Rosali Michelsohn

Rosali Michelsohn

Tem grande paixão por exercer a psicologia tanto no consultório, quanto como consultora organizacional. Escrever textos vem sendo um desafio e uma paixão semanal desde 8 de março de 2008. Publicou seu primeiro livro, Vista da Janela, em 2011.

SONHANDO ACORDADA

Segunda, 09 Janeiro 2017 15:02
Inesperadamente uma mensagem dele apareceu para mim. Achei estranho, mas ao mesmo tempo, senti um sabor apimentado e forte. Ele queria me encontrar. Havia urgência nas palavras dele. Na verdade, não era nas palavras. A urgência eu percebi em alguma sutileza, possivelmente numa vírgula ou nas reticencias que ele usou. Fazia mais de um ano que eu não tinha nenhuma noticia dele. Era assim que funcionava nossa relação que tem o título de amigos de infância. Estudamos juntos desde o antigo ginásio e nos separamos quando cada um foi fazer sua faculdade. Eu o admirava muito e tenho uma nítida lembrança de, com cerca de onze anos, escrever uma redação citando-o como um futuro presidente do Brasil. Minha previsão não se cumpriu. Ele se tornou médico. Durante muitos anos morou fora do país. Casou, teve filhos, separou, casou novamente e no meio de tudo isso deve ter tido algumas paqueras. Quando eu era menina, tentei fisgá-lo. Além de ótimo aluno e garoto bonito, ele sempre foi muito educado, portanto soube se esquivar de minha investida com elegância: não podemos namorar, pois não quero perder nunca minha amiga. Levei um tempo para entender o fora que levei e até para me permitir sentir uma pitadinha de raiva dele. A raiva não durou e nossas vidas foram em frente. Quando voltamos a nos encontrar já éramos avós, ou quase, não lembro bem. Nossos encontros sempre se deram junto com outros amigos da época da escola e aconteciam uma ou duas vezes ao ano. Assim como todos nós, ele estava envelhecendo. Seu cabelo ruivo tornou-se prateado e seu porte atlético havia se tornado apenas uma lembrança de décadas atrás. Dava para perceber que era guloso e que não conseguia abrir mão dos prazeres que uma boa mesa podia lhe proporcionar. Sua conversa era interessante e seu sorriso tinha ainda aquele antigo charme. Ele nunca foi como eu, alguém que ri à toa e escancarado. Ele sempre foi mais econômico nas suas demonstrações de sentimentos e emoções. Pode ser que essa era sua maneira de capturar a atenção e até o coração de desavisados. Com muito cuidado, como se estivesse andando em pedras lisas e escorregadias, durante nossos encontros, eu me dedicava a entender melhor os sinais que vinham dos seus olhos. Percebia com frequência uma tristeza fugaz e bem disfarçada. Como sempre estávamos com os outros amigos, nossos assuntos prediletos eram os livros e filmes. Se algumas vezes tentamos falar de assuntos íntimos, logo alguém transformava o tema em piada e rapidamente libertava-nos de uma possível cilada emocional. Agora ele quer me encontrar. Só nós dois. Sem nossos amigos, sem marido, nem esposa. Impetuosa como de costume, já lhe respondi que topo o encontro. Ele sugeriu um jantar. Eu cheguei a escrever, mas apaguei a pergunta audaciosa se era à luz de velas... Para não perder o costume, nessa última troca de mensagens, já nos atualizamos sobre os últimos livros lidos. Fiquei surpresa quando ele escreveu que quer comentar comigo sobre esses livros no nosso encontro. Já entendi que teremos um tempo de aquecimento antes de entrar no assunto principal. Ri sozinha da minha inibição de lhe dizer que minha digestão à noite é terrível e que se eu jantar, seguramente ficarei sem dormir. Tenho pensado, nos momentos em que a vida me dá trégua, no que vamos conversar no nosso jantar. Vamos falar sobre meu irmão, que era seu grande amigo e, como estaremos sozinhos, poderemos até chorar abraçados. Poderemos nos lembrar de nossos pais e das vezes que todos estivemos juntos e felizes.  Será que ele tem alguma ideia de organizar um lar de amigos para morarem juntos na velhice? Isso até que seria interessante... Será que falaremos dos planos que fizemos para os nossos filhos e avaliaremos o que de fato aconteceu? Será que vamos filosofar sobre a rapidez com que a vida passou? Falaremos sobre o amor? Um pensamento sombrio me assalta e me incomoda. Será que ele está doente e quer se despedir? Será que quer discutir sobre a eutanásia como fizemos na nossa colônia de férias quando tínhamos onze ou doze anos? Meu Deus! Ainda falta um mês para ficar imaginando e sonhando... Quem sabe ele está arrependido e quer aceitar o pedido de namoro que lhe fiz há mais de quarenta anos? Tenho que me preparar. Não posso me deixar pegar de surpresa. Aqueles olhos são ciladas. Talvez eu deva treinar soltar o não para qualquer pergunta. Tenho sempre o sim pronto na ponta da língua. Preciso inverter esses dois. Vou começar a treinar na frente do espelho! Estou gostando muito de imaginar e sonhar com nosso encontro. Contei para o meu marido e ele nem se incomodou. Ou ele é muito seguro de si, ou seguro de mim ou entende que dois velhos amigos podem ir jantar sem maiores problemas. Sorte a minha! Ainda não comecei a pensar na roupa que eu vou usar. Decidi que o perfume deverá ser bem discreto. Talvez use a velha e boa alfazema... Vou passar só um batom e nada de maquiagem. Aposto que ele nem pensou, nem vai pensar em nada disso. Falta um mês. Seria legal se ele mandasse uma mensagem querendo saber que tipo de comida eu prefiro para escolher o local do encontro. Será que eu diria: café com leite e torrada integral com queijo? Duvido...

IRMÃOS PARA SEMPRE

Terça, 06 Dezembro 2016 16:36
É incrível! Como é maravilhoso voltar a sentir emoções de fatos que aconteceram há mais de vinte anos... Tenho a sensação de estar longe do aqui e agora. Sinto-me observadora e participante. Adoro essa sensação! Com os dedos sou também uma narradora. O lugar onde me vejo é ao lado de meu pai, quando ele passou cerca de um mês hospitalizado, se recuperando da cirurgia de retirada de um terço do pulmão direito, por conta de um câncer.      Mamãe e eu estávamos sempre com ele, embora papai tivesse uma capacidade ilimitada de conversar, fazer amigos e, portanto, seus dias eram cheios. Para as crianças que apareciam na sua frente, enquanto se exercitava andando pelo corredor, papai oferecia números de mágica. Para os jovens internados como ele, papai tinha palavras e histórias que faziam sentido e melhoravam o ânimo de todos. Os médicos e enfermeiros aprenderam a não ter pressa quando faziam visita a meu pai ou tinham que fazer algum procedimento nele. Sempre fluía uma conversa bem gostosa e o quarto do papai se tornou uma espécie de oásis no hospital. Dr Sergio, chefe da equipe de oncologia, visitava papai quase todos os dias, sentava, conversava, ria e algumas vezes notei que ele saía balançando a cabeça. Imagino, não posso ter certeza, que podia estar pensando em como o bom humor e o otimismo ajudam uma pessoa a enfrentar os grandes desafios que a vida impõe. Até para casais com problemas papai chegou a oferecer seu ombro amigo, sua boa escuta e filosofias de vida. Eu brincava com ele dizendo que ele mantinha um consultório irregular no hospital sem ter o diploma apropriado. Numa das manhãs, depois das rotinas habituais, meu pai escutou batidas na porta. Em alto e bom som, fez saber a quem vinha lhe ver que podia entrar. A porta foi sendo aberta bem lentamente, como se a pessoa que a empurrasse estivesse hesitante. Pode até ser que ao empurrar a porta, a pessoa precisasse se empurrar também. Era preciso se endireitar, reequilibrar-se. Era importante sorrir e não demonstrar pena ou tristeza ao ver meu pai mais fraco, mais magro, mais envelhecido. Creio que papai intuía essas coisas e, em geral, ajudava quem vinha ao seu encontro. Quando a porta ficou bem aberta, deu para ver que a pessoa que estava ali era minha tia, irmã caçula do papai. Terezinha veio carregada de sacolas e pacotes. Lembro que ela estava de saia preta, sapato baixo, meia calça de seda, cabelo arrumado para trás e para o alto, olhar meio esbugalhado e uma respiração um pouco ofegante. Ela havia preparado de véspera patê de fígado de galinha e trouxe uma panela cheia. Verdade! Trouxe uma panela! No caminho para o hospital, comprou salame kosher, pepino azedo e pão preto. Trouxe ainda uma torta de queijo, burekas e um rocambole de chocolate. Minha tia sempre foi exagerada e meu pai sempre foi guloso. Que dupla! Entra minha irmã! O quarto do hospital ficou uma bagunça. Papai queria provar cada coisa que sua irmã lhe trouxe. Minha mãe, sabiamente, não se metia nesse assunto. Eu lembro que provei a torta de queijo e até hoje associo essa doçura ao cenário do quarto do papai no hospital. Depois que a etapa de regalos foi cumprida, minha tia se sentou numa cadeira ao lado de meu pai e começou a puxar conversa. Estavam animados lembrando histórias, falando dos meus avós, dos dois outros irmãos, de Ibirarema e dos cachorros Duque e Diana. Os dois conversavam tão animados como se tivessem voltado no tempo. Minha mãe e eu éramos meras espectadoras. Num dado momento, minha tia tirou um envelope da sua bolsa e fez solene um anúncio: Chaim Lejb, esse é o convite de casamento da minha filha mais velha! Papai convocou mamãe: Esther, pega meu óculos para eu poder ler. Tenho quase certeza que o convite estava escrito em hebraico, idish e português. A data do casamento seria em um mês. Titia dava explicações sobre a cerimonia, que seria realizada dentro do ritual judaico ortodoxo. Minha tia estava eufórica e falava demonstrando sua euforia e excitação. Papai escutava atento. Num dado momento, minha tia mudou sutilmente seu jeito de falar e, posso quase jurar que ela gaguejou. Começou a falar sobre chapéus. Perguntou se papai se lembrava de uns chapéus pretos, altos que se usava na Polônia. Papai lhe respondeu que saiu da Polônia ainda criança, mas tinha essa lembrança sim. Titia prosseguiu dizendo que o pai do noivo e os irmãos dele usavam esses chapéus. Papai olhou bem para sua irmã e disse: “Nu...”. Ele usou a pequena palavra em idish que posso tentar traduzir por “e daí?“ Titia pareceu recuar e mudou de assunto: Quer mais um pedacinho da torta? Impaciente papai respondeu: Não! Continua o que você estava falando. Titia balançou a cabeça e como se mirasse num alvo disparou: Andei falando com minha filha e pensamos que é muito desejável que os tios da noiva usem esse mesmo tipo de chapéu... Todos estariam elegantes e iguais... Papai continuou impávido. Ele devia estar pensando. Papai tinha o raciocínio rápido e logo veio com sua resposta: Minha irmã, acredito que para uma festa como esta, você vai ter que providenciar muitas coisas. Você vai providenciar flores, não vai? Vou... Você vai providenciar um carro para levar a noiva, comida, alguém para fotografar, alguém para filmar... Claro! Claro, mas... Então, minha irmã, já que vai providenciar tantas coisas, providencie um irmão, pois este aqui não é adequado para o que você precisa. Não posso me fantasiar do que não sou... Minha tia também raciocina rapidamente e interrompeu meu pai. Colocou as mãos na cabeça, levantou-se da cadeira e ficou repetindo diversas vezes uma única palavra: Esquece! Esquece! Esquece! Titia parecia atormentada. Papai deixou que ela se acalmasse por si. Aos poucos, minha tia se acalmou e conseguiu dizer para seu irmão que mais importante que qualquer coisa era tê-lo com ela no casamento da filha. Papai sabia que o caso estava encerrado e começou a brincar. Posso ir sem chapéu? Pode! Nem preto, nem branco? Sim! Nem alto, nem baixo? Claro Chaim Lejb, foi bobagem minha! Então quero lhe dizer minha irmã, que estou me recuperando e agora tenho uma motivação extra para querer ficar bem. Vou caprichar mais ainda nos exercícios de fisioterapia. Os dois se abraçaram. Eu vi minha tia e meu pai chorando.   Minha tia voltou muitas vezes para visitar meu pai antes do casamento. Nunca vi minha tia chegar sem um monte de pacotes. Era sua maneira de chegar. Ela gostava de falar dos doces, das guloseimas e assim, carinhosamente e sem pressa, ia colocando sua alma pertinho da do meu pai, seu irmão. Estava tudo certo entre eles dois. Eles podiam voltar a conversar sobre Ibirarema ou sobre o casamento que ia acontecer em breve. Podiam falar sobre qualquer coisa. Não ficou nada emperrado, não ficou nada sem ser dito ou como acontece entre tantas pessoas, nada ficou mal dito. Papai conseguiu com grande dificuldade ir a esse casamento. Ainda não estava totalmente recuperado. Quando viu sua sobrinha, aproximou-se dela e lhe disse algumas palavras sobre o tanto que ele desejava que ela fosse feliz. Ela lhe assegurou que estava exatamente onde queria e com quem queria. Depois da cerimônia, papai não conseguiu dançar, nem ficar muito tempo. Ele sentia um cansaço extremo. Não tenho certeza, minha memória está nublada, mas acho que voltamos para o hospital. Naquela época, nunca poderia imaginar o tanto que me tocou esse episódio. Cada vez que relembro essas cenas, agradeço meu pai e minha tia pelo amor e respeito que um teve pelo outro. Como se fosse semente, decido jogar esse texto ao vento, respiro fundo, coloco um ponto final e volto para onde sei que também é o meu lugar.

ACONTECEU COM MINHA AMIGA

Sexta, 07 Outubro 2016 18:46
Nem era tão tarde, mas eu já estava de pijama e pronta para me recolher. Gosto muito dessa hora. Deixo-me inundar de silencio e sento na beira da cama, perto da minha cabeceira, para realizar uma rotina que já faço quase sem pensar. Primeiro pego o copo de água para tomar meus remédios. São dois: um cuida da minha pressão arterial e o outro do meu colesterol. Depois, acerto o despertador para o horário que preciso acordar no dia seguinte. Já não me lembro da última vez que acordei com o som desse velho despertador. Faz tempo que descobri um prazer muito grande de competir com essa máquina e desliga-la todos os dias sem ouvir o som que deveria me tirar do meu sono. Por fim, pego o livro e os óculos, me enfio nas cobertas e ajeito o travesseiro para ter a posição mais adequada para leitura. Todas as noites, deixo meu celular, sem som, carregando numa tomada que fica no corredor, perto da entrada do meu quarto. Quando nessa noite passei por ele, notei que havia sinais de mensagens. Ler ou não ler... Sabia que se tentasse ignorar essas chamadas, eu poderia ficar remoendo fantasias na cama. Era preferível saber o que se tratava. Das quatro mensagens que eu tinha, uma me fisgou. Uma grande e querida amiga, (preciso confessar que mudei seu nome e algumas partes da trama), Adélia, usando o áudio me contou que havia sido furtada. O ocorrido tinha sido no domingo à noite, entre 19:00 e 22:00 horas, quatro dias atrás. Senti um monte de emoções. Não hesitei, liguei imediatamente para Adélia. Puxa! Como você está querida? Estou bem, mas foi uma loucura. É muito estranho lembrar a cena que vivi ao entrar em casa e me deparar com tudo de pernas para o ar. Minha amiga descreveu aos borbotões e com detalhes os armários e gavetas que foram revirados e esvaziados. Eu escutava e fui percebendo uma crescente indignação dentro de mim. Adélia seguia falando. Eu moro em Ipanema, num edifício, meu apartamento é pequeno, são dois quartos... Lembra? Sim, lembro. Parece que quem esteve aqui sabia bem o que queria levar. Estava procurando joias e os dólares. Tenho montes de bijuterias. Não levaram nenhuma. Eram competentes. Profissionais. Eu tenho uma tranca especial na porta de casa. Você tem? Tenho querida, tenho sim, mas confesso que não a uso. Pois é, eu também tinha e não a usava. Agora, por favor, passe a usá-la. Isso pode lhe salvar de um dissabor como esse que eu tive. Concordei e segui na escuta. Adélia contou que no domingo pela manhã tinha saído com a irmã para passear. Foram andar de VLT no centro do Rio de janeiro. Almoçaram junto com a mãe e depois acharam bom descansar um pouco, já que à noite teriam um jantar em família. Adélia foi para o seu apartamento. Teve tempo de colocar música, ficar bem à vontade, se espalhar no sofá e ler uma revista. Deu uma boa cochilada. Quando despertou, olhou pela janela e notou que a luz do dia já estava sumindo. Precisava tomar um banho rápido, se arrumar e sair. Como sempre, ao sair, bateu a porta e verificou se estava bem fechada. Adélia lembra que quando pegou o elevador, verificou a hora. Eram 18:55. O jantar foi na casa do primo Renato. Era o jantar de Rosh Hashaná, Ano Novo Judaico. Muita comida gostosa, bolo de mel, peixe, frango, massa, compota, frutas, nozes e muito mais. Muita gente alegre e muitas risadas. Foi uma noite muito gostosa. Adélia lembrou que no ano anterior seu marido ainda era vivo, mas não lhe acompanhou nesse jantar. Ele passou por alguns meses de doença antes do desfecho triste e esperado. Adélia emocionada me disse que exatamente naquele domingo fazia um ano que ela havia ficado viúva. Tentei esticar meu braço e alcança-la para um abraço. Tentei encontrar as palavras mais próprias. Só saiu de mim um murmúrio. Pigarreei para reencontrar minha voz. Eu sei. Foi só o que consegui dizer. Adélia, então, voltou a falar de como ela se despediu da família no jantar e foi para sua casa. Logo ao entrar, notou na sala alguns objetos em cima da mesa. Achou estranho. Adélia é organizada e não costuma sair de casa deixando nada fora do lugar. Olhou para dentro de seu quarto e custou a entender o que estava vendo. As suas roupas estavam emboladas pelo chão. As gavetas esvaziadas. Sapatos, bolsas, papéis, fotos, remédios, etc. Tudo espalhado pelo quarto. O fundo falso do armário, onde guardava as joias, que o marido havia lhe dado, e os dólares que sobraram da última viagem, estava escancarado. Nem sombra do que antes estava lá dentro! Que desgraçados! Quebraram ou sujaram alguma coisa? Não, não fizeram nada disso. Apenas pegaram o que se propuseram a pegar. Que violência! Como você está querida? Não vou me deixar abater por isso. Foram-se os anéis e ficaram os dedos! Adélia, você tem direito a estar bem chateada... Não adianta! De que me adianta ficar com raiva? Você deu queixa na polícia? Dei. Você sentiu que eles vão procurar descobrir quem foi o ladrão? De jeito nenhum! Eles me aconselharam a passar a sempre usar a tranca, mas foram taxativos em afirmar que esse furto foi feito por pessoa que me conhece, que conhece meu apartamento e onde guardo meus valores. Começaram a levantar suspeitas. Segundo eles, nesse tipo de ação, o meliante pode ser a faxineira, ou alguém que tivesse feito algum serviço para mim ou até um de meus amigos e parentes. Como cereja do bolo, o delegado, sabendo do meu estado civil, me perguntou se eu trazia muitos homens para casa...Nunca se sabe quem se conhece num bar ou numa balada, não é mesmo mocinha? Canalha! O que você respondeu para ele, querida? Nada. Olhei para ele com indiferença, perguntei se faltava fazer alguma coisa, me levantei e fui embora. Você é mesmo incrível! Conseguiu trabalhar no dia seguinte? Calma! O dia seguinte ainda estava longe. Quando voltei da Delegacia, percebi que havia batido a porta e deixado a chave dentro do apartamento. Era mais de meia noite e eu estava sem ter para onde ir. Não poderia ir para casa de minha mãe, pois era muito tarde e ela poderia se assustar. Depois de ter sido roubada, não tinha a mínima vontade de ir para um hotel. Sentei nas escadas e comecei a rir. Afinal, o que eu estava vivendo parecia tão absurdo que se fosse um filme, ninguém iria engolir essa história. Deitar no corredor foi minha primeira opção, mas em seguida, num lampejo de coragem, veio o pensamento de tocar a campainha do vizinho e pedir acolhida. Você o conhece? Um pouco. É um moço de uns quarenta e muitos anos ou cinquenta e poucos. Depois que meu marido morreu, ele ocupou o cargo de síndico. Isso me fez considera-lo alguém de confiança. Você teve mesmo coragem? Tive sim. Toquei e ele apareceu de pijama e cara de quem estava dormindo. Custou para ele entender o que estava acontecendo. O cara é meio lerdo... Mas ele, por fim, me disse para entrar e dormir no sofá da sala. Puxa! Que sorte! Calma... Ainda falta alguma coisa? Quando eu deitei no sofá, logo sabia que não iria conseguir dormir. Fiquei sem jeito de perguntar se ele teria, por acaso, um rivotril... Cara! Não... Isso você não fez! Não fiz mesmo, mas tentei entender o que estava me incomodando, o que eu precisava fazer para melhorar um pouco a minha situação. Eu estava de calça jeans justa e uma camisa. Eu não consigo dormir assim. Ia ser uma noite dos infernos se eu não tomasse a atitude que tomei. Chega de suspense Adélia, fale! Eu encostei o ouvido na porta do quarto do vizinho. Escutei o ronco dele. Quase voltei para o sofá e abafei o caso, mas senti que eu não merecia sofrer nem um minutinho a mais naquela noite e bati na porta do quarto do meu protetor. Ele só abriu a porta na terceira batida. Dessa vez, a expressão dele quase me assustou. Ele questionou o que eu queria. Fui bem objetiva: Você pode me emprestar uma camiseta sua para eu dormir? Ele não esperava por mais esse pedido e talvez, por ter sido pego de surpresa, não teve outra reação que ir ao seu armário e providenciar o que eu precisava. Agradeci e voltamos a nos separar. Deitei no sofá e minha mente se pôs a rever as cenas do dia. Fui afastando uma a uma para poder tentar descansar. Quando o cansaço estava quase me vencendo, um diabinho me trouxe um pensamento torturante: você faz cocô, pela manhã, todos os dias quando acorda. Com essa maré de azar que você está vivendo, há grandes chances de você usar o banheiro do vizinho e não conseguir dar a descarga. Já pensou? Adélia, você jura que ficou pensando nisso? Fiquei. A noite toda? Uma boa parte.  Como termina esse horror? Eu usei o banheiro do vizinho. E? Deu tudo certo. Quando fui embora do apartamento do vizinho, agradeci a gentileza dele. Ele me respondeu que não foi nada e que estava reparando que para quem havia passado tamanha tensão, até que eu estava bem, parecia que eu tinha até um sorriso no rosto. Eu lhe respondi que me considerava uma pessoa de sorte, pois eu tinha certeza que as coisas poderiam ser bem piores... Pronto! Contei tudo que eu tinha para lhe contar! Só falta lhe mostrar as fotos que tirei do estado que encontrei meu apartamento. Vou lhe enviar. Certo, mas só as verei amanhã. Boa noite! Já está tarde. Vamos dormir. Como admiro você minha amiga querida! Você é inspiradora. Vai escrever essa história? Se eu escrever, muita gente vai achar que você não existe. Posso? Claro...

DEZ ANOS

Sexta, 23 Setembro 2016 14:34
(Será que um escritor tem o direito de cuidar de suas feridas através do exercício de sua arte? Na dúvida, peço permissão para exercê-lo, pois no impasse de me achar inconveniente, o fluxo que venho sentindo me produz a terrível sensação de estar como que entupida, atravancada e prestes a estourar. Se o leitor acredita que as minhas memórias podem lhe causar tristezas, ainda está em tempo de buscar outros passatempos mais adequados.)     Dez anos sem minha mãe. Não parece. De jeito nenhum! Posso afirmar que ela esteve comigo quase todos os dias, pelo menos em algum instante, por algum motivo possivelmente banal, como por necessidade que eu tenha sentido de tirar uma dúvida ao fazer o bolo de mel, o caldo de galinha, o pavê de amendoim ou por motivos mais importantes como saber sua opinião num assunto relacionado aos meus filhos e netos ou para me dar a força que muitas vezes eu preciso para seguir adiante. Exatamente há dez anos, meu marido estava em vias de comemorar seus 55 anos. Mamãe estava em tratamento oncológico. Na data exata do aniversário do meu marido sabíamos que minha mãe estaria sem forças. Como mamãe não gostava de perder nenhuma festa, comemoramos a data uma semana antes, num domingo à tarde no salão de festas do nosso prédio. Já não estou tão segura do cardápio que foi servido, mas acho que contratamos uma firma que fazia crepes doces e salgados. Não posso dizer com certeza quem estava nesse aniversário. Ainda não tínhamos netos, portanto nenhuma criança corria entre nós. Fizemos uma brincadeira.  Acho que até foi divertido, mas por mais que eu queira lembrar, não consigo ter acesso a nada além de lembranças esfumaçadas.  Lembro o depois. O dia seguinte. É isso que preciso colocar para fora de mim. Mamãe e eu acordamos bem cedo. Tínhamos hora para estar no Hospital Einstein e toda a estrada entre Campinas e SP para percorrer. Não me lembro de ter havido sustos ou perigos enquanto eu dirigia. Provavelmente, como em todas as outras muitas vezes que fizemos esse percurso com a mesma finalidade fomos cantando, conversando e apreciando as belezas que a estrada na hora do nascer do sol nos brindava. Chegamos, como sempre, a tempo de tomar café e comer biscoitos. A TV já estava ligada e disparava notícias. As secretárias nos receberam com afeto e eficiência. Era sempre assim. Não demorou e mamãe já estava fazendo o exame de sangue para saber se poderia receber a quimioterapia. Mamãe e eu ficamos num pequeno box sem janela, que era mobiliado com uma cama, um sofá que reclinava dando um grande conforto, uma mesinha e uma televisão para nos ajudar a passar as horas que tínhamos pela frente. Gostávamos de levar um jogo chamado TRIOMINÓ. Esse jogo nos distraia muito e chamava a atenção de médicos, enfermeiras e outros pacientes. Em algumas vezes, por conta de plaquetas baixas, mamãe recebia uma transfusão de sangue e a quimio tinha que ser adiada. Dessa vez, o resultado do exame de sangue da mamãe estava suficiente para que ela pudesse fazer a quimio. Chega a ser engraçado pensar como ficamos felizes em saber esse resultado. Faço força para obter imagens do que aconteceu logo após e as lembranças aparecem como se eu estivesse olhando num caleidoscópio: as gotinhas da medicação caindo muito lentamente, o cateter implantado perto do ombro da mamãe e o programa da Oprah Winfrey. Não sei quantas horas se passaram. É possível que mamãe tenha adormecido um pouco. Eu também posso ter cochilado. Tenho quase certeza que jogamos uma partida de triominó. Não sei quem ganhou... Quando tudo já estava quase acabando, mamãe se queixou de uma estranha dor de cabeça. Relatei para um dos médicos da equipe. Ele prescreveu um analgésico. A quimio terminou, mas a dor de cabeça não havia passado. Mamãe estava diferente de todas as outras vezes. Eu fui me aprontando para ir embora, juntando nossos pertences e começando a fazer as despedidas. Mamãe estava cansada, abatida, mas ainda assim percebi que ela estava contente por ter terminado. Quando estávamos quase indo embora, a secretária nos pediu para esperar, pois o médico queria falar conosco.  Esperamos. Não sei se foi muito ou pouco. Quando ele nos chamou, quis saber da dor de cabeça da mamãe. Eu não estava entendendo qual a razão de uma dor de cabeça ser tão relevante. Mamãe disse que não tinha melhorado nada. Ele pediu para ficarmos no hospital. Lembro que senti algo forte e ruim, como uma rasteira ou um soco. Tentei não demonstrar. Mamãe era obediente. Se o médico falou, ela não discutia, sabia que era para o seu bem. Avisei em casa e fui tratar da internação. Não sei se demorou. Não lembro. Ao fazer força para ver as imagens, me aparecem os corredores do hospital, o painel que avisa quem vai ser atendido na internação e o elevador panorâmico. Não tenho certeza, mas acredito que mamãe ainda deva ter dito alguma coisa sobre a vista que apreciamos do elevador. Depois, lembro-me de estar com mamãe num quarto amplo e confortável. Ela deitada na cama. Pela janela já se via a noite. Lembro-me da comida chegando e mamãe dizendo que não queria. Isso era estranho, muito estranho. Mamãe me disse que estava enjoada. A dor de cabeça estava pior. Acho que deram analgésicos mais fortes. Não me lembro de dormir, lembro-me de estar preocupada, aflita. No meio da madrugada mamãe piorou. Não sei dizer qual foi o sinal dessa piora. Não sei se ela me pediu para chamar uma enfermeira. Não sei se ela chorou ou gritou. Lembro-me de sair no corredor. Não lembro se gritei pedindo ajuda. Lembro-me que vieram e levaram rapidamente mamãe junto com sua cama para UTI. O quarto ficou enorme e eu fiquei absolutamente perdida lá. Uma enfermeira entrou e sem dizer nada me abraçou. Lembro-me bem desse abraço. Fui invadida por uma sensação quente e macia, como quando meu pai colocava suas mãos em mim. Acho que chorei. O escuro da noite entrava pelos meus ossos. Senti medo. Já fazia mais de dois anos que eu sabia que mamãe tinha cancer. Era uma luta e eu era boa para estar com ela e lutar junto, no entanto eu não estava preparada para uma intercorrencia. Mamãe teve uma hemorragia cerebral. Nunca mais mamãe conseguiu falar. Entrou em coma. Um neurologista sugeriu fazer uma cirurgia para aliviar a pressão no cerebro. Eu lembro que lhe perguntei se faria essa cirurgia na mãe dele e ele disse que sim, que tentaria de tudo. Consenti com esse procedimento, mas de nada adiantou. Com mamãe na UTI, eu não tinha mais um quarto onde ficar. Lembro-me que fui levada para fora do hospital, para a casa de Ruth, uma amiga. Apesar do carinho e cuidado que recebí, meu coração não aguentou ficar longe de mamãe. Essa não era a solução ideal. Então, durante uma semana, meu marido, meus filhos, noras e eu ficamos hospedados numa casa situada a alguns passos do hospital. Sei que amigos e parentes vieram nos visitar e confortar, mas não tenho clareza desses encontros. O resto do mundo girou e seguiu como era de se esperar, indiferente ao que se passava com mamãe. Não sei quase nada do que aconteceu fora do que estávamos vivendo. Não fiquei sem me alimentar. Deixar de comer era algo que aprendi com mamãe que não valia a pena fazer, um esforço inútil. Duas vezes por dia podíamos entrar e ficar do lado da cama da mamãe. Consigo ver a cena de mamãe careca, magra e sem o brilho dos seus lindos olhos azuis. Esteve sempre coberta para não sentir frio e havia um barulho de máquinas. No tempo que tive para estar com minha mãe e entender que ela estava indo embora, eu gostava de lhe fazer carinho. Pode ser que algumas vezes durante aquelas visitas eu fantasiei que ela iria acordar, iria sorrir e voltar tudo ao que era antes. Não sei. Não me lembro do que se passava na minha cabeça. Depois de todas essas recordações, estou me dando conta de que também está chegando o aniversário dos 65 anos do meu marido. Chega a ser incrível como consigo perceber claramente o sorriso doce que mamãe estampa no seu rosto e me faz lembrar que desta vez, onde quer que seja a festa, teremos nossos netos, quatro lindas crianças correndo entre nós... Le Chaim meu marido! À vida!  

UMA ORQUÍDEA MUITO ESPECIAL

Sexta, 19 Agosto 2016 11:59
Um vento forte interrompeu meu sono e a calma da noite. Portas e janelas bateram como se tivessem urgência de avisar que alguma coisa grave estava por acontecer ou como se apenas precisassem me fazer levantar da cama para tomar as providências necessárias. Devo ter demorado, pois quando levantei a chuva já estava começando a cair. É preciso coragem para sair debaixo das cobertas e se dispor a lidar com janelas histéricas numa noite de temporal. Sempre penso nisso, levo um tempo, mas acabo me sentindo forte o bastante para enfrentar as rajadas de vento e a chuva que costuma me molhar nessas situações. As portas da varanda estavam escancaradas e o chão da sala todo molhado. Nada muito grave, nada muito fora do comum. Quando ia fechar as portas que separam a varanda da sala, minha atenção se voltou para o vaso que estava balançando, ou melhor dizendo, tremendo por ação da chuva e da ventania. Era a bela orquídea com seis dos seus treze botões em flor. Fui capturada. Nós já nos conhecemos há algum tempo. Ela é linda e me sensibiliza muito quando ela esta florindo. É como se ela estivesse lentamente parindo até dar à luz a cada uma das suas flores. Alguns dias são necessários para acabar esse processo e o resultado que ela nos apresenta é sempre de muito capricho e arte. Penso que ela deve ficar exausta... Ao vê-la sujeita à intempérie, tive pena dela. Esse foi o meu sentimento. Achei que ela era frágil e não iria aguentar a tormenta. Num impulso, peguei o vaso da orquídea e coloquei-o a salvo na mesa da sala. Dei as costas para a orquídea e continuei a dar conta do que precisava fazer. Quando todas as janelas tinham sido fechadas, não havia mais nenhuma porta batendo, já tinha secado com um pano a água que a chuva fez entrar e eu poderia voltar para cama, ao passar pela sala, com uma nitidez absurda, escutei a orquídea me chamar. Num primeiro momento não acreditei. Como eu quis conferir, fui bem perto dela e esse pode ter sido meu erro. Quem lhe pediu para me trocar de lugar? Fiquei absolutamente pasma e atônita. Levou um tempo para eu começar a lhe dar alguma resposta. Parecia que ela se divertia com o meu assombro. Você poderia ficar sem suas flores, iria se machucar se ficasse exposta como estava. Como você pode afirmar uma coisa dessas? Fui criada para viver na natureza. Eu só quis lhe ajudar... Mas ninguém lhe pediu ajuda. Eu não queria ser ajudada. Eu queria sentir que era capaz de ficar onde estava. Queria sentir a chuva e o vento em mim. Você me tirou à força, me desrespeitou. Você deve fazer isso em outras situações... Pensa que é boa, que faz o bem, mas é uma tirana. Agora eu estava chocada. Como era possível? Sentei-me numa das cadeiras que rodeiam a mesa da sala e assim fiquei pertinho daquela flor. Minha orquídea tinha sido contundente. Não me deixou nenhuma brecha para escapar das suas acusações. Eu não tinha alternativa. Tive que vasculhar episódios em busca de situações semelhantes ao que havia acabado de passar. Fui lembrando... E lembrando... A flor estava muda. Deve ter adormecido ou não tinha mais razão para falar comigo. Eu não estava mais certa se devia ou não mexer com ela. Senti vontade de colocá-la de volta na varanda, mas havia acabado de aprender que precisava consultá-la. Tentei ser delicada e sussurrei baixinho: Você quer ir de volta para varanda? Agora está fresquinho lá fora, parece gostoso. A orquídea se mostrou diferente. Com um jeitinho muito maroto me fez saber que estava gostoso onde estava. Então... É, deixe-me ficar agora na sala. Ficarei linda para enfeitar sua mesa. E o vento? A chuva? Foi até bom não ter me molhado, nem passado pelas provações da tormenta. Agora já está tarde, estou cansada para ser novamente mexida. Vai dormir querida. Posso assegurar que suas palavras chegaram a mim de uma forma quase doce.  Do corredor joguei um beijo para ela e fui cambaleando para minha cama.

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