VIVENDO COM IMPERFEIÇÕES

Terça, 19 Setembro 2017 16:27 Escrito por
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Quando abri a porta, conheci Seu João Batista. Chamou-me a atenção seus olhos cansados. Pode ser que simplesmente espelhavam os meus. Era um feriado e fazia um calor tremendo. No dia seguinte chegariam meus parentes que iriam ficar três dias em casa e os azulejos de uma das paredes da área de serviço estavam estufados, prestes a cair. Na véspera, tentei trazer algum dos meus conhecidos que sempre me salvaram em situações assim. Nenhum estava disponível. Só depois do feriado. Eu estava quase apelando para a internet, quando fui interceptada pelo meu marido que me questionou sobre quem me daria referencias de pessoas desconhecidas... Achei que ele estava sendo sensato e merecia a oportunidade de resolver esse desafio sem minha intervenção. A sorte lhe sorriu e lhe colocou em contato com o Seu João Batista, vizinho do nosso porteiro da noite e segundo esse, um homem religioso e de total confiança. Esse santo homem se dispôs a vir em pleno feriado nos salvar. Quando Seu João entrou na área de serviço do nosso apartamento, notei algo peculiar no seu jeito. Era como se ele estivesse tentando escutar algum som, alguma mensagem vinda daquela parede adoecida. João ficou um bom tempo sendo só silencio.  Quando se deu por satisfeito, mudou sua forma de proceder e passou a acarinhar os azulejos, como se fossem doentes e ele estivesse ali para curá-los. Confesso que fui capturada logo de início assistindo a essa cena tão poética. Enquanto Seu João e eu estávamos deslumbrados, meu marido, muito mais prático que eu, relatava para João uma aula que viu no youtube sobre como salvar azulejos prestes a cair colocando fitas adesivas. A poesia e a urgência prática, em geral, não são companheiras. Havia a necessidade de tinta e outros materiais. Quis o destino que meu marido fosse resolver essas pendencias. Fiquei só com Seu João. Com cuidado para não lhe constranger, ofereci fita adesiva. Seu João não riu com a boca, mas notei que por dentro gargalhava. Com a mesma mão cuidadosa que antes fez carinho nos azulejos, ele bateu aqui e ali para me mostrar que o assunto era grave e sem tempo para muitas elucubrações. Seu João estava sem nenhum tipo de proteção. Ofereci-me para lhe trazer um casaco do meu marido. Ele disse que não precisava e no segundo seguinte um estrondo enorme marcou a queda de todos os azulejos da parede. Todos! Evidentemente, todos se quebraram. Alguns caíram em cima dele e outros em cima de mim. Nós não nos machucamos. Não sei dizer a razão. Pode ser que João seja mesmo santo, tenha o corpo fechado. E eu? Acho que tive muita sorte. A poeira e a sujeira de cacos de azulejo estavam por toda parte na área de serviço. Não havia pressa, nem urgência na atitude contemplativa do João. Quis chama-lo de volta ou tirá-lo do transe e me prontifiquei a ser sua ajudante. Ele me mostrou que trouxe uns sacos grossos onde poderíamos colocar o entulho. Fui esperto, ele se gabou. Sem luva, nem nada para proteger as mãos, fui catando os pedaços de azulejos e promovendo um início de arrumação. Levamos um tempo, mas conseguimos. Então, João me contou que quando ele estava saindo de casa, seu filho chegou com os netos. Um casal de gêmeos de um ano e meio. Lindos, espertos, umas gracinhas. Entendi que era hora de fazer um intervalo. Vi as fotos no celular dele, enquanto tomamos café expresso e comemos uma torta de ricota. Ele me contou que a esposa estava doente. Era ele que fazia tudo agora. A senhora me ensina a fazer essa torta? Escrevi a receita e lhe entreguei. Ela vai ficar maluca quando eu aparecer com essa gostosura. Quer ir para sua casa? Até que horas as crianças vão ficar lá? Não sei. Nunca se sabe. Meu filho não avisa se vem e não diz quanto tempo vai ficar. Chato, mas ainda bem que vem... Claro! Nem ligo! Acho que é uma boa ideia ir embora agora e voltar depois de amanhã para passar a massa e pintar. Amanhã não é possível? Não, amanhã tenho compromisso. Deixa que lhe ajude a levar esses sacos. A senhora é uma boa ajudante. Obrigada. Quando voltei para casa, fechei a porta da área e adiei o fim da história. No dia seguinte, como previsto, meus parentes chegaram. O problema na área de serviço não afetou em nada o ânimo ou a programação dos visitantes. No sábado pela manhã, dia em que Seu João voltou para finalizar seu trabalho, fui com meus familiares passear numa exposição de flores, enquanto meu marido foi providenciar os pedidos que Seu João lhe fez. Deve ter sido um dos dias mais quentes do ano, mas meus tios e primos não se deixam abater por coisas miúdas como temperaturas elevadas ou falta de umidade no ar. Eles são resistentes e determinados. Vimos quase tudo o que tínhamos direito e voltamos para almoçar em casa. A tarde já estava no meio quando fui examinar as quantas andava o serviço do Seu João. Difícil explicar. Ele se revelava ao pintar a parede. Pintava exibindo uma total falta de habilidade. As imperfeições eram várias e notórias. E ele pintava. Em um dado instante, ele parou e me perguntou se eu não achava que o seu trabalho já estava merecendo um Salve e uma Aleluia. Como fui pega de surpresa por tal questionamento, pigarreei e respondi que valia a pena olhar aqui e ali alguns probleminhas antes das exclamações. Ah! Estava bem pior, já remendei o máximo... Entendi onde nós havíamos chegado. Salve Seu João! E Aleluia também! Então acabou? Não! Ainda vou jogar água no chão. Deixa. Sou a ajudante. Esse é meu serviço. Tem razão. Paguei o combinado. Gostei muito de trabalhar na sua casa. Vou lhe dizer um segredo: a senhora sabe que eu nunca fiz isso na minha vida para ninguém? Já pintei minha casa e já quebrei uns galhos por lá, mas assim como esse serviço é a primeira vez. Esse dinheiro está chegando numa boa hora. Estou orgulhoso de mim! É para estar orgulhoso mesmo, Seu João... Quando precisar, me chame e pode me indicar também. Claro, Seu João. Com o tempo a senhora nem vai mais perceber os furinhos ou as partes que não estão muito lisas. Vai esquecer ou vai ter outras coisas para pensar. Eu sei Seu João, sei que a vida segue. Tem certeza que vai dar conta de limpar tudo sozinha? Tenho. Está calor e vai ser gostoso jogar água nos pés. Ele foi. Foi e deixou mais que marcas na parede. Varri, catei e depois joguei água no chão. Era como se eu seguisse conversando com aquele homem. Dois dias depois, bem cedo pela manhã, com meu copo de café com leite na mão, tive vontade de ir olhar novamente a parede pintada pelo Seu João. Ela estava do jeito que ele a deixou, mas para minha grande surpresa, alguns pisos no chão estavam levantados. Olhei bem para me certificar de que era uma cena real. Era. Nada de pânico. Provavelmente os azulejos que despencaram da parede provocaram essa situação. Chamei meu marido para que ele tomasse ciência do novo fato. Foi gostoso quando ele me abraçou e com bom humor selou aquele instante: Vamos chamar o Seu João?  

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