Rosali Michelsohn

Rosali Michelsohn

Tem grande paixão por exercer a psicologia tanto no consultório, quanto como consultora organizacional. Escrever textos vem sendo um desafio e uma paixão semanal desde 8 de março de 2008. Publicou seu primeiro livro, Vista da Janela, em 2011.

PEIXINHO E O GRUPO DE TRÊS

Quarta, 20 Março 2019 15:45
Na minha infância, vivi no Rio de Janeiro. Quase todos os dias, minha mãe, meu irmão e eu íamos à pracinha Afonso Pena. As primeiras lembranças que me vêm à mente são das escadas que tínhamos que descer para chegar à praça e dos muitos bancos de pedra onde as mães podiam se sentar, conversar e eventualmente nos vigiar. Lá podíamos andar de bicicleta, brincar de queimada, de polícia e ladrão, mímica, danças e uma infinidade de brincadeiras que inventávamos na hora. Não morávamos tão perto. Pode ser que, da Rua Aristides Lobo, onde morávamos, até a pracinha, não se levava mais que meia hora, mas para as minhas perninhas curtas era um trajeto longo e exaustivo. Na ida e na volta, eu ia reclamando e tentando fazer mamãe me dar colo. Invariavelmente, eu pedia para parar para tomar guaraná. Por favor, mãe, eu choramingava, todas as crianças param um pouco, se refrescam e tomam guaraná... Mamãe deve ter feito treinamento num quartel e sabia responder firme e forte que não. Ela me dizia para fingir que estávamos num deserto. Pelo tanto que escutei essa frase, imagino que minha mãe acreditava no valor desse exercício. Para não ouvir minha choradeira, mamãe entoava um hino que devia ser a abertura de uma novela do rádio. Logo meu irmão e eu nos juntávamos na cantoria. Foram tantas as repetições e tamanho era o entusiasmo com que era cantado, que esse hino grudou em minha cabeça e até hoje o sei de cor: “Abram alas que passa um cortejo, ao compasso de um hino de glória. Vale um beijo por vitória. Haja luta que eu quero venceeeeeeeeer! Somos dois e valemos o mundo. Somos dois, por enquanto e talvez se as vitórias forem muitas formaremos um grupo de trêêêês!” Ao cantar essa música, Julio, mamãe e eu nos dávamos as mãos, tornávamos cadenciados nossos passos e assim a caminhada seguia mais rápida e até animada. Na minha memória, havia na pracinha um lago enorme e perigoso que tinha as águas escuras. Na minha visão de menina de não mais que sete anos, ir pescar naquele lago era um desafio que só os muito valentes conseguiam enfrentar. Meu irmão e todos os seus amigos pescavam no lago. Minhas amigas não gostavam nada disso e nem chegavam perto, mas eu sentia uma atração irresistível e invariavelmente me juntava com os amigos do meu irmão para a pescaria. Ainda lembro os avisos da mamãe: Podem pescar, mas cuidado! Dois meninos já caíram nesse lago... E não coloquem a mão na boca, nem nos olhos depois de molhar nessa água imunda! Tem gente que de noite faz xixi nesse lago...! Mamãe sabia como ser convincente. Não usávamos vara. Pescávamos com caixinhas de papel de sorvete Kibon que achávamos jogadas pelo chão da praça. Trazíamos de casa um arsenal de pequenas bolinhas de miolo de pão. Tínhamos que ficar quietos e agachados, segurando a caixinha na água com a isca flutuando por cima. Quando um peixe aparecia para fisgar o miolinho de pão, tínhamos que ser ágeis e levantar a caixinha com o peixe dentro. Quando alguém pescava era uma gritaria danada. O pescador ficava eufórico como se tivesse feito um gol ou tivesse acabado de ganhar uma partida de algum jogo. Só consegui pescar naquele lago um peixe. Não fiz nada de diferente das outras de vezes. Tive sorte.  Foi um momento de glória. Meu irmão e seus amigos me rodearam. Até me deram parabéns. Será que realmente alguém me carregou no colo ou isso é invenção da minha cabeça? Corri para mostrar para mamãe. Ela, distraída, conversando com as outras mães, não deu muita bola. Sem olhar direito para o peixe, apenas falou: Ótimo querida, agora o devolva para o lago. Como assim? Nem pensar! Depois de tanto trabalho não era certo deixar meu troféu para trás. “Olhe, mãe, como ele é lindo! Vou leva-lo para casa.” Para grande espanto meu, nem houve discussão. Mamãe concordou. Levei o peixinho com muito cuidado e posso imaginar que ainda assim a água da caixinha de sorvete foi derramando pelo caminho. Quando chegamos em casa, corri para o banheiro e enchi de água a banheira. Agora sim meu peixe teria um local apropriado. Ele pareceu gostar daquele aquário grande e improvisado que lhe arrumei. Tomei banho com ele. Claro que só eu me ensaboei. Por algum motivo, que hoje não consigo decifrar, entendi que não deveria lavar o meu peixinho com sabonete. Ainda lembro como gostei de segurá-lo em minhas mãozinhas. Eu me esforçava para não deixa-lo escapar, mas ele era esperto e conseguia se desvencilhar de mim. Parecia que ele entendia a nossa brincadeira e eu entendi que ele era meu animal de estimação. Experimentei uma alegria enorme, diferente de outras que já haviam me acontecido. A brincadeira mudou e passei a jogá-lo para cima. De início devagar, mas como ele também estava gostando, fui aumentando as distancias. Teve vezes que eu o atirava bem para cima mesmo, o peixinho quase batia no teto. Adorei admirar seus mergulhos espetaculares. Meu peixe parecia estar se divertindo como nunca! Ele jamais brincou desse jeito naquele lago de xixi. Quando escutei a voz da mamãe chamando meu nome, senti pena de ter que interromper minha alegria. Como não respondi, mamãe veio pessoalmente me fazer sair do banho. Foi duro ter que parar a brincadeira para ir almoçar. Engoli a comida sem prestar a mínima atenção nas conversas que aconteceram e nos alimentos que ingeri. Estava com pena de ter que ir para escola. Cheguei a ensaiar um jeito de não ter que ir. Quis levar meu amiguinho para escola. Mamãe não deu trela para nenhuma dessas conversas. Entrei no banheiro e expliquei para o peixinho que logo estaria de volta. Entendi que ele ficou feliz em saber e fui vestir meu uniforme correndo. Já estava bem atrasada para pegar o ônibus escolar, mas antes de sair de casa quis me despedir mais uma vez do meu novo amigo. Encontrei-o deitado de costas. Mexi nele, mas ele não reagiu. Quis acreditar que estivesse dormindo, afinal ele brincou muito e poderia estar cansado. Acorda, sussurrei já me deixando levar por uma emoção muito forte e estranha para mim. Acorda!!!! Por favor, acorda! Devo ter entendido o que aconteceu e comecei a chorar. Mamãe apareceu. Meu irmão também. A pressa de ir para escola sumiu. Estávamos os três e o peixinho no banheiro. Lembro, ou construí a cena, de estar abraçada com mamãe e Julio. Mamãe disse algumas palavras, possivelmente sobre a vida do peixe e logo, muito prática e cheia de nojo, capturou-o com uma saboneteira, jogou-o no vaso sanitário e puxou a descarga: “Vá peixinho, vá em paz!” Fiquei atordoada. A pressa de não perder o ônibus escolar havia voltado. Crianças escutem a buzina, o ônibus já chegou! Vamos correr! Ainda atordoada, fui atrás do meu irmão, cumprimentei Seu Silvério, o motorista, e me acomodei num banco do ônibus. Meus pensamentos não se acomodavam. Eu estava num ônibus em movimento e minha alma estava presa no que havia acontecido. Não entendi como foi possível meu peixinho acabar assim. As copas das árvores passavam pela janela do ônibus. Parecia que ele estava tão bem, tão feliz...  

A PEQUENA E SEU HERÓI

Sexta, 15 Março 2019 09:13
Eu não dormia sozinha quando era criança. Meu irmão e eu dividíamos o mesmo quarto. Duas camas, uma caixa de brinquedos e um armário para nossas roupas. A janela não tinha grades nem redes e nunca nos atrevemos a fazer nenhuma estripulia. Julio tinha medo do escuro e enxergava o Lobo Mau nas sombras sinistras que apareciam nas nossas paredes todas as noites. Ele era mais velho e para mim era o modelo perfeito. Talvez nessa época tivéssemos cinco e seis anos. Nossa diferença de idade era exatamente um ano e vinte dias e sempre motivava espanto em quem ficasse ciente dessa realidade.  Ouvi mais de um adulto falar que meus pais não perderam tempo e isso me fazia variar de confusa a orgulhosa. Meu irmão era mais forte e mais alto que eu. Ele corria, pulava, nadava e fazia tudo melhor que eu. Quando jogávamos jogos de tabuleiro, invariavelmente eu perdia e choramingava me queixando para mamãe que ele ria de mim e não sabia ganhar. Essa minha atitude nunca me rendeu nenhum conforto, pelo contrário. Tinha que escutar as risadas mais altas do meu irmão e a voz da minha mãe me dizendo para deixar de ser boba. Ele teve facilidade para aprender a ler e lembro bem dele se deleitando quieto durante horas a fio com seus livros. Julio foi capaz de ler sem parar “Os doze Trabalhos de Hércules”, de Monteiro Lobato. Eram dois tomos. Fiquei imensamente admirada dessa sua proeza. Mais que admirada, fiquei chocada. Era um atestado da sua superioridade. Nunca cheguei perto desses livros. Resolvi que não eram para mim. Foi assim que eu iniciei uma construção de minha imagem com tijolos débeis. O material bom e forte estava no Julio. Por pouco eu poderia ter ficado irremediavelmente complexada, oprimida e abafada.  Não me lembro dele me ensinar a ler ou ler comigo algum livrinho. Na escola, fui aprendendo e fazendo progressos e ler se tornou algo que, como Julio, também me enchia de prazer. Eu gostava de me mostrar, gostava de aplausos e beijinhos. Era uma irmã caçula buscando farelos de aprovação em cada cantinho da vida. Todas as noites, tínhamos que ir dormir na hora que a TV avisava o início do Repórter Esso. Era um toque odioso. Uma trombeta insistente. Quando esse momento chegava, mamãe se tornava uma bruxa surda e louca que apontava para o banheiro para escovarmos os dentes e depois nos arremetia nas nossas camas. Nada do que argumentávamos adiantava para rompermos a regra do toque de recolher na hora do Repórter Esso. Mamãe nos cobria e nos dava um beijinho. Por fim, já quase fechando a nossa porta, nos dizia todas as noites a mesma frase em idish “Gai Schlufn mit Guesint ”. Mais do que o significado, “vá dormir com saúde”, eu entendia que eram palavras que vinham de muito longe e tinham um estranho poder. Com esse ritual, era para dormirmos imediatamente. Mas, quando o escuro tomava conta de nosso quarto, meu irmão se transformava ou era invadido por alguma alma muito medrosa. Não posso afirmar se eu tinha sono e adormecia. Nem sei quantas noites de fato presenciei seu pavor ao se deparar com o bicho assustador e mau. Eu poderia pegar na sua mão e conversar um pouco com meu irmão. Não acho que fiz isso. Poderia ter ido para caminha dele. Poderia tê-lo abraçado e sussurrado uma melodia doce para espantar seu medo. Não fiz nada disso. Se Julio via o Lobo, era por que o lobo estava realmente no nosso quarto. Se eu não o enxergava, era por eu ser ainda pequena e não tinha a habilidade que ele tinha. Lembro vagamente que mamãe e até papai entravam no quarto para acalmar meu irmão. Lembro-me, também muito esfumaçado, que o Lobo sumiu e passei a escutar que eram ladrões que estavam em casa. Nessa fase, após o toque de recolher e antes de deitar, meus pais faziam um giro com Julio pelo nosso pequeno apartamento, verificando com ele todas as portas e janelas. Não adiantava. Claro que não, afinal, monstros e pavores não obedecem a trancas. Eu poderia ter feito carinho nas suas costas e na sua cabeça até que ele adormecesse em paz. Não fiz. Creio que eu rezava em silencio para que o dia fizesse meu irmão retornar ao que era. Eu tenho quase certeza que rezava e dizia que não iria me importar se ele risse de mim quando ganhasse nos jogos. Como era grande o medo dele! Não sei como, nem quando exatamente, mas tudo isso passou. Minha mãe nunca deixou de nos beijar, de nos cobrir e de nos dizer a frase em idish. Hoje, sou adulta. Não consigo dormir sem me cobrir. Antes de fechar os olhos, sempre procuro a foto da mamãe, do papai e a do meu irmão. Ainda escuto aquela voz doce me bem dizendo em idish. Em muitas noites enxergo minhas mãos entrelaçadas com as de meu irmão. Quando no escuro das altas horas me reviro e não acho o rumo da serenidade, lá de uma foto, ou talvez de bem mais longe, me chegam sussurros em forma de acalento e mantra: Gai schlufn mit guesint, Gai schlufn mit guesint, Gai schlufn mit guesint...

VOCÊ QUER SABER MESMO A VERDADE?

Quarta, 20 Fevereiro 2019 16:42
Não era um temporal, mas chovia com gosto. Assim que chegamos, percebi que estávamos num hotel muito gracioso. Bichos de madeira de vários tamanhos e modelos, que tive certeza serem originários de Minas Gerais, estavam cuidadosamente espalhados por toda a propriedade. Quadros e enfeites nas paredes tentavam capturar minha atenção, mas as janelas com vistas para a natureza exuberante me fisgaram. No nosso chalé, me emocionei com uma colcha de patchwork. Alertei meu marido para o que tínhamos tão à nossas mãos: era uma arte esticada numa cama. Senti um chamado forte para entender a história daquela colcha. Meu marido embarcou comigo nessa fantasia e ficamos de mãos dadas saboreando o desvendar daqueles pedaços de tecido. Tínhamos tempo. Esse era o maior luxo.  Um final de semana só nosso. Quando sentimos vontade de comer alguma coisa, fomos nos dar conta que já era hora do jantar. Na verdade, faltava pouco para acabar o horário dessa refeição. Nosso quarto ficava no alto e uns cinquenta metros distante do refeitório. Não havia proteção, mas tínhamos guarda chuvas. Ainda dentro do chalé, mas com a porta aberta, eu olhava para o chão e via pedras, grama e lama. Eu não enxergava, mas havia certamente diabinhos prontos para derrubar incautos. Ou era esse o meu medo. Não nasci com medo de cair. Adquiri essa fobia após a queda que tive há mais de dez anos e que resultou na perda de um dente. Sempre tive dentes bonitos e fortes. Foi muito traumático enxergar o caco que restou após o tombo bem na frente de onde antes eu estampava meus sorrisos. Qualquer um que já caiu e se deu mal sabe bem a que estou me referindo. Recentemente meu marido caiu e fissurou uma costela. Sua queda foi causada por um acidente doméstico besta. Era uma tarde de sábado, hora de sossego e descanso. Rony estava sozinho em casa. Começou uma chuva forte e ele correu para fechar a janela da cozinha, pois estava entrando água. Ele escorregou, bateu a cabeça e caiu de lado. Então, de volta para cena do hotel, olhando para o chão lamacento, carregando meu pavor de cair e sendo empurrada pelo meu marido, eu surtei. Surtei de um modo diferente. Fomos para o refeitório. Não caímos, não aconteceu nada. Só me lembro da tensão. Andava como se estivesse em cima de uma corda bamba e sem rede protetora. Eu estava agarrada no marido tanto para evitar minha queda como a dele. Lembro que afirmei que não queria ir. Lembro que ele insistiu para eu deixar de bobagem. Notei que ele colocou o guarda chuva para me proteger melhor e assim estava se encharcando. Eu, orgulhosa, precisei clarificar: não tenho problema com a água, pode colocar o guarda chuva direito. Meu medo é de cair. Ele seguiu do mesmo jeito. Andamos aquele percurso em alguns minutos, mas a sensação foi bem diferente. O barulho dos pingos da chuva batendo no guarda chuva estava me remetendo a uma cena de um tiroteio. O escuro em torno de nós me avisava que uma queda não teria testemunhas. Meu marido devia estar pensando em coisas bem distintas. Não parecia nem com medo, nem assustado. Ele dava passos com firmeza e assim fez com que chegássemos ao nosso destino. Fomos saudados no refeitório como atletas que rompem a fita da chegada de uma corrida. Ou foi assim que interpretei o cordial “boa-noite” acompanhado de um gesto largo e efusivo do “maître”. Música, vinho, gostosuras e nada da minha tensão sumir. Queria não estar assim, mas estava. O meu botão do pânico parece que reverberava e fez acionar outros pontos que, em geral, ficam adormecidos. Não sei que música estava tocando. Tomei um caldo verde. Tinha frutos do mar. Sou alérgica. Queria sair daquela onda que havia me pegado. Tentei fazer umas inspirações de olhos fechados e soltar os ombros expirando. Na terceira tentativa, notei que meu marido balançou a cabeça. Em seguida, ele achou que seria apropriado dizer: Será que deveríamos ter ficado no quarto? Eu respondi com uma prontidão que deve ter vindo das minhas profundezas: Claro! Então ele se assustou. Fale mais baixo. Devo ter gostado. Vou falar desse jeito. Custa... ? Custa! Que bobagem, você vai estragar nossa noite assim?  Não quero estragar nada. Deixe-me ficar quieta. Melhor mesmo. E fiquei na minha. Lembro que meus pensamentos estavam borbulhando.  Fui buscar entender o que estava sentindo. Percebi um fio e fui puxando. Não sou muito boa para expressar minha raiva. Quando falo mais alto, tento colocar algum sentimento para fora. Meu marido, que foi educado em tons médios e baixos, não tolera brados e corta direto. Eu, que conheci a voz de trovão de papai, reajo com mais força. De onde pode vir essa raiva? Eu só identificava medo. Queria fechar os olhos e confiar em meu marido, mas o tamanho do meu pavor me dava certeza de que não podia fazer isso. Queria que ele tivesse me entendido e não me forçado. Ou queria ter conseguido não ir. Isso! Como uma flecha desvairada, a raiva que estava sentindo oscilava ora na direção dele, ora na minha. No meio do salão, sobre uma mesa redonda, um lindo palhaço italiano. Que peça maravilhosa!  A chuva seguia lá fora. Logo voltei a imaginar os diabinhos à espreita, mas desta vez sorri. Meu marido notou e deu um suspiro. Eu quis implicar com sua reação, mas abafei o caso e me voltei para meu prato. Era um risoto de funghi. Ele, todo gentil, quis saber se estava gostoso. Muito. Muito gostoso. Passou? O quê? Sua maluquice. Ah! Jura? Quer mesmo saber? Xi! Não. Pena que você não pode provar essa lagosta... Rimos. Rimos muito.  

UM FIM DE DIA INESQUECÍVEL

Quarta, 30 Janeiro 2019 17:01
Parecia que já era tarde. Na verdade, era hora do jantar das crianças, então não devia passar das dezenove horas. Meu cansaço fazia com que o meu relógio interno marcasse quase meia noite. Os dois meninos chegaram animados da escola. Era sempre assim. Fazia calor. Morávamos no Rio de Janeiro, onde o suor escorria o tempo todo, a não ser nos minutos debaixo do chuveiro. Sugeri que tomassem banho enquanto eu colocava a comida na mesa. Eles se largaram no sofá e ligaram a TV. Depois tomaremos banho. Está bem. Não durou muito tempo e percebi que cada um queria assistir um programa. Claro, senão não teria graça. As argumentações de ambas as partes foram se incendiando. As vozes viraram berros. O mais velho pegou o controle. O menor achou que era um convite para brigar. Quando cheguei à sala estavam embolados no chão. Parem com isso! Era uma briga misturada com brincadeira. Havia muita risada. Em geral, eu sabia que quase nunca essas situações acabavam bem. Então, começou a correria pelo apartamento. Era um apartamento de menos de oitenta metros quadrados. Os dois seguiam rindo. Eu estava cansada. Não estava com força nem para gritar, quanto mais para correr atrás deles e fazê-los sossegar. A intensidade dos risos, da correria e da bagunça chegou ao auge. Pensei comigo o que pode acontecer se uma única vez eu não me meter e deixa-los resolver sozinhos? Fui para cozinha. Os vizinhos deviam estar pensando que meus filhos estavam se matando. Era para eu me preocupar, mas dei de ombros, que se danem os vizinhos. Abri a geladeira e fui fisgada pela silhueta estimulante da garrafa de um refrigerante. Um gole iria me reanimar com certeza. Naquele tempo, os refrigerantes vinham em garrafas de vidro. Naquele tempo, eu ainda comprava refrigerante uma vez ou outra. A garrafa estava quase cheia. Tinha uma colherzinha no lugar da tampa. Meu marido um dia veio com essa novidade. Assim o gás não saía. Ele era o engenheiro da casa e se isso lhe agradava tanto, que mal havia em fazer? Quanto ao gás... Sei lá. Peguei a garrafa com uma das mãos. Foi tudo muito rápido. Da cozinha, ainda que de porta fechada, eu escutava o barulho infernal das crianças. A garrafa estava suada. Eu estava antecipando o prazer de beber aquele líquido gelado. Já podia até me sentir na neve com os ursos polares em um dos comerciais do refrigerante. Nem alcancei colocar o líquido no copo. A garrafa escorregou da minha mão. Na verdade ela deslizou. Foi direto para o meu pé. Eu devia estar dando um jeito na situação, fazendo os meninos sossegar, mas fui incapaz. Que dor! Escutei a chave na porta. Marido chegando. Sem vê-lo, pude imaginar sua aparência cansada de fim de dia. Aliás, páreo duro com a minha. Imaginei que ele poderia estar pensando que mãe é essa que nem consegue manter os filhos em paz? Essa era eu. Acontece. Errei. A dor estava lancinante, estava prestes a desmaiar. Não! Nada de desmaiar. Respirei fundo. Entrei na sala com a bolsa a tiracolo, com o dedão sangrando enrolado num pano de cozinha e avisei que estava indo pegar um taxi em direção a um pronto socorro. Eu levo você. Vamos todos juntos. Foi a minha vez de berrar: Não! Você fica com eles! Os pronomes foram ditos com clareza e muita ênfase. Feito uma louca me joguei para fora do apartamento. Eu tinha pressa. Pressa de fugir. Fugir da bagunça que reinava por minha falta de competência ou energia ou ambas as coisas. O dedão fraturado me possibilitou descansar e refletir por algumas horas dentro de um pronto socorro, que naquele momento me pareceu um lugar quase bucólico comparado com meu lar.

O FORMULARIO

Quinta, 13 Dezembro 2018 16:54
Junto com a correspondência, veio um formulário para ser completado. Ao perceber em mim um ar de “pra que isso”, meu marido se apressou a explicar que era uma medida aprovada na reunião de condomínio e era para a segurança do prédio. O novo síndico quer que todos os moradores atualizem seus dados. Isso significa, em primeiro lugar, os nomes, telefones e e-mails. No mesmo formulário tem a parte que corresponde à garagem e os carros que a utilizam. Até aí fácil e rápido. Por fim, três nomes de pessoas a quem devam procurar em caso de urgência. Aí pegou! Essa parte ficou reverberando estranhamente dentro de mim. Como tenho dois filhos, pensei que nada é mais correto que lhes incumbir desta tarefa, quando ocorrer essa triste necessidade um dia. Preenchi as duas linhas sem querer entrar nas discussões que pipocavam na minha cabeça. E o terceiro nome? Caramba! Havia uma pessoa que sempre esteve presente e sempre me ajudou. Hoje ele é um executivo ocupado, viaja muito e não tem tempo para nada. Não posso colocar o nome dele. Certamente ele não estará disponível. Então quem? No prédio, apesar de mais de duas décadas morando no mesmo lugar, não sinto a intimidade necessária para convocar um vizinho para me socorrer. Não tenho o costume de entrar no apartamento deles. Imaginei ter que me expor, caída, mal arrumada, ou nua e suja... Não! Parece que estou de antemão me desculpando por algum trabalho que venha a causar, mas melhor não... Veio a minha mente algumas pessoas que já estão cuidando de outras. Achei que seria uma enorme falta de sensibilidade de minha parte aumentar a carga de uma pessoa assim sem mais nem menos! Não tenho irmãos e meus primos e tios moram longe de mim. Muitos dos meus amigos estão vivendo seus próprios e complicados problemas. Definitivamente, não cabem os meus nas suas costas. O espaço em branco foi aumentando. Quem? Uns dois porteiros do clube e todos os do meu prédio sempre me cumprimentam alegremente e sabem meu nome... Não. Não sinto que deva colocar o nome de um deles. Essa tarefa exige mais intimidade. Então minha cabelereira ou a manicure? Até podem ser, mas quero seguir pensando. Quem estaria por perto, disponível, forte e capaz de tomar decisões e encaminhar uma ajuda? Estranhamente, mas como costuma me acontecer, essa busca me jogou no passado. Dessa vez eu estava nos meus catorze anos, morava com meus pais e irmão num prédio, em Copacabana. Um dia chegando da escola, encontrei mamãe muito aflita e ela me revelou que a filha da vizinha do quarto andar tinha tentado se suicidar. Levaram a moça e sua mãe para o hospital. O pai que havia chegado minutos após, ficou sozinho e atordoado no apartamento deles. Sem trocar de roupa, beber água ou dar a oportunidade da razão ter alguma voz, fui ao encontro do homem atordoado e o acompanhei num taxi até sua esposa e filha no hospital num bairro vizinho. Não lembro nada além de chegar ao hospital e voltar para casa. Carrego junto com essa lembrança uma sensação de ter feito a coisa certa com rapidez. No entanto, e ainda bem, minhas reflexões atuais me apontam para a impulsividade da jovem que eu era na época. Com a pressa de resolver, me livrar da enorme angustia, muito provavelmente, consegui atropelar outras pessoas. Eu levei o pai para o hospital. Será que a esposa dele e sua filha o queriam lá? Será que um parente deles estava a caminho para fazer isso? E se eu não tivesse ido? Minha mente se desloca para lembranças de outras épocas. Ainda segui me adiantando e agindo como “heroína salvadora” em muitos momentos de minha vida. Era a minha busca de afeto e admiração. Possivelmente, algumas vezes, consegui essa tão desejada retribuição. Em outras, deixei que a inconveniência respingasse. Enquanto isso a terceira linha segue em branco. Esse espaço no formulário, que está tão complicado para eu preencher, me faz ir longe e fundo. Há quem nem vá acreditar, mas como sou dada a aceitar de cabeça convites de mergulhos dentro de mim, esse exercício de escolha me faz sentir pequenininha e encolhida. E ainda fraca. Frágil. Não consigo chamar ninguém. Estou molhada. Pode ser suor. Quero me mexer para demonstrar que vivo. Consigo um movimento com uma perna. Não sei se adiantou... Não ouço nada. O silêncio me preenche. É assim que me enxergo, tentando imaginar a tal situação de emergência. Para fazer a coisa bem difícil, meu marido não está por perto. Ele sim saberia me ajudar. Mas como uma regra de um jogo cruel, ele, no tal futuro, na situação de emergência, nesta que me força a escolher quem vai me ajudar, ele não estará por perto. O formulário parece gritar que não tem o dia todo para esperar um nome. Sinto, pela forma mais cadenciada e tranquila da minha respiração, que estou calma. Sei que o exercício deve terminar. Respiro devagar. Inspiro e solto. Sinto meu corpo. É como se fizesse uma chamada mental de cada parte... Dedos do pé? Presente! Joelhos? Presente! E assim vai. E então me alongo. Estou inteira novamente com a folha de papel e as opções que havia pensado para compor o trio salvador. Estou achando que esse novo síndico, sem nem de longe adivinhar o motivo, começou muito bem sua gestão.            

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