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VOCÊ QUER SABER MESMO A VERDADE?

Quarta, 20 Fevereiro 2019 16:42 Escrito por
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Não era um temporal, mas chovia com gosto. Assim que chegamos, percebi que estávamos num hotel muito gracioso. Bichos de madeira de vários tamanhos e modelos, que tive certeza serem originários de Minas Gerais, estavam cuidadosamente espalhados por toda a propriedade. Quadros e enfeites nas paredes tentavam capturar minha atenção, mas as janelas com vistas para a natureza exuberante me fisgaram. No nosso chalé, me emocionei com uma colcha de patchwork. Alertei meu marido para o que tínhamos tão à nossas mãos: era uma arte esticada numa cama. Senti um chamado forte para entender a história daquela colcha. Meu marido embarcou comigo nessa fantasia e ficamos de mãos dadas saboreando o desvendar daqueles pedaços de tecido. Tínhamos tempo. Esse era o maior luxo.  Um final de semana só nosso. Quando sentimos vontade de comer alguma coisa, fomos nos dar conta que já era hora do jantar. Na verdade, faltava pouco para acabar o horário dessa refeição. Nosso quarto ficava no alto e uns cinquenta metros distante do refeitório. Não havia proteção, mas tínhamos guarda chuvas. Ainda dentro do chalé, mas com a porta aberta, eu olhava para o chão e via pedras, grama e lama. Eu não enxergava, mas havia certamente diabinhos prontos para derrubar incautos. Ou era esse o meu medo. Não nasci com medo de cair. Adquiri essa fobia após a queda que tive há mais de dez anos e que resultou na perda de um dente. Sempre tive dentes bonitos e fortes. Foi muito traumático enxergar o caco que restou após o tombo bem na frente de onde antes eu estampava meus sorrisos. Qualquer um que já caiu e se deu mal sabe bem a que estou me referindo. Recentemente meu marido caiu e fissurou uma costela. Sua queda foi causada por um acidente doméstico besta. Era uma tarde de sábado, hora de sossego e descanso. Rony estava sozinho em casa. Começou uma chuva forte e ele correu para fechar a janela da cozinha, pois estava entrando água. Ele escorregou, bateu a cabeça e caiu de lado. Então, de volta para cena do hotel, olhando para o chão lamacento, carregando meu pavor de cair e sendo empurrada pelo meu marido, eu surtei. Surtei de um modo diferente. Fomos para o refeitório. Não caímos, não aconteceu nada. Só me lembro da tensão. Andava como se estivesse em cima de uma corda bamba e sem rede protetora. Eu estava agarrada no marido tanto para evitar minha queda como a dele. Lembro que afirmei que não queria ir. Lembro que ele insistiu para eu deixar de bobagem. Notei que ele colocou o guarda chuva para me proteger melhor e assim estava se encharcando. Eu, orgulhosa, precisei clarificar: não tenho problema com a água, pode colocar o guarda chuva direito. Meu medo é de cair. Ele seguiu do mesmo jeito. Andamos aquele percurso em alguns minutos, mas a sensação foi bem diferente. O barulho dos pingos da chuva batendo no guarda chuva estava me remetendo a uma cena de um tiroteio. O escuro em torno de nós me avisava que uma queda não teria testemunhas. Meu marido devia estar pensando em coisas bem distintas. Não parecia nem com medo, nem assustado. Ele dava passos com firmeza e assim fez com que chegássemos ao nosso destino. Fomos saudados no refeitório como atletas que rompem a fita da chegada de uma corrida. Ou foi assim que interpretei o cordial “boa-noite” acompanhado de um gesto largo e efusivo do “maître”. Música, vinho, gostosuras e nada da minha tensão sumir. Queria não estar assim, mas estava. O meu botão do pânico parece que reverberava e fez acionar outros pontos que, em geral, ficam adormecidos. Não sei que música estava tocando. Tomei um caldo verde. Tinha frutos do mar. Sou alérgica. Queria sair daquela onda que havia me pegado. Tentei fazer umas inspirações de olhos fechados e soltar os ombros expirando. Na terceira tentativa, notei que meu marido balançou a cabeça. Em seguida, ele achou que seria apropriado dizer: Será que deveríamos ter ficado no quarto? Eu respondi com uma prontidão que deve ter vindo das minhas profundezas: Claro! Então ele se assustou. Fale mais baixo. Devo ter gostado. Vou falar desse jeito. Custa... ? Custa! Que bobagem, você vai estragar nossa noite assim?  Não quero estragar nada. Deixe-me ficar quieta. Melhor mesmo. E fiquei na minha. Lembro que meus pensamentos estavam borbulhando.  Fui buscar entender o que estava sentindo. Percebi um fio e fui puxando. Não sou muito boa para expressar minha raiva. Quando falo mais alto, tento colocar algum sentimento para fora. Meu marido, que foi educado em tons médios e baixos, não tolera brados e corta direto. Eu, que conheci a voz de trovão de papai, reajo com mais força. De onde pode vir essa raiva? Eu só identificava medo. Queria fechar os olhos e confiar em meu marido, mas o tamanho do meu pavor me dava certeza de que não podia fazer isso. Queria que ele tivesse me entendido e não me forçado. Ou queria ter conseguido não ir. Isso! Como uma flecha desvairada, a raiva que estava sentindo oscilava ora na direção dele, ora na minha. No meio do salão, sobre uma mesa redonda, um lindo palhaço italiano. Que peça maravilhosa!  A chuva seguia lá fora. Logo voltei a imaginar os diabinhos à espreita, mas desta vez sorri. Meu marido notou e deu um suspiro. Eu quis implicar com sua reação, mas abafei o caso e me voltei para meu prato. Era um risoto de funghi. Ele, todo gentil, quis saber se estava gostoso. Muito. Muito gostoso. Passou? O quê? Sua maluquice. Ah! Jura? Quer mesmo saber? Xi! Não. Pena que você não pode provar essa lagosta... Rimos. Rimos muito.  

UM FIM DE DIA INESQUECÍVEL

Quarta, 30 Janeiro 2019 17:01 Escrito por
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Parecia que já era tarde. Na verdade, era hora do jantar das crianças, então não devia passar das dezenove horas. Meu cansaço fazia com que o meu relógio interno marcasse quase meia noite. Os dois meninos chegaram animados da escola. Era sempre assim. Fazia calor. Morávamos no Rio de Janeiro, onde o suor escorria o tempo todo, a não ser nos minutos debaixo do chuveiro. Sugeri que tomassem banho enquanto eu colocava a comida na mesa. Eles se largaram no sofá e ligaram a TV. Depois tomaremos banho. Está bem. Não durou muito tempo e percebi que cada um queria assistir um programa. Claro, senão não teria graça. As argumentações de ambas as partes foram se incendiando. As vozes viraram berros. O mais velho pegou o controle. O menor achou que era um convite para brigar. Quando cheguei à sala estavam embolados no chão. Parem com isso! Era uma briga misturada com brincadeira. Havia muita risada. Em geral, eu sabia que quase nunca essas situações acabavam bem. Então, começou a correria pelo apartamento. Era um apartamento de menos de oitenta metros quadrados. Os dois seguiam rindo. Eu estava cansada. Não estava com força nem para gritar, quanto mais para correr atrás deles e fazê-los sossegar. A intensidade dos risos, da correria e da bagunça chegou ao auge. Pensei comigo o que pode acontecer se uma única vez eu não me meter e deixa-los resolver sozinhos? Fui para cozinha. Os vizinhos deviam estar pensando que meus filhos estavam se matando. Era para eu me preocupar, mas dei de ombros, que se danem os vizinhos. Abri a geladeira e fui fisgada pela silhueta estimulante da garrafa de um refrigerante. Um gole iria me reanimar com certeza. Naquele tempo, os refrigerantes vinham em garrafas de vidro. Naquele tempo, eu ainda comprava refrigerante uma vez ou outra. A garrafa estava quase cheia. Tinha uma colherzinha no lugar da tampa. Meu marido um dia veio com essa novidade. Assim o gás não saía. Ele era o engenheiro da casa e se isso lhe agradava tanto, que mal havia em fazer? Quanto ao gás... Sei lá. Peguei a garrafa com uma das mãos. Foi tudo muito rápido. Da cozinha, ainda que de porta fechada, eu escutava o barulho infernal das crianças. A garrafa estava suada. Eu estava antecipando o prazer de beber aquele líquido gelado. Já podia até me sentir na neve com os ursos polares em um dos comerciais do refrigerante. Nem alcancei colocar o líquido no copo. A garrafa escorregou da minha mão. Na verdade ela deslizou. Foi direto para o meu pé. Eu devia estar dando um jeito na situação, fazendo os meninos sossegar, mas fui incapaz. Que dor! Escutei a chave na porta. Marido chegando. Sem vê-lo, pude imaginar sua aparência cansada de fim de dia. Aliás, páreo duro com a minha. Imaginei que ele poderia estar pensando que mãe é essa que nem consegue manter os filhos em paz? Essa era eu. Acontece. Errei. A dor estava lancinante, estava prestes a desmaiar. Não! Nada de desmaiar. Respirei fundo. Entrei na sala com a bolsa a tiracolo, com o dedão sangrando enrolado num pano de cozinha e avisei que estava indo pegar um taxi em direção a um pronto socorro. Eu levo você. Vamos todos juntos. Foi a minha vez de berrar: Não! Você fica com eles! Os pronomes foram ditos com clareza e muita ênfase. Feito uma louca me joguei para fora do apartamento. Eu tinha pressa. Pressa de fugir. Fugir da bagunça que reinava por minha falta de competência ou energia ou ambas as coisas. O dedão fraturado me possibilitou descansar e refletir por algumas horas dentro de um pronto socorro, que naquele momento me pareceu um lugar quase bucólico comparado com meu lar.

O FORMULARIO

Quinta, 13 Dezembro 2018 16:54 Escrito por
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Junto com a correspondência, veio um formulário para ser completado. Ao perceber em mim um ar de “pra que isso”, meu marido se apressou a explicar que era uma medida aprovada na reunião de condomínio e era para a segurança do prédio. O novo síndico quer que todos os moradores atualizem seus dados. Isso significa, em primeiro lugar, os nomes, telefones e e-mails. No mesmo formulário tem a parte que corresponde à garagem e os carros que a utilizam. Até aí fácil e rápido. Por fim, três nomes de pessoas a quem devam procurar em caso de urgência. Aí pegou! Essa parte ficou reverberando estranhamente dentro de mim. Como tenho dois filhos, pensei que nada é mais correto que lhes incumbir desta tarefa, quando ocorrer essa triste necessidade um dia. Preenchi as duas linhas sem querer entrar nas discussões que pipocavam na minha cabeça. E o terceiro nome? Caramba! Havia uma pessoa que sempre esteve presente e sempre me ajudou. Hoje ele é um executivo ocupado, viaja muito e não tem tempo para nada. Não posso colocar o nome dele. Certamente ele não estará disponível. Então quem? No prédio, apesar de mais de duas décadas morando no mesmo lugar, não sinto a intimidade necessária para convocar um vizinho para me socorrer. Não tenho o costume de entrar no apartamento deles. Imaginei ter que me expor, caída, mal arrumada, ou nua e suja... Não! Parece que estou de antemão me desculpando por algum trabalho que venha a causar, mas melhor não... Veio a minha mente algumas pessoas que já estão cuidando de outras. Achei que seria uma enorme falta de sensibilidade de minha parte aumentar a carga de uma pessoa assim sem mais nem menos! Não tenho irmãos e meus primos e tios moram longe de mim. Muitos dos meus amigos estão vivendo seus próprios e complicados problemas. Definitivamente, não cabem os meus nas suas costas. O espaço em branco foi aumentando. Quem? Uns dois porteiros do clube e todos os do meu prédio sempre me cumprimentam alegremente e sabem meu nome... Não. Não sinto que deva colocar o nome de um deles. Essa tarefa exige mais intimidade. Então minha cabelereira ou a manicure? Até podem ser, mas quero seguir pensando. Quem estaria por perto, disponível, forte e capaz de tomar decisões e encaminhar uma ajuda? Estranhamente, mas como costuma me acontecer, essa busca me jogou no passado. Dessa vez eu estava nos meus catorze anos, morava com meus pais e irmão num prédio, em Copacabana. Um dia chegando da escola, encontrei mamãe muito aflita e ela me revelou que a filha da vizinha do quarto andar tinha tentado se suicidar. Levaram a moça e sua mãe para o hospital. O pai que havia chegado minutos após, ficou sozinho e atordoado no apartamento deles. Sem trocar de roupa, beber água ou dar a oportunidade da razão ter alguma voz, fui ao encontro do homem atordoado e o acompanhei num taxi até sua esposa e filha no hospital num bairro vizinho. Não lembro nada além de chegar ao hospital e voltar para casa. Carrego junto com essa lembrança uma sensação de ter feito a coisa certa com rapidez. No entanto, e ainda bem, minhas reflexões atuais me apontam para a impulsividade da jovem que eu era na época. Com a pressa de resolver, me livrar da enorme angustia, muito provavelmente, consegui atropelar outras pessoas. Eu levei o pai para o hospital. Será que a esposa dele e sua filha o queriam lá? Será que um parente deles estava a caminho para fazer isso? E se eu não tivesse ido? Minha mente se desloca para lembranças de outras épocas. Ainda segui me adiantando e agindo como “heroína salvadora” em muitos momentos de minha vida. Era a minha busca de afeto e admiração. Possivelmente, algumas vezes, consegui essa tão desejada retribuição. Em outras, deixei que a inconveniência respingasse. Enquanto isso a terceira linha segue em branco. Esse espaço no formulário, que está tão complicado para eu preencher, me faz ir longe e fundo. Há quem nem vá acreditar, mas como sou dada a aceitar de cabeça convites de mergulhos dentro de mim, esse exercício de escolha me faz sentir pequenininha e encolhida. E ainda fraca. Frágil. Não consigo chamar ninguém. Estou molhada. Pode ser suor. Quero me mexer para demonstrar que vivo. Consigo um movimento com uma perna. Não sei se adiantou... Não ouço nada. O silêncio me preenche. É assim que me enxergo, tentando imaginar a tal situação de emergência. Para fazer a coisa bem difícil, meu marido não está por perto. Ele sim saberia me ajudar. Mas como uma regra de um jogo cruel, ele, no tal futuro, na situação de emergência, nesta que me força a escolher quem vai me ajudar, ele não estará por perto. O formulário parece gritar que não tem o dia todo para esperar um nome. Sinto, pela forma mais cadenciada e tranquila da minha respiração, que estou calma. Sei que o exercício deve terminar. Respiro devagar. Inspiro e solto. Sinto meu corpo. É como se fizesse uma chamada mental de cada parte... Dedos do pé? Presente! Joelhos? Presente! E assim vai. E então me alongo. Estou inteira novamente com a folha de papel e as opções que havia pensado para compor o trio salvador. Estou achando que esse novo síndico, sem nem de longe adivinhar o motivo, começou muito bem sua gestão.            

INESQUECÍVEL

Segunda, 19 Março 2018 09:10 Escrito por
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Era uma tarde quente de sábado, disso lembro muito bem. O ar condicionado estava ligado. A bandeja do almoço já tinha sido retirada, mas o cheiro do bife ainda estava passeando pelo quarto. A claridade entrava pelas janelas enormes do quarto de hospital que papai ocupava há uns três ou quatro dias. A vista do sexto andar parecia um quadro vivo: casas, árvores, céu azul, nuvens e até carros e pessoas em movimento. Eu olhava pela janela e me distraía, enquanto escutava o ronco forte do papai que cochilava. Papai estava cansado. Havia feito naquela manhã um exame invasivo no pulmão para saber se estava com metástase. Papai escutou um leve barulho de batidas na porta e despertou. Meus amigos entraram. Mauro e Eva. Vieram visitar papai. Mauro se aproximou do papai e ficou parado ao lado de sua cabeceira. Eva parou perto dos pés de papai. Vamos sentando gente, disse meu pai. E então, quais são as novas? Nenhuma novidade. Tudo igual. Foram essas as frases do meu amigo. Então manda uma piada... Ah! Sou péssimo para contar piadas e Evinha também. E as notícias de hoje? Eva se adiantou e respondeu que não haviam lido jornal, nem escutaram noticiário. Bem gente, então como vocês querem fazer uma visita a alguém que está num hospital? Quem está aqui preso gosta de escutar novidades, rir de alguma anedota ou acompanhar uma história ou caso como se estivesse vendo um filme. Aliás, vocês viram algum filme bom ultimamente? Muito sem graça, Mauro balançou negativamente a cabeça. Eva só fez concordar com o marido. Puxa! Assim está mesmo difícil, disse meu pai e continuou: Vou dar um jeito nisso. Eu fui assistir a um filme que gostei demais. Chama-se “Melhor Impossível” com o Jack Nicholson. Eu estava de espectadora no quarto, mas nesse momento me juntei a papai para reforçar como o filme era bom. Provavelmente, disse papai, tem algum shopping com cinema aqui por perto. Tem sim, disse a Eva. Provavelmente, continuou ele, esse filme deve estar passando. Os dois se olharam e concordaram com a hipótese do meu pai. Minha filha, que horas são? Quase três. Vai dar certo! Podem ir! Mauro e Eva não estavam entendendo. Vocês podem ir agora e voltem aqui amanhã para conversarmos sobre o filme. Assim vocês terão assunto. Um silêncio incômodo foi cortado pelo riso sem graça da Eva. Eu estou falando sério, disse meu pai com uma voz calma e baixa. Muito sério. De verdade. Vocês vão notar a diferença amanhã quando voltarem e estivermos animadamente conversando. Então... É mesmo pra gente ir? Eva ainda questionou. Papai soltou uma exclamação para não deixar nenhuma dúvida: Claro! Vamos Evinha, o pai da Rosali tem razão. Amanhã voltaremos. Após a saída de meus amigos, papai não voltou a cochilar, havia perdido o sono, mas estava bem. Respirava tranquilo. Notei seus pés. Eu sempre olhava para ver se estavam inchados. Não estavam. Tive a impressão de ver sua unha do dedão um pouco arroxeada. Deveria mostrar para alguma enfermeira? Achei que era impressão. Fui desviada desses pensamentos quando um médico, que eu nunca tinha visto, entrou no quarto sem bater. Usava o jaleco impecavelmente branco, bem engomado, era baixo, um pouco gordo, usava óculos de lentes grossas e devia ter uns setenta anos, como papai. Não lembro se ele se apresentou, nunca soube o nome desse médico. Sem fazer nenhuma introdução, foi direto ao assunto: Senhor Chaim, vim lhe contar o resultado do seu exame. O senhor sente cansaço, pois tem fungos nos pulmões. É uma coisa chata, demora a tratar e curar, mas é melhor que câncer. Bem melhor! Depois que o senhor se recuperar desse exame vamos começar a atacar esses fungos. O médico perguntou de forma protocolar se havia alguma dúvida e em seguida se retirou do quarto do papai. Depois do espanto e de alguns minutos para entender o que havia sido dito, a notícia foi comemorada e espalhada pelos quatro ventos para acalmar todos os amigos e a família. Assim que a agitação cedeu, papai quis ficar só com meu marido e assistir futebol. Pode ir Rosali e leve sua mãe. Descansem. Vocês aqui só vão atrapalhar, pois não gostam de futebol. Já vi vocês aqui hoje o dia todo. Chega. Eu estava acostumada ao jeito do meu pai e achei que ele tinha razão. Vamos mãe. Não fizemos uma despedida demorada, muito menos dissemos falas especiais, afinal não tínhamos a menor ideia do que estava por acontecer. Por conta de uma embolia pulmonar papai faleceu pouco depois que saímos. Foi inesperado. Foi um horror. Foi um pesadelo. Foi uma dor sem fim. Foi um nó na garganta que custou a desatar. Foi um desespero. Foi uma perda terrível. Foi há vinte anos. No dia seguinte, domingo, o casal que estivera sem assunto voltou, conforme havia sido combinado.      

JOGOS MODERNOS

Quarta, 28 Fevereiro 2018 16:52 Escrito por
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Eu ainda estava na cama tentando resolver o dilema de levantar ou me permitir um tempo de ócio a mais, quando o barulho do marido andando no corredor me fez decidir por colocar os pensamentos em ordem e ver o que tinha para fazer primeiro.  Decidi que o que queria fazer, antes de qualquer coisa, era lembrar o episódio que aconteceu no final da noite anterior. Chegamos de uma das nossas curtas viagens para o RJ. Quatro dias, muitos encontros e muitas emoções. Realmente muitas emoções! Emoções que ainda precisam ser mais bem digeridas, mas que, no momento, basta que se saiba que existiram. Comecei a lembrar de que quando saímos do aeroporto estava escuro e precisávamos achar um carro branco, de certa marca com um final de placa específico, acho que 73. A área de desembarque do aeroporto tem um espaço enorme, suficiente para uma caminhada saudável, mas eu não estava para isso àquela hora. Minha memória se juntou com a sensação de que estávamos num jogo que começou na escolha do aplicativo para encontrar o carro que nos levaria para casa. Não estou exagerando. Juro! Dá para ver pelo modo como meu marido se comporta cada vez que precisamos usar um veículo para nos transportar. Pegar um taxi virou a opção dos perdedores. Nós não! Meu marido tem três aplicativos, sendo que um ou dois deles se subdividem. Ele pode avisar que não tolera cigarro e vai gostar de ter balinhas e água para dizer que nem quer. Definitivamente nós conseguiríamos pegar um lindo carro, pelo menor preço e que fosse o mais rápido para chegar ao nosso destino. Assim que o avião pousou, meu marido pegou seu iphone e a busca começou. Seus dedos se moviam freneticamente e diante de uma e outra contrariedade um pequeno palavrão era cuspido de sua boca. Quando o carro era satisfatório, a distância que ele estava não era. Meu marido achou por bem me dizer que nossa cidade ainda não está entre as mais bem servidas deste tipo de serviço.  Eu já tinha conhecimento disso e devo ter respondido com um desses sons que não chegam a ser uma palavra. Da saída do avião até a saída do aeroporto há um percurso de cerca de quinze minutos. Durante os primeiros cinco minutos meu marido foi mexendo no seu aparelho e andando numa velocidade que me obrigou a ir bem mais depressa que meu corpo cansado estava querendo. A busca dele seguiu incessante. Ele passou a me mostrar quanto cada um cobrava. Meu marido estava com a faca e o queijo nas mãos para apertar um botão ou dar um comando e ganhar o tal jogo. Eu sabia que não era conveniente interrompê-lo e assim, após uns poucos minutos ele me anunciou triunfante que o nosso carro seria um HB, branco, com os números finais da placa, não tenho certeza, 73 e até disse o nome do motorista, que pode ter sido Rodrigo, ou outro qualquer. Como jogadores na última fase do jogo, passamos pelos portões do aeroporto em direção à área de desembarque. Agora só precisávamos achar o carro. Meu marido é mais alto que eu e com seu olhar consegue sempre varrer um campo bem grande. Andamos bastante de um lado para o outro. Fique perto de mim, ele me disse com uma voz firme, enquanto corria e buscava achar o carro que para nosso desgosto não estava facilmente à vista. No meu iphone diz que o carro está estacionado aqui. Experimentei dizer que o motorista poderia ter dado uma volta. Impossível! O aplicativo mostra que ele está aqui. Depois de um tempo, ousei dizer que não queria mais andar. Queria ir embora. Achei um lugar num banco e me sentei.  Empaquei. Meu marido começou a perceber que iria ser desclassificado do jogo. Ficou desacorçoado. Experimentei ajudar: Liga para o motorista. Já liguei! Ele não atende. Vou cancelar e buscar outro...  Nesse momento, enxerguei um taxi parado bem na nossa frente. O motorista do taxi saltou. Meu marido leu meus pensamentos e me disse que ele deveria estar aguardando alguém. O senhor está aguardando alguém? Não, estou livre. Quanto custa até o centro? O valor que ele deu era talvez 40% a mais que os carros que usam aplicativos. Rapidamente eu falei que o valor estava bom e que nós iríamos com ele. Meu marido entrou mudo no carro. Entre dentes me fez saber que ainda pagaríamos mais do que foi dito. Eu retruquei dizendo que pagaria quanto fosse. Ele foi eliminado do jogo. Estava amargando sua derrota, quando o motorista experimentou puxar conversa. Mudo ficou e eu troquei algumas falas com o motorista. Na porta de casa, meu marido me questionou se eu tinha dinheiro à mão. Achei minha carteira e tirei as notas para contar o dinheiro. Pronto! Por favor, confira se eu lhe dei o valor correto. O motorista contou e recontou. Não! A senhora me deu a mais. Ele me devolveu vinte e poucos reais. Boa noite e bom descanso! Vocês parecem cansados, mas já estão em casa e vão descansar. O senhor percebeu mesmo nosso cansaço. Boa noite para o senhor também. Meu marido se rendeu e desejou boa noite para o motorista. Game over.
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