Rosali Michelsohn

Rosali Michelsohn

Tem grande paixão por exercer a psicologia tanto no consultório, quanto como consultora organizacional. Escrever textos vem sendo um desafio e uma paixão semanal desde 8 de março de 2008. Publicou seu primeiro livro, Vista da Janela, em 2011.

UM AMOR DE FILHOS

Quarta, 25 Novembro 2015 09:31
Estavam bem cansados quando finalmente chegaram ao hotel. Ele se jogou na cama. Ela sentou no sofá e começar a falar sobre sair e fazer compras e sobre a decepção dos netos e outras tantas frases, quando ele a interrompeu. Não entre nesse caminho agora. Vamos apreciar o silêncio maravilhoso desse quarto e depois teremos tempo para tudo o que for preciso. Como estava realmente exausta, ela concordou. Ambos são idosos e ele, ainda por cima, vem sendo acompanhado pelo Mal de Parkinson há mais de uma década. Fizeram uma viagem cansativa. Foram mais de onze horas de avião, fora quatro horas de atraso do voo e mais um par de horas para chegar ao aeroporto do embarque e depois do aeroporto do destino até o hotel. Uma das filhas, a que mora perto deles, fez de tudo para que o estresse da viagem fosse minimizado. Só não foi junto. Ajudou a escolher as roupas que seriam adequadas para viagem, a arrumar as malas e, por fim, fotografou as muitas malas e bagagens que seus pais estavam levando. Dessa forma, acreditou que estava tudo organizado e sob controle. Os desconfortos que o Parkinson provoca fizeram com que ele perambulasse pelo avião a noite toda. Ela, como sempre, descansou meio que superficialmente, não fechando os dois olhos ao mesmo tempo, para poder cuidar do marido. Ainda assim, desde que saíram de casa até a chegada ao hotel, foram se distraindo e achando motivos para amenizar as dificuldades que estavam enfrentando.  A animação do casal para fazer uma viagem tão longa e desgastante foi por conta da maioridade religiosa da neta caçula, o Bat Mitzva da Maia. Para algumas pessoas esse motivo pode não exercer nenhum apelo especial. Para esse casal e sua família de três filhos, uma nora, dois genros, cinco netos, fora a irmã, sobrinhos e agregados foi mais que o bastante para que enxergassem a rara e imperdível oportunidade de um belíssimo encontro. Fora todos os detalhes da cerimônia religiosa e da festa, os pais de Maia pensaram nas acomodações, transportes, alimentação e até diversão para os que vinham de outros países e cidades distantes. Fizeram o máximo para tudo sair perfeito. Os avós de Maia foram instalados no mesmo andar onde o café da manhã é servido no hotel, de tal forma que eles não tivessem que se locomover muito. O quarto deles era espaçoso o suficiente para poderem receber visitas. Assim que a notícia que os avós chegaram se espalhou, o descanso do casal foi interrompido. Todos os outros parentes já haviam chegado e estavam aflitos para se ver e se abraçar. O quarto dos avós foi invadido pela parentada eufórica e barulhenta. O ar quase ficou rarefeito, possivelmente alguma reação, não cientificamente comprovada, sobre a quantidade de emoções por metro quadrado e o oxigênio que é demandado nessas situações.  Além dos abraços e beijos demorados, o olhar brilhante e atento do filho percebeu uma inquietação na sua mãe. Ele notou, além do cansaço da viagem, que sua mãe estava incomodada com alguma coisa. Ele quis saber o que estava acontecendo, o que a preocupava. Ela foi sucinta e despejou o incomodo: Perdemos uma mala. Não chegou? Não sei. Sabe qual é? Uma mala vermelha. Alguém não se conteve: Não viram as fotos? Não. Nenhum de nós dois se lembrou de fazer isso. Muitas vozes se cruzaram, uma balburdia encheu o recinto, mas deu para entender que  se tratava de uma mala com uma importância singular, pois tinha um monte de presentes, principalmente para os netos. Ninguém sabia o que dizer quando a avó começou a chorar. Alguém teve o bom senso de fazer a retirada de uma boa parte das pessoas daquele quarto. Deveriam ficar apenas o casal de idosos e seus três filhos. Eu queria muito ficar perto deles e desobedeci à regra sugerida. Fiz da minha permanência algo quase imperceptível (pelo menos assim acreditei), fiquei num canto encolhida e muda. As duas filhas se colocaram cada uma de um lado da mãe. Sem nenhuma combinação, as duas iniciaram uma sessão de carinhos e afagos e em poucos segundos deu para perceber que a mãe reagiu e parou de chorar. Conte mãe! Conte como foi... Conte o que aconteceu. Escutaram uma, duas ou dez vezes o que a mãe precisava contar. Parecia que ela tinha que se exorcizar. Embora o incômodo maior estivesse dentro da mãe, o pai também quis explicar como foi que a situação aconteceu. Ninguém lhe tirou a palavra, muito pelo contrário, estavam atentos em atitude respeitosa. Os três filhos não tiveram dificuldades para entender que seus pais simplesmente esqueceram aquele objeto. Foram embora com outras malas e não retiraram a tal mala vermelha da esteira. Foi isso. Nada demais! Um esquecimento. Apesar de terem constatado a causa do problema, nenhum dos filhos riu, nem demonstrou chateação pelo imprevisto. Para começar a tranquilizar os pais, disseram que esse tipo de situação pode acontecer com qualquer um. Não perguntaram sobre o valor em dinheiro do que tinha na mala, nem cogitaram outra coisa a fazer que não fosse resgatar a mala vermelha. Eles se organizaram. Pediram para mãe alguns dados e disseram que fariam de tudo para recuperar a mala. Fizeram ligações telefônicas, entraram na internet e, assim, já começaram a recuperar o mais importante, a calma e o equilíbrio da mãe. Tiraram dela um peso e o colocaram para si. Eu estava lá. Fui testemunha da forma madura e amorosa com que aqueles filhos agiram. Aliás, já os vi fazendo isso em outras ocasiões... Conheço muita gente, muitos são pais, muitos são filhos, mas não são muitos que sabem ser maduros e amorosos. Saí do quarto silenciosamente. Saí tentando não me fazer notar. Fui andar um pouco pelos arredores daquele hotel. As folhas avermelhadas explodiam pelas árvores. Fazia frio. Fiquei revendo as cenas que havia acabado de presenciar. Tão incomum. Fui andando sem rumo, gostando de dar um tempo para pensar na importância e singularidade do que aconteceu. Voltei ao hotel. O pequeno saguão estava lotado de gente da minha família. Abracei cada um dos meus três primos com força e sem pressa de largar. Para cada um deles falei o quanto eu admirei a forma como eles agiram. Os três reagiram com uma mistura de espanto com “não sei do que você está falando”. Não expliquei. Não havia como fazer isso naquele lugar e naquele momento. Guardei o ocorrido num canto especial da minha memória e sabia que um dia iria escrever sobre tudo que presenciei e senti.        

INDECISA

Quinta, 08 Outubro 2015 09:51
Ela torce para que seja um bom momento, mas não tem certeza. Quer se despedir, mas tem a sensação de que pode incomodar e isso não é o que pretende. É estranho pensar que as crianças    estarão brincando e não vão interromper o que fazem para falar com ela. Só para falar com ela... Os adultos podem estar lendo, cozinhando, arrumando alguma coisa ou descansando e também podem preferir não ouvir suas despedidas. Essa hesitação nunca fez parte do modo dela se comportar. Em geral, sempre foi decidida e confiante. Estará ficando uma velha frouxa? Era tão firme... Por outro lado, pode estar aprendo a ser mais respeitosa. Suas urgências e necessidades podem esperar e assim têm a probabilidade de se revelar como desimportâncias. Qual o problema de viajar sem dizer tchau? Certamente nada muda no universo. O mundo vai continuar a girar igual. Ela sabe disso, mas é como se estivesse partindo levando uma bagagem incompleta. Fica lhe faltando falar as falas que traduzem seu carinho e amor e escutar desejos de boa viagem. Ora, pensa ela, certamente foi condicionada a esse tipo de comportamento. Era assim que seus pais e avós faziam. Mas quem sabe pode ser bom experimentar fazer diferente? Talvez nas primeiras vezes, como essa, sinta um nó, um aperto e até uma dor. Talvez com o tempo não sinta mais nada. Da sua garganta escapa um som. Parece que disse basta. Ao notar que estava falando sozinha fica encabulada. Frouxa e maluca... Ela pega o celular e procura alguma mensagem ou ligação que possa ter perdido. Não tem nada. Olha pela janela tentando fazer seu olhar chegar ao impossível. Num ímpeto resolve arriscar. Liga. Toca, toca e ninguém atende. Liga novamente. Nada. Deixa um recado. Desliga achando que não disse exatamente o que pretendia. Balança a cabeça. Agora é tarde. Pega sua mala, abre a porta e vai.

UM PEDIDO BIZARRO

Terça, 15 Setembro 2015 14:20
  Estávamos na piscina, duas fotógrafas e eu. Só nós três em toda aquela grande piscina ao ar livre, em pleno inverno, num fim de tarde de domingo. A água estava tépida e as árvores em volta balançavam devagar evidenciando que havia um vento suave. Quando as duas chegaram, eu já estava na água. Gostei de vê-las. Senti que elas também gostaram de me ver. Entraram na piscina sem se incomodar com a temperatura da água. Nadaram cinquenta metros e pararam perto de mim. Não demorou muito, começamos a papear. Com a ajuda de flutuadores, ficamos nos mexendo fazendo discretas alegorias com as pernas e com os braços. Não somos íntimas, nem nos conhecemos há muito tempo. Ainda assim as palavras saíam fáceis. Falamos de casos que aconteceram conosco, coisas que pareciam que tinham que vir à tona. Junto com a conversa me veio a sensação de termos colocado cadeiras na frente de nossas casas, numa rua de um bairro, num interior qualquer, bonito, calmo e muito gostoso. E eu que nunca morei em casa, nem no interior, muito menos levei cadeira para parte alguma para conversar com vizinhas! Será que estaria eu sob o efeito de alguma magia produzida pelas cores do fim de tarde ou pelas fotógrafas falantes? Não sei. A prosa seguiu e eu contei para elas que iria fazer uma viagem em breve. Fazendo um pequeno mistério, disse que era um lugar diferente e que elas não iriam adivinhar. Depois que elas falaram algumas possibilidades exóticas, fui benevolente e contei: Alaska. Notei que ficaram pasmas. Ambas deram gritinhos de euforia e foram alternando observações sobre meu destino: Um cruzeiro perto do Polo Norte. Um encontro com ursos polares! As cores desse lugar, as fotos maravilhosas... De repente pararam. Durante a pausa uma olhou para outra. Um olhar sapeca, levado e divertido ao mesmo tempo. Então, a mais velha, não se conteve e pediu para irmã falar. Vai, fala... Pode pedir... Não tem nada de mais... Ela não vai pensar que você é louca... Ela sabe que você é artista e artistas têm dessas coisas... Fiquei curiosa. Sabia que estava para escutar algo incomum. Ela começou como quem tateia no escuro. Bem, eu tenho uma coleção... Com mais confiança seguiu. Uma coleção vinda de várias partes do mundo. Fique à vontade se não quiser trazer. Não preciso lhe dar dinheiro, pois não custa nada. Nem vai pesar muito ou ocupar espaço demais na sua bagagem. Queria que você me trouxesse uma coisa do Alaska. Do que se trata?  Tenho quase certeza de que nessa hora elas se olharam e piscaram. Pode ser que até riram. Foi tudo muito rápido. Ar. Essa foi a resposta. Escutei perfeitamente e nem duvidei de ter confundido o som e ter chegado à palavra errada. De qualquer forma, achei melhor me certificar. Você quer que eu lhe traga o ar do Alaska? Sabia que você iria entender logo! Escolha um lugar especial e coloque no vidrinho que vou lhe dar. Você pode fazer isso? Respondi sem hesitar, talvez estivesse abduzida. Posso. De verdade? Sim. Não acha que é loucura? Bem... É, no mínimo, um pedido inusitado... O vento, que até então estava agradável, foi sendo substituído por uma brisa gelada. Notei que havia escurecido. Era hora de ir embora. Saímos da água e rapidamente nos enrolamos em nossas toalhas. Estava muito frio. Uma pressa necessária e esquisita fez com que nos despedíssemos de forma súbita. Elas correram para o vestiário e eu fui embora pela rua escura com o meu roupão em cima do maillot molhado. Os dias foram passando sem muito tempo para nada além dos afazeres de rotina. Na véspera do dia da viagem, enquanto fazia a lista do que pretendia levar, tocou o interfone. Era para avisar que uma senhora havia deixado um pequeno embrulho para mim. Fui até a portaria. O porteiro me entregou um pequeno vidro dentro de um saquinho de pano. Coloquei-o na palma da minha mão. Um vidrinho de geleia protegido por um pano. Quando entrei no meu apartamento, meu marido quis saber se fui buscar alguma coisa que ele havia comprado pela internet. Murmurei que não e já ia começar a contar o que fazia com aquele vidrinho na mão, quando ele me interrompeu dizendo que estava apurado e sem tempo para conversarmos. Completou dizendo que teríamos tempo de sobra durante a viagem. Apertei o vidrinho na minha mão e senti que alguma coisa diferente estava começando e mexendo comigo. Escolhi uma mala pequena e conveniente. Com cuidado, acomodei o vidrinho e depois todo o resto. A longa viagem transcorreu bem, sem surpresas. Quando finalmente entrei no navio onde faria o cruzeiro pelo Alaska, a primeira coisa que fiz foi me sentar e me certificar de que estava acordada. Era tudo tão bonito! Bonito demais! Como cheguei ali? Será que estava tudo certo mesmo? Alguns pensamentos começaram a rodopiar na minha cabeça. Viajei... Os outros passageiros deviam ser da realeza de algum lugar e eu teria entrado escondida... Era um engano! Meu navio deveria ser outro e como ninguém notou o erro, o embarque aconteceu. A qualquer momento, a polícia poderia chegar e me fazer descer daquele navio tão lindo... Meu marido, sem perceber, acabou com meu devaneio, convidando-me para almoçar. De braços dados com ele, fui me deixando inundar por um sentimento profundo de gratidão pelo privilégio de estar vivendo tamanha felicidade. Esse sentimento me acompanhou por toda a viagem.   Depois de um dia e meio de navegação, chegamos à primeira cidade do Alaska, Wrangel. Coloquei uma pochete que se mostrou perfeita para carregar documentos, cartão da cabine do navio, algum dinheiro e ainda o vidrinho. Andei de caiaque e me deslumbrei com cenários belíssimos. Fiquei uma hora e meia envolta pela natureza. Como uma música de fundo, podia escutar o som dos remos entrando e saindo da água. Precisei parar alguns minutos a fim de usufruir do silêncio daquele lugar. Toquei no vidrinho. Não. Não senti que era ali. Como é possível ter certeza? Eu tinha. Nas horas em que fiquei em Wrangel andei bastante e olhei para tudo como querendo absorver o cenário. Voltei inebriada e exausta para o navio. Mas não era dali o ar que iria para o vidrinho. O cruzeiro passou por várias cidades. Em cada uma delas, parei para sentir se era ou não o local para abrir o vidrinho e capturar o ar do local. Que poder estranho estava eu imbuída! Foi em Ketchikan, na última cidade que conheci do Alaska, que senti a certeza que estava aguardando. Essa foi a primeira cidade do Alaska e, atualmente, é a quinta cidade mais populosa deste estado americano com cerca de 8.000 habitantes. Quando escutei que Ketchikan é uma cidade com um clima muito chuvoso e frio na maior parte do tempo, fiquei buscando entender como as pessoas poderiam viver num lugar assim. Fui num museu. Assisti um filme (Ketchikan: The Artists ) que me deu a resposta que procurava. Ketchikan se transforma numa usina de artes e muita criatividade durante os longos meses de clima inóspito. Eles dançam, fazem teatro e apresentações musicais; fazem trabalhos com retalhos, fazem pinturas usando várias técnicas, fotografam, bordam e fazem esculturas. Todas essas atividades se tornam meios para que a vida aconteça de uma forma mais suave, mais feliz, mais sensível, bela e em grupo. Enquanto o filme passava pelos meus olhos, minha intuição foi se tornando certeza. Definitivamente, era de Ketchikan o ar que tinha que levar no vidrinho para minhas amigas fotógrafas. Ao sair do museu, numa cerimônia simples, mas significativa, abri a tampinha do vidrinho de geleia, pensei nas minhas amigas, na nossa conversa na piscina, pensei na felicidade que desejo para elas e capturei o ar daquela cidade. Cheguei do Alaska já faz uns dias. Precisava entregar o vidrinho, mas queria entregar junto com algumas palavras. Agora sinto que está tudo certo. Já posso deixar o vidrinho na porta delas. Começo a pensar que alguém, algum dia irá ter essa mesma incumbência que eu tive. E assim a coleção de ar de lugares especiais do mundo vai crescendo... Lindo! Definitiva e delicadamente lindo!  

DA MENINA GISELA ATÉ O BELGA QUE SÓ FALAVA PIU

Terça, 30 Junho 2015 15:27
Gisela nasceu na Alemanha em 1928. Tinha uma vida bem parecida com a de outras tantas crianças alemãs, até que o nazismo se instalou no poder. Gisela era judia. Seus sonhos e sua vida viraram de cabeça para baixo. Foi esse pesadelo que levou Gisela e outros 45 mil judeus alemães a emigrar para a Argentina. Não havia mais lugar para vestidos bordados e engomados, nem meias brancas  e sapatinhos de verniz. O cenário de sua vida passou a ser o campo. Suas roupas passaram a ser rústicas, tinham que ser apropriadas para alguém que cultivava a terra e cuidava de bichos. Não demorou a conhecer Ernesto. Com feridas e cicatrizes bem semelhantes às dela, ele lhe pareceu perfeito. Encontraram o essencial e o belo que havia em um e em outro. Souberam reconhecer que tinham tudo para serem amigos e companheiros para vida toda. Decidiram apostar no amor que sentiam e se casaram. Juntos se sentiram fortes e capazes de ousar planejar o futuro. Deu certo! Tiveram três filhos. Ernesto arrumou um sócio e junto com ele fez uma fábrica de frios, salsichas e embutidos em geral. Gisela ajudava na fábrica, cuidava da casa, da comida e dos filhos. Os dias, na casa de Ernesto e Gisela, começavam muito cedo, quase sempre no escuro. Contas a pagar, clientes para satisfazer, filhos para educar, marido para agradar e a vida passando ligeiro. Algumas noites, Gisela ficava acordada tentando dar um ritmo mais lento àquele tempo apressado. Ela queria saborear mais devagar alguns momentos que se misturaram no turbilhão de dias, meses e anos que voaram rápido demais. No escuro e no silêncio, Gisela revia uma mistura de luta, de sonhos se realizando e de crianças virando adultos prestes a voar para longe. Gisela estava certa. Duas filhas se casaram, emigraram e em outros países tiveram seus filhos. Gisela e Ernesto eram loucos por seus cinco netos e viajar passou a ser sinônimo de alegria e prazer do reencontro familiar. Talvez as viagens fossem o combustível necessário para que Gisela pudesse suportar o que estava para acontecer. Sorrateiras e sem pedir permissão, doenças e situações temidas invadiram a sua vida. Duas perdas enormes acometeram Gisela num espaço de tempo muito curto. Seu filho morreu e poucos meses depois ficou viúva. Nessa época, já beirando os oitenta anos e bastante fragilizada, Gisela achou sensato deixar-se cuidar. Passou a morar no Brasil, perto da família, mas, dona de seu nariz, num apartamento seu. Sabia da importância de manter sua independência. A mulher corajosa, forte e incansável havia se transformado numa idosa baixinha, com olhos atentos e pele muito branca que tinha um cheiro de sabonete gostoso. Tinha uma aparência meiga, algumas rugas e um sorriso nem sempre disponível nos primeiros tempos. Acreditava que o tempo ia lhe ajudar a voltar a se sentir em paz e sem a dolorosa sensação que habitava seu peito. Queria sair da depressão em que se encontrava e para tanto, aceitava qualquer boa ideia ou ajuda para amenizar sua dor. Foi aí que surgiu o Belga. Gisela ganhou um acompanhante para se sentir menos sozinha e fazê-la alegre. Gisela recebeu o Belga com os braços abertos. Bem, na verdade, não chegaram a se abraçar, pois o Belga estava numa gaiola... É... O Belga era um lindo canário que passou a atender pelo nome de Hansi. Foi amor à primeira vista! Depois de um ano que Hansi tinha chegado à vida de Gisela, ela programou uma viagem de um mês. Tinha que arrumar alguém para cuidar de seu pequeno amigo. Não foi difícil, pois Rosa, uma boa vizinha, logo que soube do problema, escreveu um bilhete e colocou-o embaixo da sua porta: “Querida Gisela, Posso cuidar do seu querido canário. Não será difícil e acho que vou gostar. Pode ficar despreocupada que vou contar para ele suas notícias todos os dias, assim ele não vai se esquecer de você. Lembro de ter visto seu passarinho comendo maçã. Vou providenciar para que ele tenha essa fruta todos os dias. Você acha bom? Tenho algumas perguntas para lhe fazer. Acho que suas respostas vão me ajudar. Ele vê TV? Bebe sucos? Coca Cola? Sai para passear? Dorme com luz acesa? Como ele gosta de ser chamado? Ele recebe beijinhos antes de dormir? Precisarei que me traga suas roupas, chinelinhos e escovas de cabelo e de dente. Aguardo suas recomendações. Beijos, Rosa” Assim que Gisela leu o bilhete de Rosa, escreveu uma resposta e, sem perder tempo, colocou-a embaixo da porta de Rosa: “Querida Rosa, Eu lhe agradeço por querer cuidar do meu amiguinho. Ele não precisa de muito. Você terá que limpar a gaiola dele todos os dias, dar-lhe comida e água fresca. Ele não bebe sucos, nem refrigerantes. Bebidas alcoólicas de jeito algum. Só água. Sim, ele gosta muito de maçã e vai adorar se você cortar pequenas fatias para ele, pois ele não sabe usar a faca. A cada dez dias ele ganha um pedacinho de ovo duro com a casca. Penso que deve ser bom para ele um pouco de cálcio para os ossos das perninhas e das asas, mas não exagere! Lembre-se que seu estômago é bem menor que o nosso.Ele se chama Hansi e parece que fica feliz quando escuta seu nome. Quando ele quer falar, ele faz piu. Você vai acabar entendendo que apesar de ser um idioma de uma única palavra, piu pode significar muitas coisas. Quando ele fica mudo pode ser que também esteja sentindo ou querendo dizer alguma coisa. Acredito que ele vai precisar alguns dias para se acostumar com você e para poder conversar abertamente e sem timidez. Tenha paciência e você, assim como eu, vai chegar a ter conversas bem interessantes com o pequeno Hansi. Hansi já irá para sua casa vestido com a sua roupa e quando ele tomar banho, ele a lavará ao mesmo tempo em que estiver lavando seu corpinho. Nunca consegui achar chinelos para ele, portanto o deixo sempre descalço. Ele parece gostar de ficar assim, você não precisa mudar esse hábito. Hansi não sai para passear, porém adora ficar na sacada do apartamento olhando o movimento da rua. Como você não tem sacada, leve a gaiola para perto da janela ou experimente ligar a TV e veja se ele gosta. Tome cuidado para que Hansi não fique exposto a uma corrente de ar e quando o levar para seu banho de sol diário, não o deixe muito tempo ao sol, para que ele não torre de calor. Neste momento, ele está numa fase que não canta e ainda por cima está perdendo penas... Deve estar pressentindo minha viagem, não sei... Se a coisa piorar, leve-o num veterinário que entenda de psiquiatria de canários. Deixe-o conversar a sós com o profissional para que ele abra seu coraçãozinho e se sinta melhor. Não deixo uma luz acesa para Hansi durante a noite. Fiz isso desde o primeiro dia que ele chegou e parece que assim está bem. Em geral, quando vou dormir à noite, ele já está dormindo e, por isso, não posso lhe dar um beijinho. Ainda assim, antes de ir me deitar sempre lhe digo boa noite. Ele parece que sente e noto que suspira como se gostasse de ouvir minha voz e meu desejo. Por favor, siga fazendo isso para que ele continue dormindo bem todas as noites. Se alguma noite ele não dormir, não se preocupe, ele pode estar pensando e lembrando  coisas importantes da vida dele. Não o perturbe nessa hora. Ele precisa do escuro e do silêncio. São alimentos para a alminha dele. Creio que isso é tudo. Hansi está contente de ir de férias para sua casa. Beijos, Gisela” Gisela viajou e Rosa tomou conta de Hansi com muito amor e carinho. Levou-o num veterinário e soube que é normal uma queda anual das penas. Ficou aliviada. Rosa percebeu que Hansi não dormiu algumas noites, mas deixou-o em paz. Deu tudo certo. Um mês passou até bem rápido. Hansi disse piu na hora em que Gisela veio buscá-lo para voltar para a casa dela. Rosa entendeu que Hansi estava reconhecendo Gisela. Entendeu também que era seu discurso de despedida. Era o fim de uma linda temporada com ele. Rosa se voltou para a amiga e só então percebeu como ela estava mais bonita, mais leve e até sorridente. Havia voltado bem melhor. Que alegria! Foi inútil Rosa disfarçar sua emoção. Tem gente que tem lágrimas que teimam em cair, ainda que a pessoa tente de tudo para impedi-las. Era o caso da Rosa. Gisela abraçou forte e demoradamente a amiga. Elas não precisaram dizer nada. Hansi sentiu vontade de voltar à cena e disse outro piu...

SEM CHÃO

Sexta, 08 Maio 2015 09:45
Duas mulheres andavam elegantes numa rua movimentada, em sentidos opostos, a passos rápidos e com seus mais diversos pensamentos em ebulição, fazendo com que suas cabeças estivessem no mundo da lua. Esta é uma fórmula quase perfeita para um pequeno desastre. Não deu outra... O encontrão foi inevitável. As duas perderam o equilíbrio. Com muito custo, afinal pareciam uma dupla de dançarinas bêbadas, conseguiram se aprumar nos respectivos saltos bem altos. No meio dessa cena, suas bolsas caíram e se abriram. Vários objetos que estavam dentro das bolsas, acomodados e quietos, subitamente pareceram ter ganhado vida e, sem cerimonia, se espalharam pela calçada. Ninguém pode afirmar, mas aquela bagunça na rua deve ter provocado algum grau de vergonha naquelas duas senhoras que nem se conheciam. Era como se cada uma estivesse expondo sua nudez de forma diferente e dramaticamente reveladora. Os olhares dos transeuntes, provavelmente, contribuíam para aumentar o desconforto nelas. Estava tudo misturado, até os risinhos sem graça que elas tentavam segurar. Teriam que separar o que era de uma e o que era da outra. Ambas se agacharam e iniciaram o trabalho que tinham pela frente. Sem introdução, deram início à tarefa. Essa chave deve ser sua... É, obrigada. Os absorventes? Eu também tinha alguns na minha bolsa. Lembra quantos? Não... Vamos dividir... Certo? Claro... Essa cartela de remédio é minha. Eu também já usei esse ai, mas não me dei bem com ele. Você sentia a boca seca? Demais! E engordei muito também. Ah! Essa merda faz engordar! Pois é... Converse com seu médico. Nesse instante, como notaram que a coisa não seria tão rápida, elas improvisaram um modo mais confortável, esticaram os lencinhos que identificaram como seus e se sentaram sobre eles no meio fio. Assim indicaram que estavam mais disponíveis e presentes. Um peito se abriu e uma conversa começou a fluir. Mês passado fui mandada embora do emprego. Fiquei sem chão. Ainda estou meio assim. Fui num psiquiatra e ele me receitou esse medicamento. Sei que vai passar. Sem saber como seguir com esse assunto complicado, a ouvinte do drama da outra catou a primeira coisa que encontrou no chão e assim mudou o tema da prosa. Essa lanterna é sua? A desempregada aceitou a mudança de tema. É. Com alívio, a outra seguiu nesse rumo. Nunca pensei em ter uma lanterna na bolsa. Essa é de um bom tamanho. Quer para você? Jura? Está me dando de presente? Claro, pode ficar. Enfiando o presente na bolsa, sentiu que um pensamento lhe martelava a cabeça: Como alguém pode estar mal e ser generosa ao mesmo tempo? Espanou essa dúvida e pegou um retrato do chão. Que lindas fotos! Obrigada... Eu carrego a família toda comigo. Posso ver? Claro! Esse é meu marido, aqui é meu filho e do lado é a minha filha. Nessa outra foto estão meus pais e meus irmãos comigo na praia. Que lindos! Você está casada há quanto tempo? Vinte anos. Que beleza! E você? Casei no ano passado. Ainda não tenho filhos e nem sei se vou ter. Tal revelação causou um silêncio com pitadas de assombro e estranhamento. Ficou no ar a diferença entre elas, como se tivessem descoberto que eram de times ou até de seitas diferentes. Ainda tinha muita coisa espalhada e não dava para ficar em transe para sempre. A casada a menos tempo esticou o braço para pegar cartões e carteiras. Notou que seus cartões de crédito estavam embaralhados com documentos que não lhe pertenciam. Passou tudo para a outra e pediu para que ela separasse o que era dela. Estou vendo que desse bolo todo só me pertencem meu RG e CPF. Já falta pouca coisa. É... Nem está sendo tão complicado... Tem um desodorante que deve ser seu, pois eu não levo isso comigo. É meu mesmo. Sem controlar uma curiosidade meio sem pé nem cabeça quis saber se o desodorante tinha bom cheiro. Posso ver? Que suave! Vou anotar a marca. Olhe ali uma caneta e um caderninho... Devem ser seus.  Exatamente! Tenho milhões de dicas colecionadas nesse caderninho. Bacana... Eu anoto coisas no meu i phone. Acaba dando no mesmo. É... Claro. Essa maçã é sua. Eu sempre trago comigo uma fruta ou uma barrinha por recomendação da nutricionista. É mesmo? Eu procuro comer de três em três horas. E é magra desse jeito! É uma questão de hábito alimentar e faz bem para saúde. Você deveria fazer o mesmo. Quase dava para ver como o conselho saiu da boca de uma e bateu de frente com a surpresa da outra. Uma nota de vinte quis fugir da cena pegando carona numa lufada de vento.  A que tinha acabado de guardar a maçã fez uma defesa espetacular e agarrou a nota fujona. Peguei! Você lembra quanto tinha na carteira? Mais ou menos... E você? Não lembro. E agora? Como vamos fazer a divisão? Vou contar todo o dinheiro espalhado, inclusive as moedas. Aqui tem R$ 237,75. Sei que eu não tinha muito dinheiro. Você acha que tinha menos de cinquenta? Acho. Fique com cinquenta e eu fico com o resto, assim não vamos errar muito. Que incrível! Nunca pensou que existisse gente assim... Ainda estava guardando o dinheiro, quando percebeu a aflição na fala da sua nova conhecida. Não estou achando meu i phone! Ele vai aparecer... Calma! Veja, o danadinho está quase no bueiro. Ainda bem, obrigada, sem ele fico perdida. Eu sei, comigo é igual. Agora nossos batons... Temos que admitir que nossos gostos são bem parecidos. Incrível! Tem até dois de cores e marcas iguais. Só que um já está mais gasto. Qual será o seu e qual será o meu? Ah! Tenho certeza que esse mais novo é meu. Posso guarda-lo? Bem, se você tem tanta certeza... Tenho! Não pode ser esse outro aqui? Não! Esse está usado de uma forma que não é minha. Nem minha! Um silêncio breve e grave deu um tom azedo àquele diálogo. Você acha que estou mentindo? Não, acho que você pode estar enganada. Mas não estou... Devolve o meu batom! É meu! Já guardei e não vou devolver nada. Aliás, já estou muito atrasada. Essas porcarias que ainda estão pelo chão devem ser suas. Já ficamos tempo demais nessa cena esdrúxula! Sem cerimônia e se apoiando nas costas da outra, levantou-se, fez alguns movimentos para desamassar sua roupa e tentou ficar recomposta. A que serviu de apoio, admirada, ainda no chão, parecendo anestesiada diante das mudanças de humor e do modo de se comportar da outra mulher, apenas se restringiu a olhar. Virou espectadora. A que estava levantada deu uns passos como indo embora, mas voltou, se abaixou e pegou seu lencinho. Depois disso, muito solene e sem se despedir, girou seus calcanhares e tomou seu rumo.  De quem seria aquele batom? Como foi possível degringolar uma conversa que estava se encaminhando tão bem só por causa de um batom? A mulher sentada no meio fio ergueu o braço como querendo chamar a mulher que minutos atrás estava lhe confidenciando intimidades, mas se deu conta que nem sabia seu nome. Baixou o braço e abortou a ideia. Não achou sensato emitir um grito na direção de alguém que se mostrou tão perturbada e sem equilíbrio. Queria entender... Talvez não tenha percebido alguns sinais, talvez tenha perdido a oportunidade de conversar e ajeitar aquela confusão. Sem ter em quem se apoiar, pegou seu lencinho e foi se erguendo bem devagar, parecia que erguia uma carga muito pesada. Ficou de pé e sem chão, mesmo assim tomou também seu rumo.

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