Rosali Michelsohn

Rosali Michelsohn

Tem grande paixão por exercer a psicologia tanto no consultório, quanto como consultora organizacional. Escrever textos vem sendo um desafio e uma paixão semanal desde 8 de março de 2008. Publicou seu primeiro livro, Vista da Janela, em 2011.

INESQUECÍVEL

Segunda, 19 Março 2018 09:10
Era uma tarde quente de sábado, disso lembro muito bem. O ar condicionado estava ligado. A bandeja do almoço já tinha sido retirada, mas o cheiro do bife ainda estava passeando pelo quarto. A claridade entrava pelas janelas enormes do quarto de hospital que papai ocupava há uns três ou quatro dias. A vista do sexto andar parecia um quadro vivo: casas, árvores, céu azul, nuvens e até carros e pessoas em movimento. Eu olhava pela janela e me distraía, enquanto escutava o ronco forte do papai que cochilava. Papai estava cansado. Havia feito naquela manhã um exame invasivo no pulmão para saber se estava com metástase. Papai escutou um leve barulho de batidas na porta e despertou. Meus amigos entraram. Mauro e Eva. Vieram visitar papai. Mauro se aproximou do papai e ficou parado ao lado de sua cabeceira. Eva parou perto dos pés de papai. Vamos sentando gente, disse meu pai. E então, quais são as novas? Nenhuma novidade. Tudo igual. Foram essas as frases do meu amigo. Então manda uma piada... Ah! Sou péssimo para contar piadas e Evinha também. E as notícias de hoje? Eva se adiantou e respondeu que não haviam lido jornal, nem escutaram noticiário. Bem gente, então como vocês querem fazer uma visita a alguém que está num hospital? Quem está aqui preso gosta de escutar novidades, rir de alguma anedota ou acompanhar uma história ou caso como se estivesse vendo um filme. Aliás, vocês viram algum filme bom ultimamente? Muito sem graça, Mauro balançou negativamente a cabeça. Eva só fez concordar com o marido. Puxa! Assim está mesmo difícil, disse meu pai e continuou: Vou dar um jeito nisso. Eu fui assistir a um filme que gostei demais. Chama-se “Melhor Impossível” com o Jack Nicholson. Eu estava de espectadora no quarto, mas nesse momento me juntei a papai para reforçar como o filme era bom. Provavelmente, disse papai, tem algum shopping com cinema aqui por perto. Tem sim, disse a Eva. Provavelmente, continuou ele, esse filme deve estar passando. Os dois se olharam e concordaram com a hipótese do meu pai. Minha filha, que horas são? Quase três. Vai dar certo! Podem ir! Mauro e Eva não estavam entendendo. Vocês podem ir agora e voltem aqui amanhã para conversarmos sobre o filme. Assim vocês terão assunto. Um silêncio incômodo foi cortado pelo riso sem graça da Eva. Eu estou falando sério, disse meu pai com uma voz calma e baixa. Muito sério. De verdade. Vocês vão notar a diferença amanhã quando voltarem e estivermos animadamente conversando. Então... É mesmo pra gente ir? Eva ainda questionou. Papai soltou uma exclamação para não deixar nenhuma dúvida: Claro! Vamos Evinha, o pai da Rosali tem razão. Amanhã voltaremos. Após a saída de meus amigos, papai não voltou a cochilar, havia perdido o sono, mas estava bem. Respirava tranquilo. Notei seus pés. Eu sempre olhava para ver se estavam inchados. Não estavam. Tive a impressão de ver sua unha do dedão um pouco arroxeada. Deveria mostrar para alguma enfermeira? Achei que era impressão. Fui desviada desses pensamentos quando um médico, que eu nunca tinha visto, entrou no quarto sem bater. Usava o jaleco impecavelmente branco, bem engomado, era baixo, um pouco gordo, usava óculos de lentes grossas e devia ter uns setenta anos, como papai. Não lembro se ele se apresentou, nunca soube o nome desse médico. Sem fazer nenhuma introdução, foi direto ao assunto: Senhor Chaim, vim lhe contar o resultado do seu exame. O senhor sente cansaço, pois tem fungos nos pulmões. É uma coisa chata, demora a tratar e curar, mas é melhor que câncer. Bem melhor! Depois que o senhor se recuperar desse exame vamos começar a atacar esses fungos. O médico perguntou de forma protocolar se havia alguma dúvida e em seguida se retirou do quarto do papai. Depois do espanto e de alguns minutos para entender o que havia sido dito, a notícia foi comemorada e espalhada pelos quatro ventos para acalmar todos os amigos e a família. Assim que a agitação cedeu, papai quis ficar só com meu marido e assistir futebol. Pode ir Rosali e leve sua mãe. Descansem. Vocês aqui só vão atrapalhar, pois não gostam de futebol. Já vi vocês aqui hoje o dia todo. Chega. Eu estava acostumada ao jeito do meu pai e achei que ele tinha razão. Vamos mãe. Não fizemos uma despedida demorada, muito menos dissemos falas especiais, afinal não tínhamos a menor ideia do que estava por acontecer. Por conta de uma embolia pulmonar papai faleceu pouco depois que saímos. Foi inesperado. Foi um horror. Foi um pesadelo. Foi uma dor sem fim. Foi um nó na garganta que custou a desatar. Foi um desespero. Foi uma perda terrível. Foi há vinte anos. No dia seguinte, domingo, o casal que estivera sem assunto voltou, conforme havia sido combinado.      

JOGOS MODERNOS

Quarta, 28 Fevereiro 2018 16:52
Eu ainda estava na cama tentando resolver o dilema de levantar ou me permitir um tempo de ócio a mais, quando o barulho do marido andando no corredor me fez decidir por colocar os pensamentos em ordem e ver o que tinha para fazer primeiro.  Decidi que o que queria fazer, antes de qualquer coisa, era lembrar o episódio que aconteceu no final da noite anterior. Chegamos de uma das nossas curtas viagens para o RJ. Quatro dias, muitos encontros e muitas emoções. Realmente muitas emoções! Emoções que ainda precisam ser mais bem digeridas, mas que, no momento, basta que se saiba que existiram. Comecei a lembrar de que quando saímos do aeroporto estava escuro e precisávamos achar um carro branco, de certa marca com um final de placa específico, acho que 73. A área de desembarque do aeroporto tem um espaço enorme, suficiente para uma caminhada saudável, mas eu não estava para isso àquela hora. Minha memória se juntou com a sensação de que estávamos num jogo que começou na escolha do aplicativo para encontrar o carro que nos levaria para casa. Não estou exagerando. Juro! Dá para ver pelo modo como meu marido se comporta cada vez que precisamos usar um veículo para nos transportar. Pegar um taxi virou a opção dos perdedores. Nós não! Meu marido tem três aplicativos, sendo que um ou dois deles se subdividem. Ele pode avisar que não tolera cigarro e vai gostar de ter balinhas e água para dizer que nem quer. Definitivamente nós conseguiríamos pegar um lindo carro, pelo menor preço e que fosse o mais rápido para chegar ao nosso destino. Assim que o avião pousou, meu marido pegou seu iphone e a busca começou. Seus dedos se moviam freneticamente e diante de uma e outra contrariedade um pequeno palavrão era cuspido de sua boca. Quando o carro era satisfatório, a distância que ele estava não era. Meu marido achou por bem me dizer que nossa cidade ainda não está entre as mais bem servidas deste tipo de serviço.  Eu já tinha conhecimento disso e devo ter respondido com um desses sons que não chegam a ser uma palavra. Da saída do avião até a saída do aeroporto há um percurso de cerca de quinze minutos. Durante os primeiros cinco minutos meu marido foi mexendo no seu aparelho e andando numa velocidade que me obrigou a ir bem mais depressa que meu corpo cansado estava querendo. A busca dele seguiu incessante. Ele passou a me mostrar quanto cada um cobrava. Meu marido estava com a faca e o queijo nas mãos para apertar um botão ou dar um comando e ganhar o tal jogo. Eu sabia que não era conveniente interrompê-lo e assim, após uns poucos minutos ele me anunciou triunfante que o nosso carro seria um HB, branco, com os números finais da placa, não tenho certeza, 73 e até disse o nome do motorista, que pode ter sido Rodrigo, ou outro qualquer. Como jogadores na última fase do jogo, passamos pelos portões do aeroporto em direção à área de desembarque. Agora só precisávamos achar o carro. Meu marido é mais alto que eu e com seu olhar consegue sempre varrer um campo bem grande. Andamos bastante de um lado para o outro. Fique perto de mim, ele me disse com uma voz firme, enquanto corria e buscava achar o carro que para nosso desgosto não estava facilmente à vista. No meu iphone diz que o carro está estacionado aqui. Experimentei dizer que o motorista poderia ter dado uma volta. Impossível! O aplicativo mostra que ele está aqui. Depois de um tempo, ousei dizer que não queria mais andar. Queria ir embora. Achei um lugar num banco e me sentei.  Empaquei. Meu marido começou a perceber que iria ser desclassificado do jogo. Ficou desacorçoado. Experimentei ajudar: Liga para o motorista. Já liguei! Ele não atende. Vou cancelar e buscar outro...  Nesse momento, enxerguei um taxi parado bem na nossa frente. O motorista do taxi saltou. Meu marido leu meus pensamentos e me disse que ele deveria estar aguardando alguém. O senhor está aguardando alguém? Não, estou livre. Quanto custa até o centro? O valor que ele deu era talvez 40% a mais que os carros que usam aplicativos. Rapidamente eu falei que o valor estava bom e que nós iríamos com ele. Meu marido entrou mudo no carro. Entre dentes me fez saber que ainda pagaríamos mais do que foi dito. Eu retruquei dizendo que pagaria quanto fosse. Ele foi eliminado do jogo. Estava amargando sua derrota, quando o motorista experimentou puxar conversa. Mudo ficou e eu troquei algumas falas com o motorista. Na porta de casa, meu marido me questionou se eu tinha dinheiro à mão. Achei minha carteira e tirei as notas para contar o dinheiro. Pronto! Por favor, confira se eu lhe dei o valor correto. O motorista contou e recontou. Não! A senhora me deu a mais. Ele me devolveu vinte e poucos reais. Boa noite e bom descanso! Vocês parecem cansados, mas já estão em casa e vão descansar. O senhor percebeu mesmo nosso cansaço. Boa noite para o senhor também. Meu marido se rendeu e desejou boa noite para o motorista. Game over.

VÉSPERA DO FIM DE FÉRIAS

Quinta, 18 Janeiro 2018 08:39
Não seria correto simplificar tudo que passei numa noite mal dormida assumindo que apenas foi desagradável ficar sem dormir direito. Preciso confessar que acima de tudo foi espantoso. Fiquei rolando na cama na véspera do fim das minhas férias. Nunca imaginaria que tal fato acontecesse, visto que estou com 64 anos e já trabalho há mais de trinta e cinco anos como psicóloga clinica. A sensação de obrigação e volta à rotina pode ter tocado numa questão delicada: o que faço com o precioso tempo de minha vida?  Ao tentar me responder fui levada para lugares não totalmente estranhos, mas lugares não muito visitados. Tenho plena noção que o exercício da psicologia me tornou alguém que se especializou ou se refinou na arte de escutar. De uma forma espetacular, percebi que minha mente abriu portas e janelas para expor os mais diversos materiais que andei escutando e que estavam registrados na minha memória. Num primeiro momento, talvez num ataque de covardia, quis resistir e adormecer. Quis acabar com aquele desfile de desejos, dramas, ambições, doenças e muito mais. Segurei firme meu travesseiro e fiz dele um escudo. Dobrei as pernas. Estiquei as pernas. Rolei para um lado. Esbarrei no companheiro, que demonstrou sua insatisfação através de um muxoxo. Rolei para o outo lado. Tentei colocar um travesseiro a mais na cabeça. Nada deu certo! Entendi por fim que era impossível não aceitar um convite vindo de uma instância tão especial e simplesmente adormecer.  Resignada aceitei a situação. Foi como se aceitasse fazer as pazes comigo mesma e parasse de brigar. Achei uma posição boa ao colocar uma mão no peito e outra na testa. Minha respiração entrou numa cadência e num ritmo suave. Percebi que me acalmei. Nesse momento, fiquei à disposição da minha alma e de tudo que ela achava que eu precisava revisitar. E assim foi. Escutei relatos de adolescentes entediados e zangados com seus pais. Escutei jovens sem planos, sem alegria de viver. Escutei noras se queixando de sogras e vice versa. Escutei profissionais estressados e irremediavelmente adoecidos por conjunturas venenosas. Escutei casais que já se amaram e se perderam no meio de algum caminho nublado. Escutei pessoas que querem ser alguém, mas não conseguem chegar nem perto do que almejam. Escutei pais e mães que não sabem colocar limites e educar seus filhos. Escutei pessoas de todas as idades falando de desejos, amores e sexo. Escutei pessoas doentes cheias de medo da morte. Escutei idosos resignados com a morte e cheios de raiva pela vida que estão levando. Escutei pessoas que querem ser respeitadas. Escutei também uns poucos relatos de sucesso, de conquistas e de alegrias. Não sei exatamente quanto tempo fiquei vivendo essa retrospectiva. Lembro que não senti vontade que acabasse, mas acabei sendo vencida pelo cansaço e adormeci. Acordei com o barulho do despertador. Por um reflexo condicionado, pulei da cama. Entrei na sequencia de atividades que me levaram em pouco mais de meia hora a estar pronta para ir trabalhar. O trajeto de minha casa até meu trabalho é curto e em quinze minutos a pé cheguei ao prédio onde tenho o meu consultório. Entrei no elevador e respirei fundo. Olhei-me no espelho, sorri sem exagero, gostei do que vi e me enxerguei pronta para recomeçar a trabalhar. Ainda no elevador, escutei assombrada uma voz zombeteira e estridente que me provocou: Está mesmo?    

VÁ VOCÊ TAMBÉM!

Quinta, 07 Dezembro 2017 16:51
No primeiro domingo de dezembro, um grupo de trinta pessoas fez acontecer o último evento do ano de 2017 da Biblioteca Regina Bin da Sociedade Israelita Beth Jacob de Campinas. Visitamos o Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto em SP. Tivemos a honra de sermos guiados pelo Professor Reuven Faingold e também pela Orientadora Educacional Ilana R. Iglicky durante três horas dentro do Memorial. Todos do grupo foram unânimes em salientar o conhecimento do Professor Reuven e sua capacidade de transmitir e contextualizar os fatos e dados históricos. Ilana explicou e apresentou a parte referente à cultura dos imigrantes judeus com muita propriedade. Somos gratos por tanta generosidade de ambos. Visitar um Memorial do Holocausto é dispor-se a reverenciar os Seis Milhões de Judeus inocentes assassinados e fazer reflexões sobre a capacidade de intolerância, brutalidade e ódio que proliferaram nas mentes nazistas. Há quem diga que não quer mais saber desse tema, já se abalou demais com fotos, livros e filmes. São pessoas que acreditam que precisamos de alegria e que não devemos remoer eternamente as vozes que nos chegam dos escombros. Sem querer escutar tais vozes, ou sussurros desesperados, essas pessoas evitam se conectar com a responsabilidade de passar adiante tudo o que aconteceu. Parece não se interessar pela onda de negação do holocausto. Também não lhes interessa se os jovens, estudantes de escolas públicas ou particulares, sabem mais ou menos sobre os fatos relacionados ao nazismo, holocausto e II Guerra Mundial. Esquecer é o caminho para alguma forma de repetição e é um insulto à memória de todos que foram executados no holocausto. Definitivamente esquecer não beneficia a nós, judeus, nem a nenhuma pessoa interessada na paz e na justiça social. No mesmo prédio e não por acaso, também funciona o Memorial da Imigração Judaica. A ligação entre os sobreviventes, os que escaparam antes do holocausto e toda a riqueza cultural que veio para o Brasil é feita com arte e delicadeza. A arquitetura e a decoração de todo o prédio nos fazem esquecer que estamos no Bom Retiro e nos convidam a viajar para algum lugar que não existe. Dias depois dessa visita, meus pensamentos apontam para muitos questionamentos, que ainda precisam ser digeridos, e uma certeza: Cada pessoa que passa pelo Memorial, acaba aceitando, sem fazer nenhum contrato, a obrigação moral de fazer outras pessoas irem lá. Esse é um Memorial que precisa ser conhecido por toda a comunidade judaica, para que todos os judeus saibam que há quem esteja preocupado com assuntos relevantes como esse. E, é um Memorial para ser visitado por escolas, faculdades e grupos das mais diversas origens para que a história não se deturpe jamais! Kol ha Kavod para todos que de alguma forma estão ligados a idealização, construção e manutenção do Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto!  

VIVENDO COM IMPERFEIÇÕES

Terça, 19 Setembro 2017 16:27
Quando abri a porta, conheci Seu João Batista. Chamou-me a atenção seus olhos cansados. Pode ser que simplesmente espelhavam os meus. Era um feriado e fazia um calor tremendo. No dia seguinte chegariam meus parentes que iriam ficar três dias em casa e os azulejos de uma das paredes da área de serviço estavam estufados, prestes a cair. Na véspera, tentei trazer algum dos meus conhecidos que sempre me salvaram em situações assim. Nenhum estava disponível. Só depois do feriado. Eu estava quase apelando para a internet, quando fui interceptada pelo meu marido que me questionou sobre quem me daria referencias de pessoas desconhecidas... Achei que ele estava sendo sensato e merecia a oportunidade de resolver esse desafio sem minha intervenção. A sorte lhe sorriu e lhe colocou em contato com o Seu João Batista, vizinho do nosso porteiro da noite e segundo esse, um homem religioso e de total confiança. Esse santo homem se dispôs a vir em pleno feriado nos salvar. Quando Seu João entrou na área de serviço do nosso apartamento, notei algo peculiar no seu jeito. Era como se ele estivesse tentando escutar algum som, alguma mensagem vinda daquela parede adoecida. João ficou um bom tempo sendo só silencio.  Quando se deu por satisfeito, mudou sua forma de proceder e passou a acarinhar os azulejos, como se fossem doentes e ele estivesse ali para curá-los. Confesso que fui capturada logo de início assistindo a essa cena tão poética. Enquanto Seu João e eu estávamos deslumbrados, meu marido, muito mais prático que eu, relatava para João uma aula que viu no youtube sobre como salvar azulejos prestes a cair colocando fitas adesivas. A poesia e a urgência prática, em geral, não são companheiras. Havia a necessidade de tinta e outros materiais. Quis o destino que meu marido fosse resolver essas pendencias. Fiquei só com Seu João. Com cuidado para não lhe constranger, ofereci fita adesiva. Seu João não riu com a boca, mas notei que por dentro gargalhava. Com a mesma mão cuidadosa que antes fez carinho nos azulejos, ele bateu aqui e ali para me mostrar que o assunto era grave e sem tempo para muitas elucubrações. Seu João estava sem nenhum tipo de proteção. Ofereci-me para lhe trazer um casaco do meu marido. Ele disse que não precisava e no segundo seguinte um estrondo enorme marcou a queda de todos os azulejos da parede. Todos! Evidentemente, todos se quebraram. Alguns caíram em cima dele e outros em cima de mim. Nós não nos machucamos. Não sei dizer a razão. Pode ser que João seja mesmo santo, tenha o corpo fechado. E eu? Acho que tive muita sorte. A poeira e a sujeira de cacos de azulejo estavam por toda parte na área de serviço. Não havia pressa, nem urgência na atitude contemplativa do João. Quis chama-lo de volta ou tirá-lo do transe e me prontifiquei a ser sua ajudante. Ele me mostrou que trouxe uns sacos grossos onde poderíamos colocar o entulho. Fui esperto, ele se gabou. Sem luva, nem nada para proteger as mãos, fui catando os pedaços de azulejos e promovendo um início de arrumação. Levamos um tempo, mas conseguimos. Então, João me contou que quando ele estava saindo de casa, seu filho chegou com os netos. Um casal de gêmeos de um ano e meio. Lindos, espertos, umas gracinhas. Entendi que era hora de fazer um intervalo. Vi as fotos no celular dele, enquanto tomamos café expresso e comemos uma torta de ricota. Ele me contou que a esposa estava doente. Era ele que fazia tudo agora. A senhora me ensina a fazer essa torta? Escrevi a receita e lhe entreguei. Ela vai ficar maluca quando eu aparecer com essa gostosura. Quer ir para sua casa? Até que horas as crianças vão ficar lá? Não sei. Nunca se sabe. Meu filho não avisa se vem e não diz quanto tempo vai ficar. Chato, mas ainda bem que vem... Claro! Nem ligo! Acho que é uma boa ideia ir embora agora e voltar depois de amanhã para passar a massa e pintar. Amanhã não é possível? Não, amanhã tenho compromisso. Deixa que lhe ajude a levar esses sacos. A senhora é uma boa ajudante. Obrigada. Quando voltei para casa, fechei a porta da área e adiei o fim da história. No dia seguinte, como previsto, meus parentes chegaram. O problema na área de serviço não afetou em nada o ânimo ou a programação dos visitantes. No sábado pela manhã, dia em que Seu João voltou para finalizar seu trabalho, fui com meus familiares passear numa exposição de flores, enquanto meu marido foi providenciar os pedidos que Seu João lhe fez. Deve ter sido um dos dias mais quentes do ano, mas meus tios e primos não se deixam abater por coisas miúdas como temperaturas elevadas ou falta de umidade no ar. Eles são resistentes e determinados. Vimos quase tudo o que tínhamos direito e voltamos para almoçar em casa. A tarde já estava no meio quando fui examinar as quantas andava o serviço do Seu João. Difícil explicar. Ele se revelava ao pintar a parede. Pintava exibindo uma total falta de habilidade. As imperfeições eram várias e notórias. E ele pintava. Em um dado instante, ele parou e me perguntou se eu não achava que o seu trabalho já estava merecendo um Salve e uma Aleluia. Como fui pega de surpresa por tal questionamento, pigarreei e respondi que valia a pena olhar aqui e ali alguns probleminhas antes das exclamações. Ah! Estava bem pior, já remendei o máximo... Entendi onde nós havíamos chegado. Salve Seu João! E Aleluia também! Então acabou? Não! Ainda vou jogar água no chão. Deixa. Sou a ajudante. Esse é meu serviço. Tem razão. Paguei o combinado. Gostei muito de trabalhar na sua casa. Vou lhe dizer um segredo: a senhora sabe que eu nunca fiz isso na minha vida para ninguém? Já pintei minha casa e já quebrei uns galhos por lá, mas assim como esse serviço é a primeira vez. Esse dinheiro está chegando numa boa hora. Estou orgulhoso de mim! É para estar orgulhoso mesmo, Seu João... Quando precisar, me chame e pode me indicar também. Claro, Seu João. Com o tempo a senhora nem vai mais perceber os furinhos ou as partes que não estão muito lisas. Vai esquecer ou vai ter outras coisas para pensar. Eu sei Seu João, sei que a vida segue. Tem certeza que vai dar conta de limpar tudo sozinha? Tenho. Está calor e vai ser gostoso jogar água nos pés. Ele foi. Foi e deixou mais que marcas na parede. Varri, catei e depois joguei água no chão. Era como se eu seguisse conversando com aquele homem. Dois dias depois, bem cedo pela manhã, com meu copo de café com leite na mão, tive vontade de ir olhar novamente a parede pintada pelo Seu João. Ela estava do jeito que ele a deixou, mas para minha grande surpresa, alguns pisos no chão estavam levantados. Olhei bem para me certificar de que era uma cena real. Era. Nada de pânico. Provavelmente os azulejos que despencaram da parede provocaram essa situação. Chamei meu marido para que ele tomasse ciência do novo fato. Foi gostoso quando ele me abraçou e com bom humor selou aquele instante: Vamos chamar o Seu João?  

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