Rosali Michelsohn

Rosali Michelsohn

Tem grande paixão por exercer a psicologia tanto no consultório, quanto como consultora organizacional. Escrever textos vem sendo um desafio e uma paixão semanal desde 8 de março de 2008. Publicou seu primeiro livro, Vista da Janela, em 2011.

BENTO QUERIA SER VENTO - Infantil

Segunda, 16 Março 2015 14:46
Era uma vez um menino chamado Bento. Era pequeno e cheio de energia. Tinha seis anos, olhos espertos e uma cabeça que pensava sem parar. Numa tarde de domingo, Bento parecia distraído, sentadinho no chão, não muito longe de sua casa, brincando com uma varetinha, olhando o que acontecia ao seu redor. Olhava e pensava. E pensava e pensava... O vento parecia fora de si. Estranho? Pode ser, mas era essa a impressão que Bento tinha, pois enxergava que o vento estava totalmente louco, fazendo portas baterem, vestidos e saias serem levantados e fazendo também papéis e miudezas voarem. Fora toda essa bagunça ainda havia gente correndo para todos os lados. Que força o vento tem! Enquanto Bento refletia sobre o poder do vento, escutava a voz de sua mãe que lhe chamava: Bento! Vem para casa! Beeeento! Onde você está? Vai cair uma tempestade. Ô menino... Precisamos fechar a casa! Como, às vezes, acontece com as crianças, Bento estava sem vontade de obedecer. Seguindo a desobediência, Bento saiu em disparada gritando. Gritava como se vento fosse. Sou o Veeeeeento! Beeento Veeeento! Sem nenhuma preocupação com a chuva forte que estava sendo anunciada, Bento foi se distanciando de sua moradia. Sou Veeeento! Veeento! Dois dentes de leite da frente já haviam caído e Bento estava achando graça falar que era vento, pois a falta dos dentes fazia a palavra vento sair de forma engraçada. Ventava na sua boca... Veeeento! Seguiu correndo, imaginando que estava voando. Não demorou muito, foi parar na beira do lago. Notou que a água estava descolorida de negro. O céu escuro refletido no lago dava um aspecto bem diferente de quando os dias são claros e o céu é azul. Não havia ninguém na beira do lago. Nem patos, nem sapos, nem passarinhos. Só a ventania cada vez mais forte e ele, Bento, o menino que parecia que engoliu o desassossego. Com os braços bem esticados, Bento tentava ensaiar voos para todos os lados. Em alguns momentos o vento lhe dava a impressão de que iria lhe levantar, mas Bento não estava nem um pouquinho assustado. Pelo contrário, ele estava deslumbrado. Depois de ir para lá e para cá, Bento sentiu vontade de mudar de brincadeira. Atirou longe seus sapatos e correu para colocar os pés na água. Achou delicioso e refrescante!  Essa alegria não durou muito, pois trovões e relâmpagos passaram a se revezar fazendo com que o céu ficasse com uma aparência sinistra. Gotas de chuva começaram a cair. Gotas grossas. Bento lembrou que era perigoso ficar na água, mesmo só com os pés, pois algum raio poderia ser atraído e cair nele. Isso não é brincadeira! É coisa séria! Ainda bem! Bento saiu do lago. Levantou-se para ir pegar seus sapatos. Não reparou na raiz de uma árvore, tropeçou e caiu. Sentiu uma dor forte. Machucou seu pé. A tempestade seguia muito forte. Trovões e relâmpagos estavam mais ferozes e insistentes. Raios pareciam cair pertinho dele. Bento começou a sentir medo. Sabia que tinha que sair de onde estava. Ficar perto de árvores era muito perigoso, pois as árvores também atraem os raios. Bento sentiu que estava ficando mais e mais assustado.  Queria estar em casa com sua mamãe e papai. Queria estar na sua cama sequinha. Teve vontade de chorar e imaginou que seus pais deveriam estar preocupados com ele. Fez um esforço grande e se levantou com a ajuda de um pau que achou jogado na grama. Estava totalmente molhado por causa da chuva. Estava encharcado. Queria conseguir voltar rápido como o vento, mas a dor lhe fazia dar passos pequenos e bem devagar. A brincadeira que ele havia tanto gostado já não tinha graça nenhuma. Lembrou que deveria ter respondido, quando sua mãe lhe chamou. Ah! Como queria escutar sua mamãe lhe chamando novamente... Beeeeeeento! Era ela! Sua mamãe estava lhe procurando. Aqui mamãe! Beeeeento! Agora era a voz do seu papai. Ah! Que alegria! Estou aqui! Papai! Mamãe! Em poucos instantes, Bento e seus pais estavam abraçados. Papai lembrou que era melhor saírem logo dali. Colocou Bento no colo e acompanhado da mamãe não demoraram a chegar a casa deles. Onde você estava menino? Correndo... Achando que era o vento... Brincando... Ouvindo mamãe chamar e não respondendo... Fingi que não escutei. Isso não foi nada bonito, disse a mamãe. Não vou mais fazer isso não. Acho que não quero mais saber de ser vento, sou Bento. Isso já é muito bom! Papai e mamãe concordaram com ele, lhe abraçaram e lhe encheram de beijos. Os três estavam felizes e, de dentro de casa, sãos, salvos e juntos contemplaram a tempestade que ainda caiu um bom tempo.

CONTA VÓ!

Quinta, 05 Fevereiro 2015 09:15
Na hora em que a TV é desligada, que o banho e a comida já foram dados, que os pijaminhas foram colocados e os dentes escovados, as crianças ficam deitadas, relaxadas e podendo voar com gosto e prazer na imaginação. É a hora ideal para contar histórias, ainda mais se vier, como na noite passada, com o pedido irrecusável: Conta uma história, vó? Embarquei sem pestanejar. Pode ser uma que vocês já conhecem ou preferem uma nova? Escutei um pedido para contar a que aconteceu quando o papai deles era criança. Qual? Aquela que ele estava na creche e não pode entrar... Ah! Já sei! Estão prontos? Sim! Começa vovó! Vou começar com “Era uma vez”, pode ser? Pode! Então, lá vai: Era uma vez um menino muito querido que se chamava Marcelo... Fiz de propósito uma pausa, pois assim pude perceber o pequeno Leo, de três anos, e sua irmã Luna, de quase seis, sorrindo contentes ao ouvirem o nome do pai. Prossegui. Ele nasceu numa grande cidade, no Rio de Janeiro. Era um bebê bonito, esperto, comia e dormia muito bem. Quando ele completou dois anos e dois meses ele ganhou um irmão, Renato. O titio... Ah! O tio Renato! Isso mesmo, mas a história de hoje se passa antes do titio nascer. Desde uns dois meses e até completar um ano, Marcelo tinha uma rotina... O que é rotina vovó? Luna me fez saber que estava atenta. Rotina é o que a pessoa faz sempre igual. Por exemplo, a rotina que vocês têm pela manhã é acordar, escovar os dentes e tomar o café da manhã. Entendeu? Posso seguir? Pode. Você também entendeu Leo? Sim. Todos os dias, Marcelo acordava bem cedo. Bem cedo de verdade, antes das seis da manhã. No RJ, em geral, faz muito calor e os raios de sol nas primeiras horas da manhã eram como trombetas que acordavam Marcelo para aproveitar seu passeio matinal. Eu trocava sua fralda, alimentava-o e colocava-o no carrinho muitas vezes só com uma fraldinha. Como morávamos perto da praia, curtíamos um belo espetáculo todos os dias. O movimento das ondas da praia, as cores do céu, da areia, as pessoas fazendo exercícios, enfim, era tão maravilhoso de ver, que eu sempre me admirava com a beleza de cada novo dia. Como eu voltei a trabalhar quando Marcelinho tinha uns cinco meses, quando chegava perto das 8:00 horas, a vovó ou o vovô apareciam para ficar com o Marcelo. Eu tinha que ir trabalhar. Tinha? Luna não deixou escapar e continuou a questionar: Quem mandava? Não, não tinha ninguém que mandava. Sempre gostei de trabalhar fora de casa. E o Marcelo? Luna quis saber. Ele ficava muito bem. Como você sabe? Ele sabia falar? Não. Mas dava para notar que era um bebe alegre. Você tem para mostrar um vídeo dele no seu i phone? Não. Não havia i phone quando seu pai era neném. Puxa... Mas temos fotos, vocês já viram. Posso seguir a história? Só mais uma coisinha vovó... Ele ficava o dia inteiro com os avós dele? Ele ficava muito com os avós sim, até que com um ano, Marcelinho foi para creche. Ele ficava no período da manhã. O vovô levava e buscava de carro.  Eu ia e voltava com eles, já que trabalhava perto dessa creche. Como ele já falava algumas palavras, todos os dias contava para o vovô o que havia almoçado junto das outras crianças. Era engraçado escutar aquele menininho tão pequeno dizendo que comeu batata, arroz e figadô...  O vovô dele adorava contar para todo mundo como seu neto era inteligente, pois falava direitinho muitas palavras e, além disso, falava até em francês... Figadô. Bem, voltando à história... Eu dava aulas na faculdade perto da creche. Na hora do meu almoço, aproveitava a carona do meu pai para levar Marcelo para dormir algumas horas no seu bercinho em casa. Eu comia alguma coisa e depois voltava correndo para trabalhar. No fim da tarde, eu me encontrava com meu filhinho e com minha mãe no calçadão. Era a bisa Esther? Era sim. Era um tempo de muita correria, pois havia hora para entrar na creche e no trabalho, mas é também um tempo que me deixou muitas saudades... Como meus pensamentos me emocionaram, fiquei embotada e sem conseguir prosseguir até que a voz do Leo me chamou de volta para o agora: Vai vó... Continua! Respirei fundo como tentando inalar alguma coisa que me restituísse o equilíbrio. Muito bem! Um dia, o carro do vovô quebrou e ele avisou que não poderia nos levar. O jeito foi pegar um taxi para a creche. Quando lá chegamos, uma professora ou babá, não me lembro bem, inspecionou a cabeça do Marcelo e com um tom grave e sério decretou: Essa criança tem piolho, não pode entrar! Tome esse remédio e passe na cabeça dele por três dias seguidos. Fiquei lívida. Luna quis saber o que é lívida. Gostei de perceber que ela estava atenta. Branca, como quem vai desmaiar. E prossegui. Eu tinha que ir para o trabalho. Tinha que dar aula. Não teve jeito e levei-o junto comigo. Ah! Esqueci um detalhe... Eu estava grávida e, por conta de enjoar algumas vezes, tomava um remédio para diminuir esses enjoos. Bem, cheguei à faculdade e tive que me explicar para meu chefe. Ele não gostou nada de ver uma criança na sala de aula. Chegou a dizer que eu parecia uma lavadeira de roupas que vem do subúrbio carregando filho nas casas das madames... Você parecia mesmo lavadeira vó? Não. Não parecia, Luna, e engoli minha raiva sem responder. Papai fala que Isso não faz bem vovó. Eu sei e até hoje penso que deveria ter dito ao meu chefe como admiro essas mulheres trabalhadoras, que ele se referiu com tanto desprezo. Dei todas as aulas com o pequeno Marcelinho rabiscando com giz no chão, correndo, caindo, chorando, fazendo cocô, tomando mamadeira ou sendo distraído por algum aluno. Definitivamente uma sala de aula numa faculdade não é um lugar apropriado para um menino de um ano. Quando acabei de dar a última aula da manhã, em vez de ir para casa, resolvi me consultar com Alzira, a empregada da minha sogra, a vovó Edith, sobre esse tal de piolho, que não saia da minha cabeça desde a hora que Marcelo não pode entrar na creche. Alzira sentou Marcelinho no seu colo e o examinou com muita atenção. Fio por fio. Ele não era muito cabeludo. O veredito não demorou. O que é... Para Luna! Deixa a vovó contar... Calma, Leo! Veredito é o que se fala com certeza depois de muito pensar ou discutir sobre um assunto. Então, Alzira disse que não havia nem um piolho na cabeça do Marcelo. Esse menino está com sopa grudada no cabelo! É isso que confundiu alguém lá na creche. Sopa grudada no cabelo! Tornei a ficar lívida. (Olhei para ver se Luna sacou a palavra e ela tinha um sorriso nos lábios). Que loucura! Um engano que me fez passar uma manhã bem complicada! Fomos para casa. Marcelo almoçou e logo adormeceu. Eu quase nem comi nada, mas estava enjoada. Antes de voltar para o trabalho, achei que seria bom tomar meu remédio contra enjoo. Peguei-o e tomei uma colherada correndo, pois estava bem atrasada. Logo que senti o gosto do remédio comecei a gritar. Ai! Ai! Troquei o remédio! Não reparei e peguei o remédio errado! Engoli o remédio do piolho! Liguei correndo para meu médico. Alô! Dr Castilho? Sou eu, Rosali... Você está bem? Estou sim, quer dizer, estava, mas acabei de engolir um remédio para piolho... É mesmo Rosali, disse ele com espanto e me perguntou a razão de eu ter feito isso. Foi um engano... uma longa história... Tive vontade de chorar, mas não quis parecer mais maluca do que já estava parecendo, pois estava muito aflita. Perguntei-lhe o que iria acontecer com meu neném na barriga? O que devo fazer? Preciso vomitar? Dr. Castilho, numa voz suave, mas firme, disse para eu me acalmar. Tome um pouco de leite morno e nada vai acontecer. Você está estressada. Precisa relaxar. Ah! Guarde o remédio de piolho bem longe dos seus outros remédios. E se precisar de mim, pode ligar a qualquer hora. Desliguei já bem mais calma. Tomei o leite morno e voltei para o trabalho. Tudo acabou bem. E assim termina essa história. Léo estava ressonando a sono solto e Luna se ajeitou na cama, puxou seu lençol e procurou a posição para dormir. Momento precioso.                  

Auschwitz 70 Anos

Terça, 27 Janeiro 2015 12:06
´ Hoje, 27 de janeiro de 2015, fazem 70 anos da libertação de Auschwitz. Muita gente já cansou deste tema e prefere não permitir que uma história que aconteceu há tanto tempo possa abalar seu dia ou mesmo seu humor. De uma forma muito semelhante, tal atitude foi tomada por uma parte dos europeus no pós-guerra. Preferiram lidar com o holocausto sem querer remexer nos escombros, sem permitir que o assunto fosse vomitado das gargantas dos sobreviventes. Numa tentativa eufórica e patológica, havia um forte desejo de seguir adiante, reconstruir o que havia sido danificado e partir para o futuro, como se o assunto pudesse ser encerrado por um decreto não enunciado. Assim que foram se fortalecendo de forma física, psicológica e espiritual, deixando para trás a condição de mortos-vivos como foram encontrados, ousados e firmes na crença da importância de não se calar, os sobreviventes, conseguiram relatar o que lhes aconteceu. Muitos levaram mais de uma década para conseguir iniciar a contar os horrores que passaram. Inicialmente falaram para seus familiares e conhecidos e, depois, para os que estivessem dispostos a ouvir. Esses relatos foram considerados preciosidades. Hoje em dia, muitos dos relatos de sobreviventes do holocausto estão filmados e guardados como tesouros em museus do holocausto espalhados pelo mundo. Há quem se dedique ferrenhamente a espalhar a ideia de que o holocausto é uma invenção dos judeus. Em poucos anos, nenhum sobrevivente estará mais vivo. Hoje já são poucos. Muito poucos. Uno-me ao contingente de pessoas espalhadas pelo mundo que entende que a lembrança dos sobreviventes é crucial para que a história não seja deturpada. Não sou hipócrita para me desculpar de tomar seu tempo falando desse assunto. Escrevo justamente para aumentar o número de pessoas com, ao menos, algum conhecimento do assunto. Escrevo para atingir também pessoas que possam ser lembradas e sensibilizadas com esse assunto. Escrevo para que meus filhos saibam que nunca esqueci e que é importante que eles nunca esqueçam. Para finalizar, mais que um minuto de silêncio em homenagem aos 70 anos de libertação de Auschwitz, proponho minutos de pesquisa em ao menos um dos muitos Museus do Holocausto na internet. Para facilitar, basta clicar nos links:             Curitiba http://www.museudoholocausto.org.br, Berlim http://www.alemanhaporquenao.com/2013/05/judisches-museum-berlin-o-museu-judaico.html, Israel (www.yadvashem.org), Washington http://www.ushmm.org/ . Hoje e sempre, que sejam honrados todos os que foram assassinados no Holocausto! Hoje e sempre, que sejam honrados os sobreviventes do Holocausto e seus relatos!

NA CORDA BAMBA

Terça, 18 Novembro 2014 17:08
Ela é uma viúva que não sei precisar se tem oitenta anos ou quase isso. Até há pouco tempo ela trabalhava muito dentro e fora de casa. Saía cedo e voltava tarde. Seus olhos são brilhantes e atentos. Dentro de sua cabeça habitam mil histórias, frutos das suas vivências profissionais e familiares. Foi a filha que durante anos cuidou da mãe e do pai. Cuidou ainda de muita gente e nem sempre cuidou de si. Quando se aposentou, descobriu que seu bairro era muito bonito e tinha mil coisas que nunca havia reparado. Sou como uma prisioneira que acabou de ser libertada... Ando deslumbrada olhando as pessoas, o movimento, as flores, árvores e a arquitetura dos prédios. Para comemorar a aposentadoria, fez uma linda viagem com uma de suas filhas. Sentia falta do trabalho, mas estava gerenciando muito bem essa nova fase da vida. Então, apareceu um problema. Sem entender como acontecia, subitamente, em algumas ocasiões se desequilibrava e caia. E, foi assim que dentro de uma loja de objetos de cristais, ela funcionou como um elefante num bazar e derrubou toda uma prateleira antes de chegar ao chão. Que sufoco! Ela passou a reclamar com todo mundo que as ruas da cidade são um grande perigo, pois estão cheias de obstáculos que muitas vezes lhe provocavam quedas. Foi a vários médicos. Fez inúmeros exames. Constatou que tem mesmo um problema. Foi orientada a passar a andar acompanhada de gente ou bengala. Como fazer isso, sendo ela como um passarinho que andou solto a vida inteira? Quem sabe essa coisa ruim poderia passar? Ela sabia que estava sendo teimosa, mas afirmava que sua cabeça ainda não aceitava bengala. Faz pouco tempo, há umas semanas atrás, ela se arrumou e se enfeitou para ir ao casamento da neta do seu primo querido. Lamentou muito o fato de suas filhas não terem sido convidadas, mas sabia que hoje em dia, os convites para as festas não são mais privilégios de família. E assim, ela se dispôs a ir sozinha mesmo. Chamou um taxi e foi. Chegou a tempo de ver a cerimônia toda. O local estava lotado, mas ela não conhecia quase ninguém. Essa constatação lhe fez pensar que seus conhecidos que teriam sido convidados, andavam adoentados ou já tinham morrido. Como seria divertido estar com seus irmãos e seus pais! Sempre era uma farra! Tudo era motivo de risos... Balançou a cabeça. Esse tempo passou. Quando acabou a parte religiosa e todos se dirigiram para se acomodar nas mesas do salão de festas, ela fez o caminho inverso. Estava decidida a ir cumprimentar seu primo. Foi pedindo licença e, com jeito, foi usando seus cotovelos. Conseguiu chegar onde queria, num lugar bem visível, ao lado de um enorme jarro de vidro com belíssimas flores. Estava excitada. Logo o primo iria passar por ela e tudo o que ela queria era que ele a visse. Ele veio se aproximando duro e solene, como quem estava num outro mundo. Ela, com uma animação que sempre lhe foi muito peculiar, agitava os braços e soltava gritos de votos de saúde para os noivos e mazal tov (boa sorte em hebraico). Ele, meio atrapalhado, como quem tivesse sido despertado de um transe, ou talvez desejoso de dar um fim no alvoroço da prima, esticou sua mão para cumprimentá-la. Ela estranhou aquela mão estendida. Esperava um abraço forte, demorado e cheio de amor e carinho entre primos. Ainda assim, aceitou a mão dele. Naquele mesmo instante, o seu equilíbrio fugiu e ela tentou se apoiar em alguma coisa. Foi pior. Caiu derrubando o enorme jarro de flores, que se espatifou e molhou-a inteira. Como estava de mão dada com o primo, ele também foi parar no chão. Ela um pouco por cima dele, o que, por sorte, amorteceu bem a queda. Que cena! Então, ela fechou os olhos. Fechou bem os olhos para não ver mais nada. Teve vergonha. Pediu ajuda e foi para o banheiro. Foi examinar os estragos e se colocou de castigo por lá durante uma hora. Quando se sentiu melhor, foi procurar o primo para se desculpar. Ela imagina que ele pode ter tido vontade de fugir dela, mas não fez isso. Novamente ele lhe estendeu a mão. Dessa vez o aperto das mãos aconteceu. Frio e apressado. Então, sem dançar, sem jantar e sem abraçar, ela achou que já era hora de ir embora para casa. Chamou outro taxi. Não demorou muito e um carro chegou. O motorista devia ter a idade dela. Entrou, disse seu endereço e deixou escapar sua admiração: O senhor ainda trabalha... Pois é, enquanto der, vou levando. E a senhora? Ela lhe disse que se aposentou e agora estava se treinando para ser uma equilibrista que anda em cordas bambas. Ele mordeu a isca... Ela contou o que lhe aconteceu na festa. Ele riu. Não falou em bengala, não a recriminou, não quis saber de doenças, muito menos mencionou mil perigos. Apenas riu. Ela ficou grata e conseguiu rir junto com ele.

DA SURPRESA AO ABRAÇO

Quarta, 05 Novembro 2014 16:03
Ela chegou de surpresa. Era uma amiga antiga, que morava pertinho e, por circunstâncias da vida, foi para longe. É daquelas que nem podemos pensar muito na falta que fazem, para não ficarmos pensando só no tempo que já passou. Ela tinha menos de uma hora e queria colocar tudo em dia: maridos, namorados, filhos, netos, trabalhos e mais mil casos antigos e novos. Gostei de perceber que seus quase sessenta anos não atrapalham em nada seu animo e bom humor. Parecíamos duas adolescentes sentadas de lado, com as pernas encolhidas e uma de frente para a outra no mesmo sofá da sala. Contou que depois de quarenta anos, reencontrou um colega de escola que lhe ajudou a levantar o astral depois da última separação no ano passado. O colega era bonito, bem apessoado e chegado a um chamego como ele só! Era um homem equipado e atento para a arte do amor. Pelo tempo que nada acontecia nos últimos anos de casada, ela estava certa que sexo era coisa do passado e que suas chuteiras já podiam ser penduradas. Em seis meses dessa aventura, o galã lhe mostrou como estava errada. Foi um deleite. Reativou motores enferrujados e partes da máquina que estavam totalmente sem uso. Se não fosse a gula por sabores e cores de fêmeas diferentes, até que poderiam ser um belo casal. Foi uma pena... Com os olhos mareados, mas ao mesmo tempo ostentando um sorriso, contou-me que não fez dessa separação nenhuma tragédia, afinal já havia passado situações bem piores. Levantando-se como quem já estava começando a se despedir, me garantiu que estava livre e pronta para voltar a ser quem sempre foi e voar para onde tivesse vontade. Essa era a amiga que eu conheci! Nem eu, nem ela queríamos nos separar, então lhe sugeri que ficasse mais um pouco para comermos juntas uma pizza. Parece que acertei a deixa. Ela soltou a bolsa no chão e disse que não poderia ir embora, sem me contar uma passagem que ocorreu enquanto esteve casada com um homem ciumento e mal humorado. Voltamos para o sofá da sala e ela foi iniciando o relato como quem tinha um carretel para desenrolar. Era um fim de tarde de domingo. Só os dois e a TV ligada no programa para ajudar o fim do domingo acontecer. Nada na geladeira e pizza na certa. Deixei escapar um suspiro. Ela foi adiante. Disse que não aguentava mais esse tipo de refeição calórica, mas estava sem energia para discutir por tão pouco. Ele perguntou se podia ser quatro queijos, ela preferiria um queijo só, mas sabia que era mais fácil deixar pra lá. Quando avisaram que a pizza chegou, ela quase se levantou, mas lembrou que ele cismava com as conversas dela com estranhos. Na cabeça dele, provavelmente, o entregador não seria capaz de resistir aos encantos dela e nem ela aos apelos do moço. Sendo assim, ela ficou sentada e ele foi buscar a comida. Ela estranhou a demora dele, mas não se mexeu. Quando enfim ele apareceu, ela estranhou o aspecto da caixa da pizza. Estava suja e meio desconjuntada. Ela quase comentou alguma coisa, mas lembrou-se que poderia chatear seu marido. Nessas horas, ela sentia-se como uma prisioneira dentro dela mesma, mas tratava de pensar que não era tão ruim assim e que ele tinha mil outras qualidades. O marido colocou a caixa esquisita na mesa e os dois se sentaram para comer a pizza. Quando ele abriu a tampa da caixa, ela notou que havia sujeira em cima dos tomates e dos queijos. Um pouco de grama e até lama atestavam que o conteúdo da caixa havia caído no chão. Ela olhou para ele como pedindo uma explicação. Ele pegou seu prato e deu a entender que queria ser servido. Ela ensaiou um início de conversa. Você demorou... Ele abreviou um fim. O cara estava sem troco. Ela tentou de outro jeito. A caixa... Ele esmurrou a mesa e perguntou se dava para mudar de assunto.  Ela sentiu que não ia conseguir ficar sem falar alguma coisa, mas queria fazer força para evitar discussões desnecessárias. Quando tinha sentimentos fortes, era comum que ela sentisse vontade de rir. Era uma reação nervosa. Foi o que aconteceu. A vontade de rir foi ficando avassaladora. Ela tinha que fazer alguma coisa urgente. Lembrou que só havia uma saída. Uma vez, uma amiga lhe deu um conselho para resolver situações assim. Fixou o seu pensamento num ponto triste da sua vida e apertou a boca para engolir o riso e junto conseguiu até engolir a indignação. Olhou diretamente para a pizza repetindo sem som e sem parar apenas uma frase: “Meu pai morreu! Meu pai morreu”. Foi difícil, mas deu certo! Conseguiu não rir, nem falar nada sobre a grama e a lama. Enquanto contou para mim esse caso, chorava de tantas risadas. Eu também ri, apesar de perceber que o que aconteceu não era só uma comédia. Ela confessou que comeu um pedaço. Comeu por que quis. Sentiu vontade de misturar na boca as coisas que sentia com aquela última pizza que iria comer com aquele cara. Quis ter certeza de que nunca mais se submeteria daquele jeito. Comeu como quem tomou uma vacina. Já sem rir, nem chorar, ela me olhou nos olhos e me perguntou se eu concordava que era uma passagem importante da vida dela. Amigas se abraçam. Foi o que fizemos.  

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