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PORTARIA VIRTUAL

Quarta, 25 Setembro 2019 18:44 Escrito por
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Após mais de um ano de discussões acaloradas nas reuniões de condomínio, finalmente a ideia vingou. Em nome de diminuir o valor do condomínio, abrimos mão de termos uma equipe de funcionários para nos atender no prédio onde moro. Teremos agora o que a modernidade atribuiu o nome de portaria virtual. Com certeza estamos deixando para trás hábitos antigos de mordomias que não cabem mais num mundo moderno. Apesar de não ser do agrado de todos, os moradores devem separar seus lixos orgânicos dos recicláveis e levá-los devidamente acondicionados até o local apropriado. Não há mais uma pessoa que recolhe diariamente o lixo que ficava no andar de cada um. Temos que andar com umas fichas chamadas tags para abrir portas e portões. Se as esquecermos, o jeito é falar por um dos interfones com alguém, que não temos a menor ideia de quem seja e de onde está e que vai nos indagar questões para ter certeza que somos quem somos antes de abrir nossas portas e portões que nunca estavam fechadas. O direito a ter essas fichas de “abre-te sésamo” é restrito as famílias dos moradores. Isso vem causando polêmica, pois há patrões que insistem em dar os tags para suas empregadas domésticas. Eles alegam que elas trabalham nos apartamentos há muito tempo e possuem as chaves dos apartamentos, portanto, nada as impede de serem consideradas como pessoas de confiança. Acredito que essa questão, como sempre ocorre em impasses das mais diversas naturezas, vai ser resolvida quando o bom senso prevalecer sobre a rigidez. As escutas precisam estar apuradas para que se entenda o que de fato incomoda.   Nossas sacolas pesadas ou malas de viagem não passarão das nossas mãos para as mãos calejadas e gentis de algum dos nossos antigos funcionários.  Encomendas devem chegar dentro de um horário estipulado para não darem com a cara na porta e terem que voltar para o lugar de onde vieram. O cheiro do prédio mudou. Quase diariamente litros de desinfetante com aromas florais eram esfregados desde o hall de entrada  até o último degrau da escadaria que vai até o decimo segundo andar. Hoje não é mais assim. Temos uma única funcionária que atende tudo o que for necessário durante seu horário de trabalho e uma vez por semana aparece uma faxineira que dá um tapa geral na limpeza. Dessa forma, o aroma de flores passou a existir só na memória de uns e outros como eu mais apegados a esses detalhes sensoriais. É uma nova era. Faz com que cada um seja muito mais responsável por tudo o que acontece ou possa acontecer no prédio. Aliás, parece que todos foram obrigados a refletir na existência desse espaço comum a que chamamos prédio. O apartamento, onde cada família mora, está inserido num espaço comum, que até então era apenas a passagem para chegar ou sair do próprio lar. Antes, se algo estava sujo ou quebrado, sabíamos que o zelador ou algum faxineiro iria resolver esse problema. Hoje estamos começando a entender que custa muito menos para todos nós se adotarmos um comportamento menos aristocrático e mais colaborativo. Alguns dos moradores já são capazes de catar folhas e papéis que o vento cismou de acumular na entrada do nosso prédio, ao invés de esperar que o dia da faxina chegue para que isso seja feito. Virou um assunto entre os moradores falar sobre nossa adaptação. Alguns falam da falta que sentem da pessoa que estava sentada quando passavam para sair ou entrar no prédio e lhes dava bom dia e as demais saudações. Eu sinto uma estranheza, olho para a cadeira vazia e tento engolir as palavras que ainda teimam em me escapar pela boca. Alguns moradores falavam que o fato de ter alguém sentado na portaria 24 horas lhes dava uma sensação de proteção. Tiveram que se render aos argumentos que lhes foram apresentados. A segurança total não existe. Nenhum porteiro poderá fazer nada diante de bandidos armados, por exemplo. E se alguém precisar de ajuda dentro do apartamento? Se cair? Teremos que pensar quem dos vizinhos pode prestar algum socorro. Antes ninguém precisava incomodar ninguém. Agora pode ser que aumente o grau de solidariedade entre os moradores. Esses funcionários trabalhavam conosco há pelo menos dez anos. Todos sabiam que eles faziam um trabalho que já não existe em muitas partes do mundo desde o século passado. Lembro-me da profissão dos ascensoristas de elevador que tinham como função acompanhar pessoas dentro dos elevadores, perguntar para qual andar iam e apertar o devido botão. Pode ser que muitos deles marcaram presença com toques de cordialidade ou humor. Muitos sabiam falar de política e traziam as principais notícias do dia espetacularmente resumidas já que o tempo para contá-las era pequeno. Apesar dessas qualidades ímpares, foram forçados a buscar outras ocupações. Penso que deve ter sido difícil, mas imagino quanta gente cresceu, se desenvolveu, estudou e foi buscar outras oportunidades. Os profissionais das portarias de prédios estão nessa mesma situação. Os anos de acomodação numa profissão fadada a acabar lhes conduziram ao ponto que chegamos. Foram indenizados, demitidos e nos deixaram órfãos de bajulações e paparicos que nos fizeram crer muito mais especiais e merecedores de atenções do que de fato somos. Num primeiro momento a sensação se aproxima a de termos caído do cavalo, mas já estamos sacudindo a poeira e logo estaremos nos levantando. Em alguns meses, após o pagamento de todas as rescisões, o valor do condomínio vai baixar. Com a diferença desse valor alguns moradores poderão comprar viagens, trocar de carros, pintar o apartamento ou fazer doações para causas sociais. Ou pode ser que o novo valor do condomínio, como atestam os estudos motivacionais relativos a aumentos de salario, logo se incorpore a realidade de cada um e nem se note uma grande vantagem por mais do que uns poucos meses. Então mergulharemos em reflexões e novas discussões sobre a mudança que teremos feito e sobre tantas outras que ainda haveremos de fazer.  

HÁ QUEM ENTENDA

Terça, 02 Julho 2019 08:14 Escrito por
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Descobri, há muito tempo, que me recarrego na água. Sem praia por perto, resolvo essa questão na piscina mesmo. Entro e logo sinto a água abraçar docemente a minha pele. Não escapa nem um pedaço do meu corpo. O prazer é imediato. Afundo e fecho os olhos. Deixo-me inundar pelo silêncio. Tudo que me chama, me cobra e por vezes até me tortura fica agora num outro lugar. Longe. Fico num estado de suspensão, sem pressão. Sou capaz de capturar a leveza de cada parte do meu corpo. Nesses instantes, músicas me invadem. Algumas são doces e calmas. Outras nem tanto. Gosto de todas. Faço movimentos. Imagino que bailo. Queria ter aulas de ballet quando era menina. Foi um querer sem força e mamãe não o capturou. Nunca fiz essas aulas. As sapatilhas e as roupas das bailarinas sempre me chamaram a atenção. Posso ter tido inveja e ciúmes. Não tenho certeza. No fundo da piscina, imagino que consigo bailar. Imagino que estou linda, uso uma maquiagem leve e elegante, visto um collant rosa pálido com saia frufrus e meus cabelos longos estão presos num coque bem feito. Ao som da música, movimento meus braços e pernas com o máximo de delicadeza. Viro as mãos lentamente. Deixo-me cair para um lado e depois para o outro. Solto o pescoço e ergo a fronte. Sou bailarina. Que alegria! Não sei o que os olhos dos outros enxergam. Em geral, pensar no que os outros pensam me desconcentra. Volto à tona e respiro. Encho meus pulmões ao máximo para fazer durar o próximo momento lá embaixo. E vou. Não sei ao certo se tocarei o fundo se esticar meus pés. Abraço meus joelhos e rodopio. Perco a noção espacial. Onde é para cima? Onde é para baixo? Doce sensação de bem estar. Seria assim no ventre materno? Em meio a esse estado tão sereno, me vem à lembrança um medo de uma forte dor de ouvido. Quando era criança tinha muita dor de ouvido um ou dois dias após ir à praia ou à piscina. Então, ficou registrada em mim a certeza de que ao entrar água nos meus ouvidos eu seria sempre amaldiçoada com muita dor. E ainda no fundo, totalmente inebriada com o grande prazer de estar leve e em paz, percebo que a minha resposta sensata vai eclodir. Costumo ser muito competente para dar respostas racionais. Dou um basta no meu prazer. Vou para a superfície e respiro. E penso que já foi bom. Queria ficar mais, mas me conformo com o que foi bom. Afinal, não vou querer ter dor de ouvido. Certo? Certo... E me aprumo. Seguro na borda. Abro os olhos. Há gente em volta. Alguns, sonolentos, esticados ao sol e preguiçosamente largados, parecem me olhar. Será que olharam? Tanto faz. Grito para mim mesma que não ligo. Decido que é hora de fazer outros exercícios. Não vou afundar nem deixar mais entrar água nos ouvidos. Agora vou nadar em vários estilos. Deito-me de bruços na água e inicio com uma escalada. Estico um dos braços e com a mão agarro uma corda imaginária. Alterno os braços. Já não estou com frufrus nem coque. Minha escalada exige força, mas principalmente coordenação e aproveitamento dos movimentos. Os joelhos se dobram, os pés empurram. Deslizo na água. Meus braços são como os remos num barco quando um bom remador os maneja. Gosto de voar nessas escaladas. Parece que escuto a voz da minha professora dizendo para ir mais rápido, mais rápido, mais rápido. Estou voando! Meu coração dispara. Sinto um alarme dentro de mim e diminuo a velocidade. Preciso me reequilibrar. Inspiro e expiro. Repito até me sentir bem. O alarme já parou de tocar. Largo a corda e passo a nadar de peito. Meu coração volta ao normal. Nada de correr mais. Agora o que importa é a resistência. Tenho ritmo e uma perfeita coreografia entre minhas pernas e braços. Minha cabeça afunda pouco. Obviamente, não posso permitir entrar água nos meus ouvidos. Não me sinto cansada. Posso nadar dezenas de vezes percorrendo a extensão da piscina. E vou e volto e vou e volto. Lembro que é preciso compensar a coluna. Viro e nado um pouco de costas. Olho para o céu. Admiro as nuvens. Identifico rostos e bichos. Eles somem rápido. Como se brincassem comigo. Costumo rir. Aparecem outros. Muito legal! Volto para o peito. E vou e volto e vou e volto. Imagino que seguro um monte de balões com gás. Eles se soltam de minhas mãos. Não me apavoro. Até acho divertido. Busco pegá-los de volta. São meus pensamentos. Confesso que muitas vezes, ao capturar um deles e me dar conta do que se trata eu o solto novamente e deixo que ele fuja para bem longe de mim. Sensação de alívio. Sinto-me bem. Continuo nadando. Indo e voltando. E examinando os balões que consigo recapturar. E soltando quando sinto que é o que devo fazer. O relógio da piscina me mostra que já é momento de parar de nadar. Não me oponho. O dia ainda me oferece vários convites. Vou para a borda. Hora do alongamento. Para alongar os músculos da coxa, costumo tomar cuidado com meus joelhos. Assim como os ouvidos, os joelhos sabem me fazer sentir dor. E eu não gosto nem um pouco quando isso acontece. Pronto! Consegui dobrar e depois esticar muito bem minhas pernas. Alongo os braços. Giro os ombros para frente e para trás. Só falta agora segurar firme na escada e subir os degraus para sair da piscina. Do lado de fora olho para água como se precisasse agradecer e fazer uma despedida. Não falo, apenas penso. Logo voltarei. Isso é certeza! 

ESQUECIMENTO

Quarta, 08 Maio 2019 09:16 Escrito por
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Qualquer um que passasse por aquela mesa no restaurante português teria a certeza que se tratava de um encontro de quatro velhos amigos. Os dois casais falavam e riam muito também. A intimidade entre eles se revelava nos olhares, na largueza dos gestos e até na maneira descontraída de se tocarem. As mulheres pediram cerveja. Os homens tinham que dirigir após a refeição e se limitaram a beber água. Não se encontravam há quase um ano. Pelas mudanças impostas pelas vidas já não se viam tanto. Quando se conheceram, se viam em todas as férias escolares. Isso foi no tempo em que uma família, a dos dois meninos, morava no Rio de Janeiro e a outra, a das duas meninas, morava em SP, mas tinha os avós em Copacabana. O mês de julho no Rio de Janeiro é um paraíso para os paulistas. Eram trinta dias de praia com as crianças, que faziam buracos e castelos, corriam e entravam na água gelada destemidos e felizes da vida. As mulheres conseguiam conversar, enquanto os maridos vigiavam os pequenos. As crianças se divertiam muito e reclamavam a plenos pulmões quando eram avisadas que fossem para água tirar a areia, pois logo iriam para casa. A farra das meninas na praia tinha um horário rígido para terminar. Era até meio dia, nunca um minuto a mais. Era como se algum encanto, parecido com o da carruagem da Bela Adormecida, fosse se desfizer. Provavelmente, o motivo da rigidez fosse que as netas de um general tinham que aprender a respeitar regras desde cedo. Pediram bolinhos de bacalhau e escolheram os pratos principais. Tinham então todo o tempo para saberem uns dos outros. Falaram da saúde. O tema não ocupou muito do tempo deles. Não chegou nem a ser como um aperitivo. Logo passaram a falar dos filhos e netos com a sabedoria de se conterem nos exageros próprios da gente da idade deles. Pareceu um rápido trocar de bolas numa mesa de pingue pongue. Os filhos e suas famílias estão bem. As filhas e suas famílias também. Todos os netos são lindos e inteligentes. Os bolinhos chegaram e foram degustados com sonoras exclamações de contentamento. Os amigos então trouxeram para a mesa um pouco da política, mas bem pouco, salpicaram de forma quase fugaz a roubalheira e a corrupção, a administração pública pouco eficaz, a falta de saneamento básico, a insegurança e o medo. Como sempre acontece em reuniões de grupo, após as manchetes, um dos assuntos pinça a atenção, ou melhor, cutuca a emoção de alguém. E, em geral, o grupo embarca nesse caminho. O medo foi a escolha daquele grupo para aquele encontro. Somos cidadãos reféns dos bandidos. Não dá para sair à noite sem preocupação. Um falava e os demais concordavam. O pai das meninas, visivelmente perturbado, começou uma fala que vinha de um lugar bem de dentro dele. Minha cota de horror eu já paguei faz tempo... Sua esposa confirmou enfaticamente. A mãe dos meninos parecia querer pegar alguma coisa no ar, sem conseguir. Foi mesmo... Faz quanto tempo? Foi quando nossa filha mais velha era bebê, então foi há mais de quarenta anos. A comida chegou. O aroma da delícia que estavam por degustar os calou. Tudo muito gostoso, no ponto de cozimento e nos temperos. A apresentação dos pratos era um convite a mais para o prazer que estavam desfrutando. Como quem sabe que vai incomodar, a mãe dos meninos iniciou uma fala hesitante. Eu não consigo lembrar... Do que você está falando? Não consigo lembrar o fato que aconteceu com você, que deve ter sido tão terrível e, certamente, você já nos contou. Estou pensando e fazendo força para lembrar, mas não tenho a menor ideia de como acessar essa experiência que você viveu. O marido dela fitou-a com preocupação. Ela lhe perguntou se ele lembrava. Claro... O protagonista tomou as rédeas e após esvaziar a boca de uma garfada bem cheia começou o relato. Morávamos em SP, perto do aeroporto, eu estava chegando do trabalho, portanto estava de terno e gravata. Parei o carro na frente de casa, mas nem estacionei. Lucia já estava na rua para ir comigo buscar rápido um remédio na farmácia. Fomos e voltamos muito rápido de fato. Quando chegamos, Lucia saiu do carro, enquanto fui procurar um lugar para estacionar. Não tínhamos garagem na nossa casa. Assim que saí do carro, fui abordado por dois homens. Um era negro e o outro branco. Estavam armados. Entendi imediatamente do que se tratava. Mandaram me entrar no carro. Expliquei que eles podiam levar o carro, que podiam levar tudo... mas eles não estavam para conversa. Rudemente me enfiaram no banco traseiro. O motorista deu a partida e o carro saiu desabalado. Os dois estavam transtornados, gritavam comigo e um com o outro, enquanto o motorista seguia veloz e sem parar em nenhum cruzamento.  Embora eu estivesse com medo, dirigi minha palavra à dupla para lhes dizer que dirigindo assim, logo teríamos um acidente e iríamos morrer os três. O homem que estava no assento do passageiro me fuzilou com o olhar e me mandou calar a boca. Eu não podia fazer outra coisa. Num dado momento eles pararam o carro e me mandaram sair. Foram me empurrando para a traseira do carro. Abriram o porta-malas e me disseram para entrar lá. Eu não queria acreditar que aquilo estava acontecendo. Queria pensar em alguma coisa inteligente que me ajudasse a sair daquele pesadelo. Fui atingido por uma pancada na cabeça. Entra logo! Quer morrer? Não sei como me dobrei e me acomodei naquele espaço. Quando bateram a porta e o escuro se tornou meu acompanhante senti que o pavor percorreu meu corpo e se instalou lá. Não dá para imaginar como é passar por uma situação dessas! Que horror! É, mas me deixem continuar. O carro saiu cantando pneus e logo alcançou uma velocidade tremenda, ou pelo menos assim parecia de onde eu estava. Imaginei que estávamos nos afastando cada vez mais dos lugares da cidade que eu conhecia. Depois de um tempo que não me foi possível definir, pois naquela situação cada minuto era como uma hora, eles pararam e fiquei abandonado sem saber onde estava, nem o que estava acontecendo. Quando voltaram, pelo barulho e algumas falas, entendi que haviam assaltado algum lugar. Talvez esse fosse o motivo de terem pego meu carro. Quando o carro voltou a se mexer passei a pensar na aflição da minha esposa, que não devia estar entendendo o que poderia estar acontecendo comigo, que não entrava em casa. Quase ao mesmo tempo, pensei em como eu estava feliz com ela e a nossa bebezinha. Será que tudo ia acabar assim? Que morte mais estúpida! Cheguei a pensar que para acabar assim, seria melhor não ter casado, nem ter tido uma filha. Eu sentia alguma coisa bem maior que um pavor, mas sabia que precisava me controlar. Eu mais chacoalhava que balançava dentro do porta-malas, afinal tenho quase dois metros. Naquele espaço ínfimo, meu corpo dobrado e comprimido começava a me incomodar. Ainda bem que não me amarraram. Minhas mãos estavam livres e através delas foquei meu raciocínio. Tateando consegui achar e pegar uma chave de roda. Mantive-a na minha mão. Isso me deu uma impressão de possibilidade de defesa. Isso me ajudou a voltar ao meu equilíbrio, ou algo mais perto disso. O carro não parava e seguia por ruas bem esburacadas, ou talvez, pensava eu,  fosse alguma estrada sem asfalto de algum bairro de periferia. Todos já estavam quase no fim dos seus pratos. Nunca escutei essa história... Já escutou sim, tenho certeza que contei para vocês. Nada, nem uma fagulha pequena que me faça recordar esse seu trágico incidente... Quer saber como terminou? Quero sim! Bem, eles acabaram parando o carro num lugar ermo e me soltaram. Entregaram-me as chaves do carro e um deles, pasme, até me disse para ter cuidado, pois a polícia estava atrás do carro e poderiam atirar em mim. Puxa! O bandido ficou bonzinho? Pode ser, mas não tive essa impressão na hora... Não sabia onde eu estava. Estava exausto, em choque. Peguei o carro, mas não fui longe. Estava fugindo dos bandidos e também da polícia. Larguei o carro e segui andando sem saber para onde ir. Os ladrões não levaram meu dinheiro, nem meus documentos. Eles só quiseram usar o carro para aquele assalto ou alguma coisa deu errada e eles abortaram os planos no meio da operação. Na hora nada fazia muito sentido. Segui andando por uma estrada de terra totalmente vazia. Não chovia, não lembro de sentir frio. Eu era alguma coisa como um zumbi caminhando sem saber para onde. Por sorte, ao descer uma ladeira, avistei uma casa com luz. Bati palmas, bati na porta, soquei a porta e gritei que precisava socorro. Custaram a abrir. Levaram uma eternidade para aparecer. Um homem, uma mulher, dois rapazes... toda a família veio ver o que estava acontecendo. Notei que tiveram medo de mim quando me viram. Tentei falar devagar, baixo e de forma mais coerente possível, mas sei que nos primeiros instantes não devo ter me saído assim tão bem. Devo ter repetido muitas vezes palavras e gestos na tentativa de provar que eu era uma pessoa de bem. Não sei como, mas afinal entenderam que eu havia sofrido um assalto e estava lá para pedir ajuda. Ligaram para polícia. Liguei para meu cunhado. Pedi para ele avisar minha mulher. Dali para frente tudo já parecia muito distante de mim, como se fosse um filme. Eu devia estar bem próximo da exaustão. Quando cheguei em casa era uma pessoa bem diferente daquela que estava chegando algumas horas antes. Mas, só posso agradecer, foi um final feliz. Nunca mais esse episódio saiu da minha mente. Ele está lá num cantinho e volta de vez em quando, como aconteceu hoje. Foi um dos piores momentos da minha vida. Você teve sorte. Muita sorte! Verdade... Vamos dividir o que sobrou? Vamos! Está muito gostoso! Eu não consigo me conformar... Como posso ter esquecido? Não encana! Sério... Não parece estranho esquecer uma história dessas? Não dê tanta importância... Vamos pedir sobremesa? Pastéis de Belém? Café? Café para os quatro, dois pastéis de Belém e a conta. Quem há de saber dos mistérios da nossa mente? Que sensação um esquecimento como esse me provoca! É como estar vasculhando armários à procura de um documento sem êxito. E, para piorar, escutando vozes me dizendo que o documento está lá. Quantas outras passagens da minha vida já podem ter ido para esse lugar inalcançável para mim? Quantas mais irão? Deixa isso pra lá menina! E tome seu café antes que esfrie...

PEIXINHO E O GRUPO DE TRÊS

Quarta, 20 Março 2019 15:45 Escrito por
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Na minha infância, vivi no Rio de Janeiro. Quase todos os dias, minha mãe, meu irmão e eu íamos à pracinha Afonso Pena. As primeiras lembranças que me vêm à mente são das escadas que tínhamos que descer para chegar à praça e dos muitos bancos de pedra onde as mães podiam se sentar, conversar e eventualmente nos vigiar. Lá podíamos andar de bicicleta, brincar de queimada, de polícia e ladrão, mímica, danças e uma infinidade de brincadeiras que inventávamos na hora. Não morávamos tão perto. Pode ser que, da Rua Aristides Lobo, onde morávamos, até a pracinha, não se levava mais que meia hora, mas para as minhas perninhas curtas era um trajeto longo e exaustivo. Na ida e na volta, eu ia reclamando e tentando fazer mamãe me dar colo. Invariavelmente, eu pedia para parar para tomar guaraná. Por favor, mãe, eu choramingava, todas as crianças param um pouco, se refrescam e tomam guaraná... Mamãe deve ter feito treinamento num quartel e sabia responder firme e forte que não. Ela me dizia para fingir que estávamos num deserto. Pelo tanto que escutei essa frase, imagino que minha mãe acreditava no valor desse exercício. Para não ouvir minha choradeira, mamãe entoava um hino que devia ser a abertura de uma novela do rádio. Logo meu irmão e eu nos juntávamos na cantoria. Foram tantas as repetições e tamanho era o entusiasmo com que era cantado, que esse hino grudou em minha cabeça e até hoje o sei de cor: “Abram alas que passa um cortejo, ao compasso de um hino de glória. Vale um beijo por vitória. Haja luta que eu quero venceeeeeeeeer! Somos dois e valemos o mundo. Somos dois, por enquanto e talvez se as vitórias forem muitas formaremos um grupo de trêêêês!” Ao cantar essa música, Julio, mamãe e eu nos dávamos as mãos, tornávamos cadenciados nossos passos e assim a caminhada seguia mais rápida e até animada. Na minha memória, havia na pracinha um lago enorme e perigoso que tinha as águas escuras. Na minha visão de menina de não mais que sete anos, ir pescar naquele lago era um desafio que só os muito valentes conseguiam enfrentar. Meu irmão e todos os seus amigos pescavam no lago. Minhas amigas não gostavam nada disso e nem chegavam perto, mas eu sentia uma atração irresistível e invariavelmente me juntava com os amigos do meu irmão para a pescaria. Ainda lembro os avisos da mamãe: Podem pescar, mas cuidado! Dois meninos já caíram nesse lago... E não coloquem a mão na boca, nem nos olhos depois de molhar nessa água imunda! Tem gente que de noite faz xixi nesse lago...! Mamãe sabia como ser convincente. Não usávamos vara. Pescávamos com caixinhas de papel de sorvete Kibon que achávamos jogadas pelo chão da praça. Trazíamos de casa um arsenal de pequenas bolinhas de miolo de pão. Tínhamos que ficar quietos e agachados, segurando a caixinha na água com a isca flutuando por cima. Quando um peixe aparecia para fisgar o miolinho de pão, tínhamos que ser ágeis e levantar a caixinha com o peixe dentro. Quando alguém pescava era uma gritaria danada. O pescador ficava eufórico como se tivesse feito um gol ou tivesse acabado de ganhar uma partida de algum jogo. Só consegui pescar naquele lago um peixe. Não fiz nada de diferente das outras de vezes. Tive sorte.  Foi um momento de glória. Meu irmão e seus amigos me rodearam. Até me deram parabéns. Será que realmente alguém me carregou no colo ou isso é invenção da minha cabeça? Corri para mostrar para mamãe. Ela, distraída, conversando com as outras mães, não deu muita bola. Sem olhar direito para o peixe, apenas falou: Ótimo querida, agora o devolva para o lago. Como assim? Nem pensar! Depois de tanto trabalho não era certo deixar meu troféu para trás. “Olhe, mãe, como ele é lindo! Vou leva-lo para casa.” Para grande espanto meu, nem houve discussão. Mamãe concordou. Levei o peixinho com muito cuidado e posso imaginar que ainda assim a água da caixinha de sorvete foi derramando pelo caminho. Quando chegamos em casa, corri para o banheiro e enchi de água a banheira. Agora sim meu peixe teria um local apropriado. Ele pareceu gostar daquele aquário grande e improvisado que lhe arrumei. Tomei banho com ele. Claro que só eu me ensaboei. Por algum motivo, que hoje não consigo decifrar, entendi que não deveria lavar o meu peixinho com sabonete. Ainda lembro como gostei de segurá-lo em minhas mãozinhas. Eu me esforçava para não deixa-lo escapar, mas ele era esperto e conseguia se desvencilhar de mim. Parecia que ele entendia a nossa brincadeira e eu entendi que ele era meu animal de estimação. Experimentei uma alegria enorme, diferente de outras que já haviam me acontecido. A brincadeira mudou e passei a jogá-lo para cima. De início devagar, mas como ele também estava gostando, fui aumentando as distancias. Teve vezes que eu o atirava bem para cima mesmo, o peixinho quase batia no teto. Adorei admirar seus mergulhos espetaculares. Meu peixe parecia estar se divertindo como nunca! Ele jamais brincou desse jeito naquele lago de xixi. Quando escutei a voz da mamãe chamando meu nome, senti pena de ter que interromper minha alegria. Como não respondi, mamãe veio pessoalmente me fazer sair do banho. Foi duro ter que parar a brincadeira para ir almoçar. Engoli a comida sem prestar a mínima atenção nas conversas que aconteceram e nos alimentos que ingeri. Estava com pena de ter que ir para escola. Cheguei a ensaiar um jeito de não ter que ir. Quis levar meu amiguinho para escola. Mamãe não deu trela para nenhuma dessas conversas. Entrei no banheiro e expliquei para o peixinho que logo estaria de volta. Entendi que ele ficou feliz em saber e fui vestir meu uniforme correndo. Já estava bem atrasada para pegar o ônibus escolar, mas antes de sair de casa quis me despedir mais uma vez do meu novo amigo. Encontrei-o deitado de costas. Mexi nele, mas ele não reagiu. Quis acreditar que estivesse dormindo, afinal ele brincou muito e poderia estar cansado. Acorda, sussurrei já me deixando levar por uma emoção muito forte e estranha para mim. Acorda!!!! Por favor, acorda! Devo ter entendido o que aconteceu e comecei a chorar. Mamãe apareceu. Meu irmão também. A pressa de ir para escola sumiu. Estávamos os três e o peixinho no banheiro. Lembro, ou construí a cena, de estar abraçada com mamãe e Julio. Mamãe disse algumas palavras, possivelmente sobre a vida do peixe e logo, muito prática e cheia de nojo, capturou-o com uma saboneteira, jogou-o no vaso sanitário e puxou a descarga: “Vá peixinho, vá em paz!” Fiquei atordoada. A pressa de não perder o ônibus escolar havia voltado. Crianças escutem a buzina, o ônibus já chegou! Vamos correr! Ainda atordoada, fui atrás do meu irmão, cumprimentei Seu Silvério, o motorista, e me acomodei num banco do ônibus. Meus pensamentos não se acomodavam. Eu estava num ônibus em movimento e minha alma estava presa no que havia acontecido. Não entendi como foi possível meu peixinho acabar assim. As copas das árvores passavam pela janela do ônibus. Parecia que ele estava tão bem, tão feliz...  

A PEQUENA E SEU HERÓI

Sexta, 15 Março 2019 09:13 Escrito por
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Eu não dormia sozinha quando era criança. Meu irmão e eu dividíamos o mesmo quarto. Duas camas, uma caixa de brinquedos e um armário para nossas roupas. A janela não tinha grades nem redes e nunca nos atrevemos a fazer nenhuma estripulia. Julio tinha medo do escuro e enxergava o Lobo Mau nas sombras sinistras que apareciam nas nossas paredes todas as noites. Ele era mais velho e para mim era o modelo perfeito. Talvez nessa época tivéssemos cinco e seis anos. Nossa diferença de idade era exatamente um ano e vinte dias e sempre motivava espanto em quem ficasse ciente dessa realidade.  Ouvi mais de um adulto falar que meus pais não perderam tempo e isso me fazia variar de confusa a orgulhosa. Meu irmão era mais forte e mais alto que eu. Ele corria, pulava, nadava e fazia tudo melhor que eu. Quando jogávamos jogos de tabuleiro, invariavelmente eu perdia e choramingava me queixando para mamãe que ele ria de mim e não sabia ganhar. Essa minha atitude nunca me rendeu nenhum conforto, pelo contrário. Tinha que escutar as risadas mais altas do meu irmão e a voz da minha mãe me dizendo para deixar de ser boba. Ele teve facilidade para aprender a ler e lembro bem dele se deleitando quieto durante horas a fio com seus livros. Julio foi capaz de ler sem parar “Os doze Trabalhos de Hércules”, de Monteiro Lobato. Eram dois tomos. Fiquei imensamente admirada dessa sua proeza. Mais que admirada, fiquei chocada. Era um atestado da sua superioridade. Nunca cheguei perto desses livros. Resolvi que não eram para mim. Foi assim que eu iniciei uma construção de minha imagem com tijolos débeis. O material bom e forte estava no Julio. Por pouco eu poderia ter ficado irremediavelmente complexada, oprimida e abafada.  Não me lembro dele me ensinar a ler ou ler comigo algum livrinho. Na escola, fui aprendendo e fazendo progressos e ler se tornou algo que, como Julio, também me enchia de prazer. Eu gostava de me mostrar, gostava de aplausos e beijinhos. Era uma irmã caçula buscando farelos de aprovação em cada cantinho da vida. Todas as noites, tínhamos que ir dormir na hora que a TV avisava o início do Repórter Esso. Era um toque odioso. Uma trombeta insistente. Quando esse momento chegava, mamãe se tornava uma bruxa surda e louca que apontava para o banheiro para escovarmos os dentes e depois nos arremetia nas nossas camas. Nada do que argumentávamos adiantava para rompermos a regra do toque de recolher na hora do Repórter Esso. Mamãe nos cobria e nos dava um beijinho. Por fim, já quase fechando a nossa porta, nos dizia todas as noites a mesma frase em idish “Gai Schlufn mit Guesint ”. Mais do que o significado, “vá dormir com saúde”, eu entendia que eram palavras que vinham de muito longe e tinham um estranho poder. Com esse ritual, era para dormirmos imediatamente. Mas, quando o escuro tomava conta de nosso quarto, meu irmão se transformava ou era invadido por alguma alma muito medrosa. Não posso afirmar se eu tinha sono e adormecia. Nem sei quantas noites de fato presenciei seu pavor ao se deparar com o bicho assustador e mau. Eu poderia pegar na sua mão e conversar um pouco com meu irmão. Não acho que fiz isso. Poderia ter ido para caminha dele. Poderia tê-lo abraçado e sussurrado uma melodia doce para espantar seu medo. Não fiz nada disso. Se Julio via o Lobo, era por que o lobo estava realmente no nosso quarto. Se eu não o enxergava, era por eu ser ainda pequena e não tinha a habilidade que ele tinha. Lembro vagamente que mamãe e até papai entravam no quarto para acalmar meu irmão. Lembro-me, também muito esfumaçado, que o Lobo sumiu e passei a escutar que eram ladrões que estavam em casa. Nessa fase, após o toque de recolher e antes de deitar, meus pais faziam um giro com Julio pelo nosso pequeno apartamento, verificando com ele todas as portas e janelas. Não adiantava. Claro que não, afinal, monstros e pavores não obedecem a trancas. Eu poderia ter feito carinho nas suas costas e na sua cabeça até que ele adormecesse em paz. Não fiz. Creio que eu rezava em silencio para que o dia fizesse meu irmão retornar ao que era. Eu tenho quase certeza que rezava e dizia que não iria me importar se ele risse de mim quando ganhasse nos jogos. Como era grande o medo dele! Não sei como, nem quando exatamente, mas tudo isso passou. Minha mãe nunca deixou de nos beijar, de nos cobrir e de nos dizer a frase em idish. Hoje, sou adulta. Não consigo dormir sem me cobrir. Antes de fechar os olhos, sempre procuro a foto da mamãe, do papai e a do meu irmão. Ainda escuto aquela voz doce me bem dizendo em idish. Em muitas noites enxergo minhas mãos entrelaçadas com as de meu irmão. Quando no escuro das altas horas me reviro e não acho o rumo da serenidade, lá de uma foto, ou talvez de bem mais longe, me chegam sussurros em forma de acalento e mantra: Gai schlufn mit guesint, Gai schlufn mit guesint, Gai schlufn mit guesint...
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