Rosali Michelsohn

Rosali Michelsohn

Tem grande paixão por exercer a psicologia tanto no consultório, quanto como consultora organizacional. Escrever textos vem sendo um desafio e uma paixão semanal desde 8 de março de 2008. Publicou seu primeiro livro, Vista da Janela, em 2011.

DA MENINA GISELA ATÉ O BELGA QUE SÓ FALAVA PIU

Terça, 30 Junho 2015 15:27
Gisela nasceu na Alemanha em 1928. Tinha uma vida bem parecida com a de outras tantas crianças alemãs, até que o nazismo se instalou no poder. Gisela era judia. Seus sonhos e sua vida viraram de cabeça para baixo. Foi esse pesadelo que levou Gisela e outros 45 mil judeus alemães a emigrar para a Argentina. Não havia mais lugar para vestidos bordados e engomados, nem meias brancas  e sapatinhos de verniz. O cenário de sua vida passou a ser o campo. Suas roupas passaram a ser rústicas, tinham que ser apropriadas para alguém que cultivava a terra e cuidava de bichos. Não demorou a conhecer Ernesto. Com feridas e cicatrizes bem semelhantes às dela, ele lhe pareceu perfeito. Encontraram o essencial e o belo que havia em um e em outro. Souberam reconhecer que tinham tudo para serem amigos e companheiros para vida toda. Decidiram apostar no amor que sentiam e se casaram. Juntos se sentiram fortes e capazes de ousar planejar o futuro. Deu certo! Tiveram três filhos. Ernesto arrumou um sócio e junto com ele fez uma fábrica de frios, salsichas e embutidos em geral. Gisela ajudava na fábrica, cuidava da casa, da comida e dos filhos. Os dias, na casa de Ernesto e Gisela, começavam muito cedo, quase sempre no escuro. Contas a pagar, clientes para satisfazer, filhos para educar, marido para agradar e a vida passando ligeiro. Algumas noites, Gisela ficava acordada tentando dar um ritmo mais lento àquele tempo apressado. Ela queria saborear mais devagar alguns momentos que se misturaram no turbilhão de dias, meses e anos que voaram rápido demais. No escuro e no silêncio, Gisela revia uma mistura de luta, de sonhos se realizando e de crianças virando adultos prestes a voar para longe. Gisela estava certa. Duas filhas se casaram, emigraram e em outros países tiveram seus filhos. Gisela e Ernesto eram loucos por seus cinco netos e viajar passou a ser sinônimo de alegria e prazer do reencontro familiar. Talvez as viagens fossem o combustível necessário para que Gisela pudesse suportar o que estava para acontecer. Sorrateiras e sem pedir permissão, doenças e situações temidas invadiram a sua vida. Duas perdas enormes acometeram Gisela num espaço de tempo muito curto. Seu filho morreu e poucos meses depois ficou viúva. Nessa época, já beirando os oitenta anos e bastante fragilizada, Gisela achou sensato deixar-se cuidar. Passou a morar no Brasil, perto da família, mas, dona de seu nariz, num apartamento seu. Sabia da importância de manter sua independência. A mulher corajosa, forte e incansável havia se transformado numa idosa baixinha, com olhos atentos e pele muito branca que tinha um cheiro de sabonete gostoso. Tinha uma aparência meiga, algumas rugas e um sorriso nem sempre disponível nos primeiros tempos. Acreditava que o tempo ia lhe ajudar a voltar a se sentir em paz e sem a dolorosa sensação que habitava seu peito. Queria sair da depressão em que se encontrava e para tanto, aceitava qualquer boa ideia ou ajuda para amenizar sua dor. Foi aí que surgiu o Belga. Gisela ganhou um acompanhante para se sentir menos sozinha e fazê-la alegre. Gisela recebeu o Belga com os braços abertos. Bem, na verdade, não chegaram a se abraçar, pois o Belga estava numa gaiola... É... O Belga era um lindo canário que passou a atender pelo nome de Hansi. Foi amor à primeira vista! Depois de um ano que Hansi tinha chegado à vida de Gisela, ela programou uma viagem de um mês. Tinha que arrumar alguém para cuidar de seu pequeno amigo. Não foi difícil, pois Rosa, uma boa vizinha, logo que soube do problema, escreveu um bilhete e colocou-o embaixo da sua porta: “Querida Gisela, Posso cuidar do seu querido canário. Não será difícil e acho que vou gostar. Pode ficar despreocupada que vou contar para ele suas notícias todos os dias, assim ele não vai se esquecer de você. Lembro de ter visto seu passarinho comendo maçã. Vou providenciar para que ele tenha essa fruta todos os dias. Você acha bom? Tenho algumas perguntas para lhe fazer. Acho que suas respostas vão me ajudar. Ele vê TV? Bebe sucos? Coca Cola? Sai para passear? Dorme com luz acesa? Como ele gosta de ser chamado? Ele recebe beijinhos antes de dormir? Precisarei que me traga suas roupas, chinelinhos e escovas de cabelo e de dente. Aguardo suas recomendações. Beijos, Rosa” Assim que Gisela leu o bilhete de Rosa, escreveu uma resposta e, sem perder tempo, colocou-a embaixo da porta de Rosa: “Querida Rosa, Eu lhe agradeço por querer cuidar do meu amiguinho. Ele não precisa de muito. Você terá que limpar a gaiola dele todos os dias, dar-lhe comida e água fresca. Ele não bebe sucos, nem refrigerantes. Bebidas alcoólicas de jeito algum. Só água. Sim, ele gosta muito de maçã e vai adorar se você cortar pequenas fatias para ele, pois ele não sabe usar a faca. A cada dez dias ele ganha um pedacinho de ovo duro com a casca. Penso que deve ser bom para ele um pouco de cálcio para os ossos das perninhas e das asas, mas não exagere! Lembre-se que seu estômago é bem menor que o nosso.Ele se chama Hansi e parece que fica feliz quando escuta seu nome. Quando ele quer falar, ele faz piu. Você vai acabar entendendo que apesar de ser um idioma de uma única palavra, piu pode significar muitas coisas. Quando ele fica mudo pode ser que também esteja sentindo ou querendo dizer alguma coisa. Acredito que ele vai precisar alguns dias para se acostumar com você e para poder conversar abertamente e sem timidez. Tenha paciência e você, assim como eu, vai chegar a ter conversas bem interessantes com o pequeno Hansi. Hansi já irá para sua casa vestido com a sua roupa e quando ele tomar banho, ele a lavará ao mesmo tempo em que estiver lavando seu corpinho. Nunca consegui achar chinelos para ele, portanto o deixo sempre descalço. Ele parece gostar de ficar assim, você não precisa mudar esse hábito. Hansi não sai para passear, porém adora ficar na sacada do apartamento olhando o movimento da rua. Como você não tem sacada, leve a gaiola para perto da janela ou experimente ligar a TV e veja se ele gosta. Tome cuidado para que Hansi não fique exposto a uma corrente de ar e quando o levar para seu banho de sol diário, não o deixe muito tempo ao sol, para que ele não torre de calor. Neste momento, ele está numa fase que não canta e ainda por cima está perdendo penas... Deve estar pressentindo minha viagem, não sei... Se a coisa piorar, leve-o num veterinário que entenda de psiquiatria de canários. Deixe-o conversar a sós com o profissional para que ele abra seu coraçãozinho e se sinta melhor. Não deixo uma luz acesa para Hansi durante a noite. Fiz isso desde o primeiro dia que ele chegou e parece que assim está bem. Em geral, quando vou dormir à noite, ele já está dormindo e, por isso, não posso lhe dar um beijinho. Ainda assim, antes de ir me deitar sempre lhe digo boa noite. Ele parece que sente e noto que suspira como se gostasse de ouvir minha voz e meu desejo. Por favor, siga fazendo isso para que ele continue dormindo bem todas as noites. Se alguma noite ele não dormir, não se preocupe, ele pode estar pensando e lembrando  coisas importantes da vida dele. Não o perturbe nessa hora. Ele precisa do escuro e do silêncio. São alimentos para a alminha dele. Creio que isso é tudo. Hansi está contente de ir de férias para sua casa. Beijos, Gisela” Gisela viajou e Rosa tomou conta de Hansi com muito amor e carinho. Levou-o num veterinário e soube que é normal uma queda anual das penas. Ficou aliviada. Rosa percebeu que Hansi não dormiu algumas noites, mas deixou-o em paz. Deu tudo certo. Um mês passou até bem rápido. Hansi disse piu na hora em que Gisela veio buscá-lo para voltar para a casa dela. Rosa entendeu que Hansi estava reconhecendo Gisela. Entendeu também que era seu discurso de despedida. Era o fim de uma linda temporada com ele. Rosa se voltou para a amiga e só então percebeu como ela estava mais bonita, mais leve e até sorridente. Havia voltado bem melhor. Que alegria! Foi inútil Rosa disfarçar sua emoção. Tem gente que tem lágrimas que teimam em cair, ainda que a pessoa tente de tudo para impedi-las. Era o caso da Rosa. Gisela abraçou forte e demoradamente a amiga. Elas não precisaram dizer nada. Hansi sentiu vontade de voltar à cena e disse outro piu...

SEM CHÃO

Sexta, 08 Maio 2015 09:45
Duas mulheres andavam elegantes numa rua movimentada, em sentidos opostos, a passos rápidos e com seus mais diversos pensamentos em ebulição, fazendo com que suas cabeças estivessem no mundo da lua. Esta é uma fórmula quase perfeita para um pequeno desastre. Não deu outra... O encontrão foi inevitável. As duas perderam o equilíbrio. Com muito custo, afinal pareciam uma dupla de dançarinas bêbadas, conseguiram se aprumar nos respectivos saltos bem altos. No meio dessa cena, suas bolsas caíram e se abriram. Vários objetos que estavam dentro das bolsas, acomodados e quietos, subitamente pareceram ter ganhado vida e, sem cerimonia, se espalharam pela calçada. Ninguém pode afirmar, mas aquela bagunça na rua deve ter provocado algum grau de vergonha naquelas duas senhoras que nem se conheciam. Era como se cada uma estivesse expondo sua nudez de forma diferente e dramaticamente reveladora. Os olhares dos transeuntes, provavelmente, contribuíam para aumentar o desconforto nelas. Estava tudo misturado, até os risinhos sem graça que elas tentavam segurar. Teriam que separar o que era de uma e o que era da outra. Ambas se agacharam e iniciaram o trabalho que tinham pela frente. Sem introdução, deram início à tarefa. Essa chave deve ser sua... É, obrigada. Os absorventes? Eu também tinha alguns na minha bolsa. Lembra quantos? Não... Vamos dividir... Certo? Claro... Essa cartela de remédio é minha. Eu também já usei esse ai, mas não me dei bem com ele. Você sentia a boca seca? Demais! E engordei muito também. Ah! Essa merda faz engordar! Pois é... Converse com seu médico. Nesse instante, como notaram que a coisa não seria tão rápida, elas improvisaram um modo mais confortável, esticaram os lencinhos que identificaram como seus e se sentaram sobre eles no meio fio. Assim indicaram que estavam mais disponíveis e presentes. Um peito se abriu e uma conversa começou a fluir. Mês passado fui mandada embora do emprego. Fiquei sem chão. Ainda estou meio assim. Fui num psiquiatra e ele me receitou esse medicamento. Sei que vai passar. Sem saber como seguir com esse assunto complicado, a ouvinte do drama da outra catou a primeira coisa que encontrou no chão e assim mudou o tema da prosa. Essa lanterna é sua? A desempregada aceitou a mudança de tema. É. Com alívio, a outra seguiu nesse rumo. Nunca pensei em ter uma lanterna na bolsa. Essa é de um bom tamanho. Quer para você? Jura? Está me dando de presente? Claro, pode ficar. Enfiando o presente na bolsa, sentiu que um pensamento lhe martelava a cabeça: Como alguém pode estar mal e ser generosa ao mesmo tempo? Espanou essa dúvida e pegou um retrato do chão. Que lindas fotos! Obrigada... Eu carrego a família toda comigo. Posso ver? Claro! Esse é meu marido, aqui é meu filho e do lado é a minha filha. Nessa outra foto estão meus pais e meus irmãos comigo na praia. Que lindos! Você está casada há quanto tempo? Vinte anos. Que beleza! E você? Casei no ano passado. Ainda não tenho filhos e nem sei se vou ter. Tal revelação causou um silêncio com pitadas de assombro e estranhamento. Ficou no ar a diferença entre elas, como se tivessem descoberto que eram de times ou até de seitas diferentes. Ainda tinha muita coisa espalhada e não dava para ficar em transe para sempre. A casada a menos tempo esticou o braço para pegar cartões e carteiras. Notou que seus cartões de crédito estavam embaralhados com documentos que não lhe pertenciam. Passou tudo para a outra e pediu para que ela separasse o que era dela. Estou vendo que desse bolo todo só me pertencem meu RG e CPF. Já falta pouca coisa. É... Nem está sendo tão complicado... Tem um desodorante que deve ser seu, pois eu não levo isso comigo. É meu mesmo. Sem controlar uma curiosidade meio sem pé nem cabeça quis saber se o desodorante tinha bom cheiro. Posso ver? Que suave! Vou anotar a marca. Olhe ali uma caneta e um caderninho... Devem ser seus.  Exatamente! Tenho milhões de dicas colecionadas nesse caderninho. Bacana... Eu anoto coisas no meu i phone. Acaba dando no mesmo. É... Claro. Essa maçã é sua. Eu sempre trago comigo uma fruta ou uma barrinha por recomendação da nutricionista. É mesmo? Eu procuro comer de três em três horas. E é magra desse jeito! É uma questão de hábito alimentar e faz bem para saúde. Você deveria fazer o mesmo. Quase dava para ver como o conselho saiu da boca de uma e bateu de frente com a surpresa da outra. Uma nota de vinte quis fugir da cena pegando carona numa lufada de vento.  A que tinha acabado de guardar a maçã fez uma defesa espetacular e agarrou a nota fujona. Peguei! Você lembra quanto tinha na carteira? Mais ou menos... E você? Não lembro. E agora? Como vamos fazer a divisão? Vou contar todo o dinheiro espalhado, inclusive as moedas. Aqui tem R$ 237,75. Sei que eu não tinha muito dinheiro. Você acha que tinha menos de cinquenta? Acho. Fique com cinquenta e eu fico com o resto, assim não vamos errar muito. Que incrível! Nunca pensou que existisse gente assim... Ainda estava guardando o dinheiro, quando percebeu a aflição na fala da sua nova conhecida. Não estou achando meu i phone! Ele vai aparecer... Calma! Veja, o danadinho está quase no bueiro. Ainda bem, obrigada, sem ele fico perdida. Eu sei, comigo é igual. Agora nossos batons... Temos que admitir que nossos gostos são bem parecidos. Incrível! Tem até dois de cores e marcas iguais. Só que um já está mais gasto. Qual será o seu e qual será o meu? Ah! Tenho certeza que esse mais novo é meu. Posso guarda-lo? Bem, se você tem tanta certeza... Tenho! Não pode ser esse outro aqui? Não! Esse está usado de uma forma que não é minha. Nem minha! Um silêncio breve e grave deu um tom azedo àquele diálogo. Você acha que estou mentindo? Não, acho que você pode estar enganada. Mas não estou... Devolve o meu batom! É meu! Já guardei e não vou devolver nada. Aliás, já estou muito atrasada. Essas porcarias que ainda estão pelo chão devem ser suas. Já ficamos tempo demais nessa cena esdrúxula! Sem cerimônia e se apoiando nas costas da outra, levantou-se, fez alguns movimentos para desamassar sua roupa e tentou ficar recomposta. A que serviu de apoio, admirada, ainda no chão, parecendo anestesiada diante das mudanças de humor e do modo de se comportar da outra mulher, apenas se restringiu a olhar. Virou espectadora. A que estava levantada deu uns passos como indo embora, mas voltou, se abaixou e pegou seu lencinho. Depois disso, muito solene e sem se despedir, girou seus calcanhares e tomou seu rumo.  De quem seria aquele batom? Como foi possível degringolar uma conversa que estava se encaminhando tão bem só por causa de um batom? A mulher sentada no meio fio ergueu o braço como querendo chamar a mulher que minutos atrás estava lhe confidenciando intimidades, mas se deu conta que nem sabia seu nome. Baixou o braço e abortou a ideia. Não achou sensato emitir um grito na direção de alguém que se mostrou tão perturbada e sem equilíbrio. Queria entender... Talvez não tenha percebido alguns sinais, talvez tenha perdido a oportunidade de conversar e ajeitar aquela confusão. Sem ter em quem se apoiar, pegou seu lencinho e foi se erguendo bem devagar, parecia que erguia uma carga muito pesada. Ficou de pé e sem chão, mesmo assim tomou também seu rumo.

BENTO QUERIA SER VENTO - Infantil

Segunda, 16 Março 2015 14:46
Era uma vez um menino chamado Bento. Era pequeno e cheio de energia. Tinha seis anos, olhos espertos e uma cabeça que pensava sem parar. Numa tarde de domingo, Bento parecia distraído, sentadinho no chão, não muito longe de sua casa, brincando com uma varetinha, olhando o que acontecia ao seu redor. Olhava e pensava. E pensava e pensava... O vento parecia fora de si. Estranho? Pode ser, mas era essa a impressão que Bento tinha, pois enxergava que o vento estava totalmente louco, fazendo portas baterem, vestidos e saias serem levantados e fazendo também papéis e miudezas voarem. Fora toda essa bagunça ainda havia gente correndo para todos os lados. Que força o vento tem! Enquanto Bento refletia sobre o poder do vento, escutava a voz de sua mãe que lhe chamava: Bento! Vem para casa! Beeeento! Onde você está? Vai cair uma tempestade. Ô menino... Precisamos fechar a casa! Como, às vezes, acontece com as crianças, Bento estava sem vontade de obedecer. Seguindo a desobediência, Bento saiu em disparada gritando. Gritava como se vento fosse. Sou o Veeeeeento! Beeento Veeeento! Sem nenhuma preocupação com a chuva forte que estava sendo anunciada, Bento foi se distanciando de sua moradia. Sou Veeeento! Veeento! Dois dentes de leite da frente já haviam caído e Bento estava achando graça falar que era vento, pois a falta dos dentes fazia a palavra vento sair de forma engraçada. Ventava na sua boca... Veeeento! Seguiu correndo, imaginando que estava voando. Não demorou muito, foi parar na beira do lago. Notou que a água estava descolorida de negro. O céu escuro refletido no lago dava um aspecto bem diferente de quando os dias são claros e o céu é azul. Não havia ninguém na beira do lago. Nem patos, nem sapos, nem passarinhos. Só a ventania cada vez mais forte e ele, Bento, o menino que parecia que engoliu o desassossego. Com os braços bem esticados, Bento tentava ensaiar voos para todos os lados. Em alguns momentos o vento lhe dava a impressão de que iria lhe levantar, mas Bento não estava nem um pouquinho assustado. Pelo contrário, ele estava deslumbrado. Depois de ir para lá e para cá, Bento sentiu vontade de mudar de brincadeira. Atirou longe seus sapatos e correu para colocar os pés na água. Achou delicioso e refrescante!  Essa alegria não durou muito, pois trovões e relâmpagos passaram a se revezar fazendo com que o céu ficasse com uma aparência sinistra. Gotas de chuva começaram a cair. Gotas grossas. Bento lembrou que era perigoso ficar na água, mesmo só com os pés, pois algum raio poderia ser atraído e cair nele. Isso não é brincadeira! É coisa séria! Ainda bem! Bento saiu do lago. Levantou-se para ir pegar seus sapatos. Não reparou na raiz de uma árvore, tropeçou e caiu. Sentiu uma dor forte. Machucou seu pé. A tempestade seguia muito forte. Trovões e relâmpagos estavam mais ferozes e insistentes. Raios pareciam cair pertinho dele. Bento começou a sentir medo. Sabia que tinha que sair de onde estava. Ficar perto de árvores era muito perigoso, pois as árvores também atraem os raios. Bento sentiu que estava ficando mais e mais assustado.  Queria estar em casa com sua mamãe e papai. Queria estar na sua cama sequinha. Teve vontade de chorar e imaginou que seus pais deveriam estar preocupados com ele. Fez um esforço grande e se levantou com a ajuda de um pau que achou jogado na grama. Estava totalmente molhado por causa da chuva. Estava encharcado. Queria conseguir voltar rápido como o vento, mas a dor lhe fazia dar passos pequenos e bem devagar. A brincadeira que ele havia tanto gostado já não tinha graça nenhuma. Lembrou que deveria ter respondido, quando sua mãe lhe chamou. Ah! Como queria escutar sua mamãe lhe chamando novamente... Beeeeeeento! Era ela! Sua mamãe estava lhe procurando. Aqui mamãe! Beeeeento! Agora era a voz do seu papai. Ah! Que alegria! Estou aqui! Papai! Mamãe! Em poucos instantes, Bento e seus pais estavam abraçados. Papai lembrou que era melhor saírem logo dali. Colocou Bento no colo e acompanhado da mamãe não demoraram a chegar a casa deles. Onde você estava menino? Correndo... Achando que era o vento... Brincando... Ouvindo mamãe chamar e não respondendo... Fingi que não escutei. Isso não foi nada bonito, disse a mamãe. Não vou mais fazer isso não. Acho que não quero mais saber de ser vento, sou Bento. Isso já é muito bom! Papai e mamãe concordaram com ele, lhe abraçaram e lhe encheram de beijos. Os três estavam felizes e, de dentro de casa, sãos, salvos e juntos contemplaram a tempestade que ainda caiu um bom tempo.

CONTA VÓ!

Quinta, 05 Fevereiro 2015 09:15
Na hora em que a TV é desligada, que o banho e a comida já foram dados, que os pijaminhas foram colocados e os dentes escovados, as crianças ficam deitadas, relaxadas e podendo voar com gosto e prazer na imaginação. É a hora ideal para contar histórias, ainda mais se vier, como na noite passada, com o pedido irrecusável: Conta uma história, vó? Embarquei sem pestanejar. Pode ser uma que vocês já conhecem ou preferem uma nova? Escutei um pedido para contar a que aconteceu quando o papai deles era criança. Qual? Aquela que ele estava na creche e não pode entrar... Ah! Já sei! Estão prontos? Sim! Começa vovó! Vou começar com “Era uma vez”, pode ser? Pode! Então, lá vai: Era uma vez um menino muito querido que se chamava Marcelo... Fiz de propósito uma pausa, pois assim pude perceber o pequeno Leo, de três anos, e sua irmã Luna, de quase seis, sorrindo contentes ao ouvirem o nome do pai. Prossegui. Ele nasceu numa grande cidade, no Rio de Janeiro. Era um bebê bonito, esperto, comia e dormia muito bem. Quando ele completou dois anos e dois meses ele ganhou um irmão, Renato. O titio... Ah! O tio Renato! Isso mesmo, mas a história de hoje se passa antes do titio nascer. Desde uns dois meses e até completar um ano, Marcelo tinha uma rotina... O que é rotina vovó? Luna me fez saber que estava atenta. Rotina é o que a pessoa faz sempre igual. Por exemplo, a rotina que vocês têm pela manhã é acordar, escovar os dentes e tomar o café da manhã. Entendeu? Posso seguir? Pode. Você também entendeu Leo? Sim. Todos os dias, Marcelo acordava bem cedo. Bem cedo de verdade, antes das seis da manhã. No RJ, em geral, faz muito calor e os raios de sol nas primeiras horas da manhã eram como trombetas que acordavam Marcelo para aproveitar seu passeio matinal. Eu trocava sua fralda, alimentava-o e colocava-o no carrinho muitas vezes só com uma fraldinha. Como morávamos perto da praia, curtíamos um belo espetáculo todos os dias. O movimento das ondas da praia, as cores do céu, da areia, as pessoas fazendo exercícios, enfim, era tão maravilhoso de ver, que eu sempre me admirava com a beleza de cada novo dia. Como eu voltei a trabalhar quando Marcelinho tinha uns cinco meses, quando chegava perto das 8:00 horas, a vovó ou o vovô apareciam para ficar com o Marcelo. Eu tinha que ir trabalhar. Tinha? Luna não deixou escapar e continuou a questionar: Quem mandava? Não, não tinha ninguém que mandava. Sempre gostei de trabalhar fora de casa. E o Marcelo? Luna quis saber. Ele ficava muito bem. Como você sabe? Ele sabia falar? Não. Mas dava para notar que era um bebe alegre. Você tem para mostrar um vídeo dele no seu i phone? Não. Não havia i phone quando seu pai era neném. Puxa... Mas temos fotos, vocês já viram. Posso seguir a história? Só mais uma coisinha vovó... Ele ficava o dia inteiro com os avós dele? Ele ficava muito com os avós sim, até que com um ano, Marcelinho foi para creche. Ele ficava no período da manhã. O vovô levava e buscava de carro.  Eu ia e voltava com eles, já que trabalhava perto dessa creche. Como ele já falava algumas palavras, todos os dias contava para o vovô o que havia almoçado junto das outras crianças. Era engraçado escutar aquele menininho tão pequeno dizendo que comeu batata, arroz e figadô...  O vovô dele adorava contar para todo mundo como seu neto era inteligente, pois falava direitinho muitas palavras e, além disso, falava até em francês... Figadô. Bem, voltando à história... Eu dava aulas na faculdade perto da creche. Na hora do meu almoço, aproveitava a carona do meu pai para levar Marcelo para dormir algumas horas no seu bercinho em casa. Eu comia alguma coisa e depois voltava correndo para trabalhar. No fim da tarde, eu me encontrava com meu filhinho e com minha mãe no calçadão. Era a bisa Esther? Era sim. Era um tempo de muita correria, pois havia hora para entrar na creche e no trabalho, mas é também um tempo que me deixou muitas saudades... Como meus pensamentos me emocionaram, fiquei embotada e sem conseguir prosseguir até que a voz do Leo me chamou de volta para o agora: Vai vó... Continua! Respirei fundo como tentando inalar alguma coisa que me restituísse o equilíbrio. Muito bem! Um dia, o carro do vovô quebrou e ele avisou que não poderia nos levar. O jeito foi pegar um taxi para a creche. Quando lá chegamos, uma professora ou babá, não me lembro bem, inspecionou a cabeça do Marcelo e com um tom grave e sério decretou: Essa criança tem piolho, não pode entrar! Tome esse remédio e passe na cabeça dele por três dias seguidos. Fiquei lívida. Luna quis saber o que é lívida. Gostei de perceber que ela estava atenta. Branca, como quem vai desmaiar. E prossegui. Eu tinha que ir para o trabalho. Tinha que dar aula. Não teve jeito e levei-o junto comigo. Ah! Esqueci um detalhe... Eu estava grávida e, por conta de enjoar algumas vezes, tomava um remédio para diminuir esses enjoos. Bem, cheguei à faculdade e tive que me explicar para meu chefe. Ele não gostou nada de ver uma criança na sala de aula. Chegou a dizer que eu parecia uma lavadeira de roupas que vem do subúrbio carregando filho nas casas das madames... Você parecia mesmo lavadeira vó? Não. Não parecia, Luna, e engoli minha raiva sem responder. Papai fala que Isso não faz bem vovó. Eu sei e até hoje penso que deveria ter dito ao meu chefe como admiro essas mulheres trabalhadoras, que ele se referiu com tanto desprezo. Dei todas as aulas com o pequeno Marcelinho rabiscando com giz no chão, correndo, caindo, chorando, fazendo cocô, tomando mamadeira ou sendo distraído por algum aluno. Definitivamente uma sala de aula numa faculdade não é um lugar apropriado para um menino de um ano. Quando acabei de dar a última aula da manhã, em vez de ir para casa, resolvi me consultar com Alzira, a empregada da minha sogra, a vovó Edith, sobre esse tal de piolho, que não saia da minha cabeça desde a hora que Marcelo não pode entrar na creche. Alzira sentou Marcelinho no seu colo e o examinou com muita atenção. Fio por fio. Ele não era muito cabeludo. O veredito não demorou. O que é... Para Luna! Deixa a vovó contar... Calma, Leo! Veredito é o que se fala com certeza depois de muito pensar ou discutir sobre um assunto. Então, Alzira disse que não havia nem um piolho na cabeça do Marcelo. Esse menino está com sopa grudada no cabelo! É isso que confundiu alguém lá na creche. Sopa grudada no cabelo! Tornei a ficar lívida. (Olhei para ver se Luna sacou a palavra e ela tinha um sorriso nos lábios). Que loucura! Um engano que me fez passar uma manhã bem complicada! Fomos para casa. Marcelo almoçou e logo adormeceu. Eu quase nem comi nada, mas estava enjoada. Antes de voltar para o trabalho, achei que seria bom tomar meu remédio contra enjoo. Peguei-o e tomei uma colherada correndo, pois estava bem atrasada. Logo que senti o gosto do remédio comecei a gritar. Ai! Ai! Troquei o remédio! Não reparei e peguei o remédio errado! Engoli o remédio do piolho! Liguei correndo para meu médico. Alô! Dr Castilho? Sou eu, Rosali... Você está bem? Estou sim, quer dizer, estava, mas acabei de engolir um remédio para piolho... É mesmo Rosali, disse ele com espanto e me perguntou a razão de eu ter feito isso. Foi um engano... uma longa história... Tive vontade de chorar, mas não quis parecer mais maluca do que já estava parecendo, pois estava muito aflita. Perguntei-lhe o que iria acontecer com meu neném na barriga? O que devo fazer? Preciso vomitar? Dr. Castilho, numa voz suave, mas firme, disse para eu me acalmar. Tome um pouco de leite morno e nada vai acontecer. Você está estressada. Precisa relaxar. Ah! Guarde o remédio de piolho bem longe dos seus outros remédios. E se precisar de mim, pode ligar a qualquer hora. Desliguei já bem mais calma. Tomei o leite morno e voltei para o trabalho. Tudo acabou bem. E assim termina essa história. Léo estava ressonando a sono solto e Luna se ajeitou na cama, puxou seu lençol e procurou a posição para dormir. Momento precioso.                  

Auschwitz 70 Anos

Terça, 27 Janeiro 2015 12:06
´ Hoje, 27 de janeiro de 2015, fazem 70 anos da libertação de Auschwitz. Muita gente já cansou deste tema e prefere não permitir que uma história que aconteceu há tanto tempo possa abalar seu dia ou mesmo seu humor. De uma forma muito semelhante, tal atitude foi tomada por uma parte dos europeus no pós-guerra. Preferiram lidar com o holocausto sem querer remexer nos escombros, sem permitir que o assunto fosse vomitado das gargantas dos sobreviventes. Numa tentativa eufórica e patológica, havia um forte desejo de seguir adiante, reconstruir o que havia sido danificado e partir para o futuro, como se o assunto pudesse ser encerrado por um decreto não enunciado. Assim que foram se fortalecendo de forma física, psicológica e espiritual, deixando para trás a condição de mortos-vivos como foram encontrados, ousados e firmes na crença da importância de não se calar, os sobreviventes, conseguiram relatar o que lhes aconteceu. Muitos levaram mais de uma década para conseguir iniciar a contar os horrores que passaram. Inicialmente falaram para seus familiares e conhecidos e, depois, para os que estivessem dispostos a ouvir. Esses relatos foram considerados preciosidades. Hoje em dia, muitos dos relatos de sobreviventes do holocausto estão filmados e guardados como tesouros em museus do holocausto espalhados pelo mundo. Há quem se dedique ferrenhamente a espalhar a ideia de que o holocausto é uma invenção dos judeus. Em poucos anos, nenhum sobrevivente estará mais vivo. Hoje já são poucos. Muito poucos. Uno-me ao contingente de pessoas espalhadas pelo mundo que entende que a lembrança dos sobreviventes é crucial para que a história não seja deturpada. Não sou hipócrita para me desculpar de tomar seu tempo falando desse assunto. Escrevo justamente para aumentar o número de pessoas com, ao menos, algum conhecimento do assunto. Escrevo para atingir também pessoas que possam ser lembradas e sensibilizadas com esse assunto. Escrevo para que meus filhos saibam que nunca esqueci e que é importante que eles nunca esqueçam. Para finalizar, mais que um minuto de silêncio em homenagem aos 70 anos de libertação de Auschwitz, proponho minutos de pesquisa em ao menos um dos muitos Museus do Holocausto na internet. Para facilitar, basta clicar nos links:             Curitiba http://www.museudoholocausto.org.br, Berlim http://www.alemanhaporquenao.com/2013/05/judisches-museum-berlin-o-museu-judaico.html, Israel (www.yadvashem.org), Washington http://www.ushmm.org/ . Hoje e sempre, que sejam honrados todos os que foram assassinados no Holocausto! Hoje e sempre, que sejam honrados os sobreviventes do Holocausto e seus relatos!

Newsletter

Receba as atualização do site por e-mail.

Os + Lidos

Facebook