HÁ QUEM ENTENDA

Terça, 02 Julho 2019 08:14 Escrito por
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Descobri, há muito tempo, que me recarrego na água. Sem praia por perto, resolvo essa questão na piscina mesmo. Entro e logo sinto a água abraçar docemente a minha pele. Não escapa nem um pedaço do meu corpo. O prazer é imediato. Afundo e fecho os olhos. Deixo-me inundar pelo silêncio. Tudo que me chama, me cobra e por vezes até me tortura fica agora num outro lugar. Longe. Fico num estado de suspensão, sem pressão. Sou capaz de capturar a leveza de cada parte do meu corpo. Nesses instantes, músicas me invadem. Algumas são doces e calmas. Outras nem tanto. Gosto de todas. Faço movimentos. Imagino que bailo. Queria ter aulas de ballet quando era menina. Foi um querer sem força e mamãe não o capturou. Nunca fiz essas aulas. As sapatilhas e as roupas das bailarinas sempre me chamaram a atenção. Posso ter tido inveja e ciúmes. Não tenho certeza. No fundo da piscina, imagino que consigo bailar. Imagino que estou linda, uso uma maquiagem leve e elegante, visto um collant rosa pálido com saia frufrus e meus cabelos longos estão presos num coque bem feito. Ao som da música, movimento meus braços e pernas com o máximo de delicadeza. Viro as mãos lentamente. Deixo-me cair para um lado e depois para o outro. Solto o pescoço e ergo a fronte. Sou bailarina. Que alegria! Não sei o que os olhos dos outros enxergam. Em geral, pensar no que os outros pensam me desconcentra. Volto à tona e respiro. Encho meus pulmões ao máximo para fazer durar o próximo momento lá embaixo. E vou. Não sei ao certo se tocarei o fundo se esticar meus pés. Abraço meus joelhos e rodopio. Perco a noção espacial. Onde é para cima? Onde é para baixo? Doce sensação de bem estar. Seria assim no ventre materno? Em meio a esse estado tão sereno, me vem à lembrança um medo de uma forte dor de ouvido. Quando era criança tinha muita dor de ouvido um ou dois dias após ir à praia ou à piscina. Então, ficou registrada em mim a certeza de que ao entrar água nos meus ouvidos eu seria sempre amaldiçoada com muita dor. E ainda no fundo, totalmente inebriada com o grande prazer de estar leve e em paz, percebo que a minha resposta sensata vai eclodir. Costumo ser muito competente para dar respostas racionais. Dou um basta no meu prazer. Vou para a superfície e respiro. E penso que já foi bom. Queria ficar mais, mas me conformo com o que foi bom. Afinal, não vou querer ter dor de ouvido. Certo? Certo... E me aprumo. Seguro na borda. Abro os olhos. Há gente em volta. Alguns, sonolentos, esticados ao sol e preguiçosamente largados, parecem me olhar. Será que olharam? Tanto faz. Grito para mim mesma que não ligo. Decido que é hora de fazer outros exercícios. Não vou afundar nem deixar mais entrar água nos ouvidos. Agora vou nadar em vários estilos. Deito-me de bruços na água e inicio com uma escalada. Estico um dos braços e com a mão agarro uma corda imaginária. Alterno os braços. Já não estou com frufrus nem coque. Minha escalada exige força, mas principalmente coordenação e aproveitamento dos movimentos. Os joelhos se dobram, os pés empurram. Deslizo na água. Meus braços são como os remos num barco quando um bom remador os maneja. Gosto de voar nessas escaladas. Parece que escuto a voz da minha professora dizendo para ir mais rápido, mais rápido, mais rápido. Estou voando! Meu coração dispara. Sinto um alarme dentro de mim e diminuo a velocidade. Preciso me reequilibrar. Inspiro e expiro. Repito até me sentir bem. O alarme já parou de tocar. Largo a corda e passo a nadar de peito. Meu coração volta ao normal. Nada de correr mais. Agora o que importa é a resistência. Tenho ritmo e uma perfeita coreografia entre minhas pernas e braços. Minha cabeça afunda pouco. Obviamente, não posso permitir entrar água nos meus ouvidos. Não me sinto cansada. Posso nadar dezenas de vezes percorrendo a extensão da piscina. E vou e volto e vou e volto. Lembro que é preciso compensar a coluna. Viro e nado um pouco de costas. Olho para o céu. Admiro as nuvens. Identifico rostos e bichos. Eles somem rápido. Como se brincassem comigo. Costumo rir. Aparecem outros. Muito legal! Volto para o peito. E vou e volto e vou e volto. Imagino que seguro um monte de balões com gás. Eles se soltam de minhas mãos. Não me apavoro. Até acho divertido. Busco pegá-los de volta. São meus pensamentos. Confesso que muitas vezes, ao capturar um deles e me dar conta do que se trata eu o solto novamente e deixo que ele fuja para bem longe de mim. Sensação de alívio. Sinto-me bem. Continuo nadando. Indo e voltando. E examinando os balões que consigo recapturar. E soltando quando sinto que é o que devo fazer. O relógio da piscina me mostra que já é momento de parar de nadar. Não me oponho. O dia ainda me oferece vários convites. Vou para a borda. Hora do alongamento. Para alongar os músculos da coxa, costumo tomar cuidado com meus joelhos. Assim como os ouvidos, os joelhos sabem me fazer sentir dor. E eu não gosto nem um pouco quando isso acontece. Pronto! Consegui dobrar e depois esticar muito bem minhas pernas. Alongo os braços. Giro os ombros para frente e para trás. Só falta agora segurar firme na escada e subir os degraus para sair da piscina. Do lado de fora olho para água como se precisasse agradecer e fazer uma despedida. Não falo, apenas penso. Logo voltarei. Isso é certeza! 

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