca me jogou no passado. Dessa vez eu estava nos meus catorze anos, morava com meus pais e irmão num prédio, em Copacabana. Um dia chegando da escola, encontrei mamãe muito aflita e ela me revelou que a filha da vizinha do quarto andar tinha tentado se suicidar. Levaram a moça e sua mãe para o hospital. O pai que havia chegado minutos após, ficou sozinho e atordoado no apartamento deles. Sem trocar de roupa, beber água ou dar a oportunidade da razão ter alguma voz, fui ao encontro do homem atordoado e o acompanhei num taxi até sua esposa e filha no hospital num bairro vizinho. Não lembro nada além de chegar ao hospital e voltar para casa. Carrego junto com essa lembrança uma sensação de ter feito a coisa certa com rapidez. No entanto, e ainda bem, minhas reflexões atuais me apontam para a impulsividade da jovem que eu era na época. Com a pressa de resolver, me livrar da enorme angustia, muito provavelmente, consegui atropelar outras pessoas. Eu levei o pai para o hospital. Será que a esposa dele e sua filha o queriam lá? Será que um parente deles estava a caminho para fazer isso? E se eu não tivesse ido? Minha mente se desloca para lembranças de outras épocas. Ainda segui me adiantando e agindo como “heroína salvadora” em muitos momentos de minha vida. Era a minha busca de afeto e admiração. Possivelmente, algumas vezes, consegui essa tão desejada retribuição. Em outras, deixei que a inconveniência respingasse. Enquanto isso a terceira linha segue em branco. Esse espaço no formulário, que está tão complicado para eu preencher, me faz ir longe e fundo. Há quem nem vá acreditar, mas como sou dada a aceitar de cabeça convites de mergulhos dentro de mim, esse exercício de escolha me faz sentir pequenininha e encolhida. E ainda fraca. Frágil. Não consigo chamar ninguém. Estou molhada. Pode ser suor. Quero me mexer para demonstrar que vivo. Consigo um movimento com uma perna. Não sei se adiantou... Não ouço nada. O silêncio me preenche. É assim que me enxergo, tentando imaginar a tal situação de emergência. Para fazer a coisa bem difícil, meu marido não está por perto. Ele sim saberia me ajudar. Mas como uma regra de um jogo cruel, ele, no tal futuro, na situação de emergência, nesta que me força a escolher quem vai me ajudar, ele não estará por perto. O formulário parece gritar que não tem o dia todo para esperar um nome. Sinto, pela forma mais cadenciada e tranquila da minha respiração, que estou calma. Sei que o exercício deve terminar. Respiro devagar. Inspiro e solto. Sinto meu corpo. É como se fizesse uma chamada mental de cada parte... Dedos do pé? Presente! Joelhos? Presente! E assim vai. E então me alongo. Estou inteira novamente com a folha de papel e as opções que havia pensado para compor o trio salvador. Estou achando que esse novo síndico, sem nem de longe adivinhar o motivo, começou muito bem sua gestão.            

INESQUECÍVEL

Segunda, 19 Março 2018 09:10 Escrito por
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Era uma tarde quente de sábado, disso lembro muito bem. O ar condicionado estava ligado. A bandeja do almoço já tinha sido retirada, mas o cheiro do bife ainda estava passeando pelo quarto. A claridade entrava pelas janelas enormes do quarto de hospital que papai ocupava há uns três ou quatro dias. A vista do sexto andar parecia um quadro vivo: casas, árvores, céu azul, nuvens e até carros e pessoas em movimento. Eu olhava pela janela e me distraía, enquanto escutava o ronco forte do papai que cochilava. Papai estava cansado. Havia feito naquela manhã um exame invasivo no pulmão para saber se estava com metástase. Papai escutou um leve barulho de batidas na porta e despertou. Meus amigos entraram. Mauro e Eva. Vieram visitar papai. Mauro se aproximou do papai e ficou parado ao lado de sua cabeceira. Eva parou perto dos pés de papai. Vamos sentando gente, disse meu pai. E então, quais são as novas? Nenhuma novidade. Tudo igual. Foram essas as frases do meu amigo. Então manda uma piada... Ah! Sou péssimo para contar piadas e Evinha também. E as notícias de hoje? Eva se adiantou e respondeu que não haviam lido jornal, nem escutaram noticiário. Bem gente, então como vocês querem fazer uma visita a alguém que está num hospital? Quem está aqui preso gosta de escutar novidades, rir de alguma anedota ou acompanhar uma história ou caso como se estivesse vendo um filme. Aliás, vocês viram algum filme bom ultimamente? Muito sem graça, Mauro balançou negativamente a cabeça. Eva só fez concordar com o marido. Puxa! Assim está mesmo difícil, disse meu pai e continuou: Vou dar um jeito nisso. Eu fui assistir a um filme que gostei demais. Chama-se “Melhor Impossível” com o Jack Nicholson. Eu estava de espectadora no quarto, mas nesse momento me juntei a papai para reforçar como o filme era bom. Provavelmente, disse papai, tem algum shopping com cinema aqui por perto. Tem sim, disse a Eva. Provavelmente, continuou ele, esse filme deve estar passando. Os dois se olharam e concordaram com a hipótese do meu pai. Minha filha, que horas são? Quase três. Vai dar certo! Podem ir! Mauro e Eva não estavam entendendo. Vocês podem ir agora e voltem aqui amanhã para conversarmos sobre o filme. Assim vocês terão assunto. Um silêncio incômodo foi cortado pelo riso sem graça da Eva. Eu estou falando sério, disse meu pai com uma voz calma e baixa. Muito sério. De verdade. Vocês vão notar a diferença amanhã quando voltarem e estivermos animadamente conversando. Então... É mesmo pra gente ir? Eva ainda questionou. Papai soltou uma exclamação para não deixar nenhuma dúvida: Claro! Vamos Evinha, o pai da Rosali tem razão. Amanhã voltaremos. Após a saída de meus amigos, papai não voltou a cochilar, havia perdido o sono, mas estava bem. Respirava tranquilo. Notei seus pés. Eu sempre olhava para ver se estavam inchados. Não estavam. Tive a impressão de ver sua unha do dedão um pouco arroxeada. Deveria mostrar para alguma enfermeira? Achei que era impressão. Fui desviada desses pensamentos quando um médico, que eu nunca tinha visto, entrou no quarto sem bater. Usava o jaleco impecavelmente branco, bem engomado, era baixo, um pouco gordo, usava óculos de lentes grossas e devia ter uns setenta anos, como papai. Não lembro se ele se apresentou, nunca soube o nome desse médico. Sem fazer nenhuma introdução, foi direto ao assunto: Senhor Chaim, vim lhe contar o resultado do seu exame. O senhor sente cansaço, pois tem fungos nos pulmões. É uma coisa chata, demora a tratar e curar, mas é melhor que câncer. Bem melhor! Depois que o senhor se recuperar desse exame vamos começar a atacar esses fungos. O médico perguntou de forma protocolar se havia alguma dúvida e em seguida se retirou do quarto do papai. Depois do espanto e de alguns minutos para entender o que havia sido dito, a notícia foi comemorada e espalhada pelos quatro ventos para acalmar todos os amigos e a família. Assim que a agitação cedeu, papai quis ficar só com meu marido e assistir futebol. Pode ir Rosali e leve sua mãe. Descansem. Vocês aqui só vão atrapalhar, pois não gostam de futebol. Já vi vocês aqui hoje o dia todo. Chega. Eu estava acostumada ao jeito do meu pai e achei que ele tinha razão. Vamos mãe. Não fizemos uma despedida demorada, muito menos dissemos falas especiais, afinal não tínhamos a menor ideia do que estava por acontecer. Por conta de uma embolia pulmonar papai faleceu pouco depois que saímos. Foi inesperado. Foi um horror. Foi um pesadelo. Foi uma dor sem fim. Foi um nó na garganta que custou a desatar. Foi um desespero. Foi uma perda terrível. Foi há vinte anos. No dia seguinte, domingo, o casal que estivera sem assunto voltou, conforme havia sido combinado.      

JOGOS MODERNOS

Quarta, 28 Fevereiro 2018 16:52 Escrito por
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Eu ainda estava na cama tentando resolver o dilema de levantar ou me permitir um tempo de ócio a mais, quando o barulho do marido andando no corredor me fez decidir por colocar os pensamentos em ordem e ver o que tinha para fazer primeiro.  Decidi que o que queria fazer, antes de qualquer coisa, era lembrar o episódio que aconteceu no final da noite anterior. Chegamos de uma das nossas curtas viagens para o RJ. Quatro dias, muitos encontros e muitas emoções. Realmente muitas emoções! Emoções que ainda precisam ser mais bem digeridas, mas que, no momento, basta que se saiba que existiram. Comecei a lembrar de que quando saímos do aeroporto estava escuro e precisávamos achar um carro branco, de certa marca com um final de placa específico, acho que 73. A área de desembarque do aeroporto tem um espaço enorme, suficiente para uma caminhada saudável, mas eu não estava para isso àquela hora. Minha memória se juntou com a sensação de que estávamos num jogo que começou na escolha do aplicativo para encontrar o carro que nos levaria para casa. Não estou exagerando. Juro! Dá para ver pelo modo como meu marido se comporta cada vez que precisamos usar um veículo para nos transportar. Pegar um taxi virou a opção dos perdedores. Nós não! Meu marido tem três aplicativos, sendo que um ou dois deles se subdividem. Ele pode avisar que não tolera cigarro e vai gostar de ter balinhas e água para dizer que nem quer. Definitivamente nós conseguiríamos pegar um lindo carro, pelo menor preço e que fosse o mais rápido para chegar ao nosso destino. Assim que o avião pousou, meu marido pegou seu iphone e a busca começou. Seus dedos se moviam freneticamente e diante de uma e outra contrariedade um pequeno palavrão era cuspido de sua boca. Quando o carro era satisfatório, a distância que ele estava não era. Meu marido achou por bem me dizer que nossa cidade ainda não está entre as mais bem servidas deste tipo de serviço.  Eu já tinha conhecimento disso e devo ter respondido com um desses sons que não chegam a ser uma palavra. Da saída do avião até a saída do aeroporto há um percurso de cerca de quinze minutos. Durante os primeiros cinco minutos meu marido foi mexendo no seu aparelho e andando numa velocidade que me obrigou a ir bem mais depressa que meu corpo cansado estava querendo. A busca dele seguiu incessante. Ele passou a me mostrar quanto cada um cobrava. Meu marido estava com a faca e o queijo nas mãos para apertar um botão ou dar um comando e ganhar o tal jogo. Eu sabia que não era conveniente interrompê-lo e assim, após uns poucos minutos ele me anunciou triunfante que o nosso carro seria um HB, branco, com os números finais da placa, não tenho certeza, 73 e até disse o nome do motorista, que pode ter sido Rodrigo, ou outro qualquer. Como jogadores na última fase do jogo, passamos pelos portões do aeroporto em direção à área de desembarque. Agora só precisávamos achar o carro. Meu marido é mais alto que eu e com seu olhar consegue sempre varrer um campo bem grande. Andamos bastante de um lado para o outro. Fique perto de mim, ele me disse com uma voz firme, enquanto corria e buscava achar o carro que para nosso desgosto não estava facilmente à vista. No meu iphone diz que o carro está estacionado aqui. Experimentei dizer que o motorista poderia ter dado uma volta. Impossível! O aplicativo mostra que ele está aqui. Depois de um tempo, ousei dizer que não queria mais andar. Queria ir embora. Achei um lugar num banco e me sentei.  Empaquei. Meu marido começou a perceber que iria ser desclassificado do jogo. Ficou desacorçoado. Experimentei ajudar: Liga para o motorista. Já liguei! Ele não atende. Vou cancelar e buscar outro...  Nesse momento, enxerguei um taxi parado bem na nossa frente. O motorista do taxi saltou. Meu marido leu meus pensamentos e me disse que ele deveria estar aguardando alguém. O senhor está aguardando alguém? Não, estou livre. Quanto custa até o centro? O valor que ele deu era talvez 40% a mais que os carros que usam aplicativos. Rapidamente eu falei que o valor estava bom e que nós iríamos com ele. Meu marido entrou mudo no carro. Entre dentes me fez saber que ainda pagaríamos mais do que foi dito. Eu retruquei dizendo que pagaria quanto fosse. Ele foi eliminado do jogo. Estava amargando sua derrota, quando o motorista experimentou puxar conversa. Mudo ficou e eu troquei algumas falas com o motorista. Na porta de casa, meu marido me questionou se eu tinha dinheiro à mão. Achei minha carteira e tirei as notas para contar o dinheiro. Pronto! Por favor, confira se eu lhe dei o valor correto. O motorista contou e recontou. Não! A senhora me deu a mais. Ele me devolveu vinte e poucos reais. Boa noite e bom descanso! Vocês parecem cansados, mas já estão em casa e vão descansar. O senhor percebeu mesmo nosso cansaço. Boa noite para o senhor também. Meu marido se rendeu e desejou boa noite para o motorista. Game over.

VÉSPERA DO FIM DE FÉRIAS

Quinta, 18 Janeiro 2018 08:39 Escrito por
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Não seria correto simplificar tudo que passei numa noite mal dormida assumindo que apenas foi desagradável ficar sem dormir direito. Preciso confessar que acima de tudo foi espantoso. Fiquei rolando na cama na véspera do fim das minhas férias. Nunca imaginaria que tal fato acontecesse, visto que estou com 64 anos e já trabalho há mais de trinta e cinco anos como psicóloga clinica. A sensação de obrigação e volta à rotina pode ter tocado numa questão delicada: o que faço com o precioso tempo de minha vida?  Ao tentar me responder fui levada para lugares não totalmente estranhos, mas lugares não muito visitados. Tenho plena noção que o exercício da psicologia me tornou alguém que se especializou ou se refinou na arte de escutar. De uma forma espetacular, percebi que minha mente abriu portas e janelas para expor os mais diversos materiais que andei escutando e que estavam registrados na minha memória. Num primeiro momento, talvez num ataque de covardia, quis resistir e adormecer. Quis acabar com aquele desfile de desejos, dramas, ambições, doenças e muito mais. Segurei firme meu travesseiro e fiz dele um escudo. Dobrei as pernas. Estiquei as pernas. Rolei para um lado. Esbarrei no companheiro, que demonstrou sua insatisfação através de um muxoxo. Rolei para o outo lado. Tentei colocar um travesseiro a mais na cabeça. Nada deu certo! Entendi por fim que era impossível não aceitar um convite vindo de uma instância tão especial e simplesmente adormecer.  Resignada aceitei a situação. Foi como se aceitasse fazer as pazes comigo mesma e parasse de brigar. Achei uma posição boa ao colocar uma mão no peito e outra na testa. Minha respiração entrou numa cadência e num ritmo suave. Percebi que me acalmei. Nesse momento, fiquei à disposição da minha alma e de tudo que ela achava que eu precisava revisitar. E assim foi. Escutei relatos de adolescentes entediados e zangados com seus pais. Escutei jovens sem planos, sem alegria de viver. Escutei noras se queixando de sogras e vice versa. Escutei profissionais estressados e irremediavelmente adoecidos por conjunturas venenosas. Escutei casais que já se amaram e se perderam no meio de algum caminho nublado. Escutei pessoas que querem ser alguém, mas não conseguem chegar nem perto do que almejam. Escutei pais e mães que não sabem colocar limites e educar seus filhos. Escutei pessoas de todas as idades falando de desejos, amores e sexo. Escutei pessoas doentes cheias de medo da morte. Escutei idosos resignados com a morte e cheios de raiva pela vida que estão levando. Escutei pessoas que querem ser respeitadas. Escutei também uns poucos relatos de sucesso, de conquistas e de alegrias. Não sei exatamente quanto tempo fiquei vivendo essa retrospectiva. Lembro que não senti vontade que acabasse, mas acabei sendo vencida pelo cansaço e adormeci. Acordei com o barulho do despertador. Por um reflexo condicionado, pulei da cama. Entrei na sequencia de atividades que me levaram em pouco mais de meia hora a estar pronta para ir trabalhar. O trajeto de minha casa até meu trabalho é curto e em quinze minutos a pé cheguei ao prédio onde tenho o meu consultório. Entrei no elevador e respirei fundo. Olhei-me no espelho, sorri sem exagero, gostei do que vi e me enxerguei pronta para recomeçar a trabalhar. Ainda no elevador, escutei assombrada uma voz zombeteira e estridente que me provocou: Está mesmo?    

VÁ VOCÊ TAMBÉM!

Quinta, 07 Dezembro 2017 16:51 Escrito por
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No primeiro domingo de dezembro, um grupo de trinta pessoas fez acontecer o último evento do ano de 2017 da Biblioteca Regina Bin da Sociedade Israelita Beth Jacob de Campinas. Visitamos o Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto em SP. Tivemos a honra de sermos guiados pelo Professor Reuven Faingold e também pela Orientadora Educacional Ilana R. Iglicky durante três horas dentro do Memorial. Todos do grupo foram unânimes em salientar o conhecimento do Professor Reuven e sua capacidade de transmitir e contextualizar os fatos e dados históricos. Ilana explicou e apresentou a parte referente à cultura dos imigrantes judeus com muita propriedade. Somos gratos por tanta generosidade de ambos. Visitar um Memorial do Holocausto é dispor-se a reverenciar os Seis Milhões de Judeus inocentes assassinados e fazer reflexões sobre a capacidade de intolerância, brutalidade e ódio que proliferaram nas mentes nazistas. Há quem diga que não quer mais saber desse tema, já se abalou demais com fotos, livros e filmes. São pessoas que acreditam que precisamos de alegria e que não devemos remoer eternamente as vozes que nos chegam dos escombros. Sem querer escutar tais vozes, ou sussurros desesperados, essas pessoas evitam se conectar com a responsabilidade de passar adiante tudo o que aconteceu. Parece não se interessar pela onda de negação do holocausto. Também não lhes interessa se os jovens, estudantes de escolas públicas ou particulares, sabem mais ou menos sobre os fatos relacionados ao nazismo, holocausto e II Guerra Mundial. Esquecer é o caminho para alguma forma de repetição e é um insulto à memória de todos que foram executados no holocausto. Definitivamente esquecer não beneficia a nós, judeus, nem a nenhuma pessoa interessada na paz e na justiça social. No mesmo prédio e não por acaso, também funciona o Memorial da Imigração Judaica. A ligação entre os sobreviventes, os que escaparam antes do holocausto e toda a riqueza cultural que veio para o Brasil é feita com arte e delicadeza. A arquitetura e a decoração de todo o prédio nos fazem esquecer que estamos no Bom Retiro e nos convidam a viajar para algum lugar que não existe. Dias depois dessa visita, meus pensamentos apontam para muitos questionamentos, que ainda precisam ser digeridos, e uma certeza: Cada pessoa que passa pelo Memorial, acaba aceitando, sem fazer nenhum contrato, a obrigação moral de fazer outras pessoas irem lá. Esse é um Memorial que precisa ser conhecido por toda a comunidade judaica, para que todos os judeus saibam que há quem esteja preocupado com assuntos relevantes como esse. E, é um Memorial para ser visitado por escolas, faculdades e grupos das mais diversas origens para que a história não se deturpe jamais! Kol ha Kavod para todos que de alguma forma estão ligados a idealização, construção e manutenção do Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto!  
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