Rosali Michelsohn

Rosali Michelsohn

Tem grande paixão por exercer a psicologia tanto no consultório, quanto como consultora organizacional. Escrever textos vem sendo um desafio e uma paixão semanal desde 8 de março de 2008. Publicou seu primeiro livro, Vista da Janela, em 2011.

Hospedeira de Histórias

Sábado, 29 Setembro 2012 16:36
Sou portadora de uma riqueza ou uma esquisitice enorme. Algumas pessoas mais próximas desconfiam, mas talvez, por pensarem que podem me causar constrangimentos, preferem não tocar no assunto. Hospedo histórias na minha cabeça. São inúmeras e extremamente variadas. Muitas foram contadas por meu pai. Há aquelas que aprendi através de desconhecidos, que calharam de esbarrar suas vidas na minha. Muitas outras saíram de livros que tive o prazer de ler. Ainda que me esforce, já perdi a lembrança das origens de muitas delas. Vivem dentro de mim, mas em determinadas e especiais circunstâncias, se desprendem de onde estão alojadas e fazem questão de marcar presença. Foi assim na semana passada, quando numa sala de espera, que não vem ao caso saber de quê, eu conversava com o homem sentado à minha frente. Ele queria mudar de vida. Tinha uma excelente oportunidade para deixar de ser empregado e ter seu próprio negócio. Minha escuta atenta deve ter lhe encorajado a prosseguir. Detalhou a perda que viria a sofrer, por abrir mão de seu polpudo salário e benefícios. Então, confessou para mim, que este dilema estava fazendo com que ele vivesse como um condenado. Tinha medo de adoecer. Senti uma inquietude. Conheço bem essa sensação em mim. Pedi permissão para lhe contar uma história. Obtive-a. Era uma vez um moleque de calças curtas, que chorava descontrolado, chamando a atenção dos transeuntes. O que está acontecendo? Perguntou-lhe uma senhora, dessas raras que ainda têm tempo para se interessar pelos problemas alheios. Entre soluços, o menino explicou-lhe que havia ganho uma moeda e, inadvertidamente, deixou-a cair no bueiro. Com doçura, a meiga criatura se apressou em saber o valor e, rapidamente, repôs a quantia na mão do menininho chorão. Por uma fração de segundos, o rosto do garoto se iluminou, mas logo o choro recomeçou. Dessa vez, a barulhada era ainda mais forte. Era tamanha a choradeira, que a senhora teve dificuldades em se fazer ouvir, quando lhe indagou sobre o que lhe fez ficar infeliz novamente. Fungando e espalhando as lágrimas pelo rostinho, o moleque foi dizendo que se a primeira moeda não tivesse caído, agora ele teria duas... A história termina assim e foi desse jeito que contei. Deixei um leve suspense no ar, como o de um gosto difícil de decifrar. Estava saboreando o silêncio deixado pelo retorno da história para dentro de mim, quando ouvi meu nome sendo chamado. Tinha que catar minha bolsa, guarda-chuva e colocar uma revista no lugar, além de me despedir do homem com quem havia conversado até então. Deixei a pressa esperando e achei um tempo para um abraço terno e carinhoso. E tem gente que detesta salas de espera...

De pai para filha ou vice versa

Sábado, 29 Setembro 2012 16:31
Sempre critiquei um hábito incomum de meu pai. Ele bufava. Eu interpretava esse seu comportamento, como um sinal de que alguma coisa não estava bem ou, pelo menos, que estava difícil para ele. Tanto ele bufava no volante do seu carro à procura do caminho certo, quanto no corredor de um hospital, após visitar alguém querido. Quando bufava, seu rosto se transfigurava e me fazia lembrar imediatamente de meu avô, seu pai, que era mestre nesta arte. Papai era dotado de um ótimo humor, mas era ansioso, sem paciência e também explosivo. Não seria exagero compará-lo a uma panela de pressão. Acredito que por conta de crescer habituada e desencanada com as bufadas de papai, nunca senti medo de ter que enfrentar alguém muito sério, carrancudo ou mesmo que bufava. Faz pouco tempo, confesso meio sem jeito e até incrédula, comecei eu a bufar. Das primeiras vezes, achei minha atitude estranha. Como pode? Nada a ver comigo! Detesto reconhecer que adotei tal comportamento deselegante. Como um detetive, passei a me perseguir para identificar a raiz dessa situação. Peguei-me no pulo, diversas vezes, bufando quando estava para chegar atrasada num compromisso ou quando tinha que dar conta de várias coisas ao mesmo tempo. No entanto, para enorme surpresa minha, notei que já ando bufando regularmente, tipo algo que já faz parte de um ritual, como quando entro no carro, ajeito os espelhos, dou a partida e... Bufo. Oh céus! Criei um hábito ou pior, um vício! Minhas netas, tão novinhas, já notaram e até já as peguei me imitando. Qualquer dia desses, elas vão sair escrevendo num jornal que me pareço com uma panela de pressão... Como são espantosas certas ironias da vida! E falando em espantos, sei que nem todo mundo vai acreditar, mas posso jurar que, apesar de estar sozinha, ouvi umas risadas da última vez que bufei. Senti um arrepio estranho. Na verdade, não posso contar isso para qualquer um, pois podem me achar louca. Posso afirmar que eram risadas iguais a que meu pai, quando estava vivo, soltava para expressar seu contentamento. As risadas ficaram cada vez mais nítidas e deixaram de me arrepiar. Foi um momento maravilhoso. Senti como se um véu suave me envolvesse. Saboreei cada segundo desse meu jeito de aplacar saudades. Ah! Papai...

Transtorno Bipolar do Humor

Sábado, 29 Setembro 2012 16:26
Sinto arrependimento de muitas coisas misturado com um estranho impulso de escapar, mas não sei para onde ir. Foi assim que ele começou a falar quando lhe sugeri que contasse alguma coisa sobre si mesmo. Como fiquei calada, ele continuou. Sou um cara esforçado, mas não sou persistente. Raramente alcanço bons resultados. Hoje não saberia dizer quais são meus sonhos. Nunca fui um bom aluno, ainda assim consegui terminar uma faculdade. Por ter sido muitas vezes alvo de gozação dos colegas, adquiri vergonha de fazer perguntas em sala de aula e em reuniões de trabalho.Assim, finjo que sei e, em geral, me ferro. Tenho trinta anos. Transar não é fácil para mim, embora, em algumas épocas, pareço uma máquina de fazer sexo. Penso muito e me atormento demais. Sou acelerado. Quem é assim como eu na família? Nunca pensei nisso, mas meu pai tem muitas coisas parecidas comigo e acho que meu avô era assim também. Acordo várias vezes durante a noite. Não tenho paciência de ler livros. Quando tento, me pego pulando linhas e sem entender nada do que leio. Escrevo mal. Qualquer pequeno problema se torna um horror para mim, pois meus pensamentos o ampliam e me torturam. Falo rápido e mudo de foco no meio do caminho, o que torna minha comunicação complicada. Às vezes, me agarro firmemente a uma idéia e quero convencer meio mundo que descobri alguma coisa extraordinária. Algumas pessoas já me disseram que chego a ser muito inconveniente. Por outro lado, há dias, em que me encolho na cama e quero sumir. Não consigo me levantar, não tenho apetite e em vez de euforia e agitação, fico apático. Já pensei em me matar. Fui procurar um neurologista e ele me medicou. Fiquei bem enquanto tomei a medicação indicada. Estava mais calmo e até mais feliz. Arranjei um emprego legal. Parei, pois meus pais se preocuparam que eu iria me viciar nos remédios. Não, meus pais não são médicos. Moro com eles. Depois de três meses sem os remédios, fiz besteiras, gritei com meu chefe e fui mandado embora do tal emprego legal. Não, nunca ouvi falar sobre transtorno bipolar do humor. Pode ser isso o que eu tenho? Balancei afirmativamente a cabeça, ao mesmo tempo em que compreendia plenamente a urgência do seu pedido de ajuda para escapar de tanto sofrimento. 

Vista da Jenela

Sábado, 29 Setembro 2012 15:55
No livro Vista da Janela está o que vê a autora Rosali Michelsohn, crônicas em que o personagem poderia ser qualquer um dos que têm o livro em mãos... Seu texto é tão interativo que provoca reações nos seus leitores. Reações imediatas e sempre uma pergunta: "foi com você, mesmo, que isso aconteceu?" E, invariavelmente, um pensamento: "nossa, poderia ser comigo!" Vista da Janela tem 73 crônicas, que passeiam pelo “universo do dia a dia” dos leitores. Essas crônicas se transformaram em mais de 160 comentários de leitores, anexados ao final do livro, que deixaram sua marca na continuação das histórias... Assim, são 73 crônicas e 167 histórias reunidas nesse livro que vai mostrar que são todos cronistas de si mesmos! Rosali Michelsohn é psicóloga e consultora organizacional, carioca e moradora de Campinas desde 1984. A reunião de algumas de suas milhares de crônicas neste livro atende ao desejo dos que sempre a leem atentamente, semanalmente, de concentrar as tantas histórias que vivem como se fossem suas. Comprar - Editora Reflexão  Comprar - Livraria Cultura  Comprar - Livraria Travessa

Rosali Michelsohn

Sexta, 28 Setembro 2012 11:29
Moro em Campinas, SP. Aqui moram meus filhos, noras, netos, bons amigos e é onde me sinto em casa. Nasci no RJ em 20 de julho de 1953. Em criança, na hora de dormir, pedia aos meus pais para que me contassem as histórias de suas vidas. Adormecia fascinada. Frequentei até uns oito anos uma pracinha ao ar livre onde andava de bicicleta, pescava peixinhos com copos de sorvete num lago, jogava bola, botão e brincava com bonecas. Ingressei no Colégio Israelita Brasileiro Scholem Aleichem no maternal e só sai para entrar na Faculdade de Psicologia da UFRJ. Prestei concurso e cursei também Administração Postal na PUC do RJ. Fiz mestrado em Psicologia Social na UFRJ, mas não defendi tese. Fiz especialização em Dinâmica de Grupos pela SBDG e passei a enxergar muita coisa diferente. Com quinze anos comecei a namorar firme. Casamos jovens e apaixonados. Tivemos dois filhos,fizemos muitos amigos, cursos, uma empresa de consultoria chamada TANGRAM e várias viagens maravilhosas. Com 25 anos tive que lidar com a dor e o horror da perda do meu único irmão. Tenho certeza do quanto esse trauma me marcou, me sacudiu e me ensinou sobre o valor e a fragilidade da vida. Tenho grande paixão por exercer a psicologia tanto no consultório, quanto como consultora organizacional. Descubro tempo para olhar minhas plantas, para cozinhar alguma novidade, para admirar a lua cheia no meio da madrugada iluminando meu quarto, para fazer hidro ginástica, para brincar e reaprender a ser criança com os netos, para almoçar com amigas e chorar de rir com elas, para ler meus autores preferidos e descobrir novos, para ver bons filmes e bater papo com amigos. Escrever textos vem sendo um desafio e uma paixão semanal desde oito de março de 2008. Publiquei meu primeiro livro, Vista da Janela, em 2011. Busco me aperfeiçoar na arte de fechar os olhos e mergulhar em mim.

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